“Ninguém tem o direito de acusar o Papa ou pedir que renuncie”. Entrevista com Gerhard Müller

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28 Novembro 2018

“Ninguém tem o direito de acusar o Papa ou pedir que renuncie!” Os ataques e as polêmicas públicas “acabam questionando a credibilidade da Igreja e da sua missão”. O cardeal Gerhard Ludwig Müller, teólogo e ex-prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, nos recebeu em sua casa situada na Praça da Cidade Leonina, onde morou, durante um quarto de século, o cardeal Joseph Ratzinger. Ele está preocupado com o clima que se respira na Igreja, com as tensões, as polarizações e as facções.

A entrevista é de Andrea Tornielli, publicada por Vatican Insider, 27-11-2018. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

O arcebispo Carlo Maria Viganò publicou um “comunicado” no final de agosto em que acusa o Papa por um suposto “acobertamento” do cardeal Theodore McCarrick. Ele chegou inclusive a pedir a renúncia do Papa. O que você acha disso?

Ninguém tem o direito de acusar o Papa ou pedir que renuncie. É claro que é possível ter pontos de vista diferentes sobre os problemas existentes e sobre as formas de resolvê-los, mas devemos discuti-los de acordo com os papéis de cada um e, no final, são os cardeais, como representantes da Igreja de Roma, que podem ajudar o Papa ou pedir-lhe algumas explicações. Mas isso deve dar-se de maneira reservada, nos lugares adequados, e sem nunca criar uma polêmica pública, com ataques que, no final das contas, acabam questionando a credibilidade da Igreja e da sua missão.

Pessoalmente, estou convencido de que o Papa Francisco faz o possível para combater o fenômeno dos abusos contra menores e para fomentar uma nova espiritualidade dos sacerdotes, que devem agir de acordo com o coração de Cristo e para o bem de todas as pessoas, sobretudo das crianças e dos jovens.

O terrível escândalo dos abusos é usado para batalhas dentro da Igreja. Você concorda?

Todos devemos cooperar para superar esta crise que fere a credibilidade da Igreja. Infelizmente, temos esses grupos, esses “partidos” (os chamados “progressistas” e “conservadores”). Todos nós estamos unidos em torno da fé revelada, e não por preconceitos de ideologias políticas. Nós não somos um órgão político. A Igreja foi instituída por Jesus Cristo e é guiada pelos bispos e, sobretudo, pelo Sucessor de Pedro, que é o princípio permanente e fundamental da unidade da Igreja na verdade revelada e na comunhão sacramental, em nosso ser irmãos e no confiar uns nos outros, como lemos na Constituição conciliar Lumen Gentium, no número 18.

Espero que o Papa possa fazer algo para uma reconciliação. Por exemplo, para enfrentar a crise que se seguiu aos escândalos dos abusos nos Estados Unidos, poderia nomear uma comissão de cardeais de sua confiança para estudar a situação e depois, com base em informações sólidas, fazer algumas propostas, ultrapassando as contraposições, as lutas entre frações, as suspeitas recíprocas e as campanhas midiáticas de propaganda. Precisamos de uma base sólida de informações: só assim seria possível tomar decisões para o futuro.

Não há dúvida de que os abusos de menores são um crime e um pecado abominável. Você não acha que há muita confiança na Igreja nas “best practices” e nas normas como solução para o problema? Não existe o perigo de esquecer que a Igreja não é uma empresa?

O Direito Canônico é um instrumento para nós, uma ajuda necessária para a Igreja, que, como qualquer “societas”, precisa de suas regras. No Direito Canônico temos normas de direito divino que não podemos mudar, mas também normas de direito humano, eclesiástico, que podemos mudar e atualizar para responder cada vez melhor às exigências e às circunstâncias que precisam ser enfrentadas. Mas nós, a Igreja, somos uma realidade sacramental e espiritual, e as dimensões da moral e da fé são mais importantes: as regras, as normas e a disciplina externa não são suficientes.

Precisamos de uma renovação espiritual, de oração e penitência, para nos aproximarmos dos sacramentos, para lermos e meditarmos a Bíblia, para entrarmos no Espírito de Jesus Cristo. Devemos ser sacerdotes segundo o coração de Jesus, o coração de Jesus Cristo na cruz, que sofreu e morreu por amor a todos os pecadores e por cada ser humano. O presbítero é um “alter Christus”, não porque seja bom ou por causa de suas habilidades, mas porque dá seu coração pelos homens. Devemos dar testemunho disso e, dessa maneira, restaurar a credibilidade da Igreja para que as pessoas possam encontrar a fé.

Bento XVI e Francisco, diante dos escândalos dos abusos, insistiram no caminho da conversão e da oração...

É o caminho mais autêntico. Existem procedimentos que foram estabelecidos para combater o fenômeno, mas a renovação espiritual e a conversão são mais importantes. Há sacerdotes que quase nunca fazem os exercícios espirituais, quase nunca vão ao confessionário, não rezam o breviário. E quando a vida espiritual está vazia, como pode um sacerdote agir de acordo com Cristo? Ele corre o risco de se tornar um “mercenário”, como lemos no Evangelho de João.

Provocou uma grande celeuma o fato de que a Santa Sé tenha pedido aos bispos dos Estados Unidos para que adiassem a votação sobre as novas regras antipederastia que previam a criação de comissões de leigos para investigar a responsabilidade dos bispos e dos códigos de “accountability”. O que você acredita que aconteceu?

De acordo com a instituição sacramental da Igreja, os bispos têm sua responsabilidade, o Papa tem sua responsabilidade, mas todos devem colaborar. Temos regras suficientes no Direito Canônico. Temos o “motu proprioSacramentorum Sanctitatis Tutela de 2001, temos as normas já existentes da Congregação para a Doutrina da Fé, e nem sempre todos os bispos colaboraram com o nosso dicastério. Eles não prestaram as informações, conforme está estabelecido que fosse feito. Em primeiro lugar, devemos fazer o que as normas já existentes estabelecem e indicam como necessário e obrigatório.

E, em seguida, se poderia colaborar, em um espírito fraterno de colegialidade, e talvez discutir se o tom do texto proposto era adequado. Disseram-me que o texto chegou a Roma dos Estados Unidos no último momento: por que não foi enviado antes? Devemos evitar o confronto e a polêmica pública e discutir juntos antes de chegar a uma decisão. Nós temos que conversar mais antes.

Eu achava que era necessário que a presidência da Conferência Episcopal estadunidense tivesse feito consultas antes aos nossos especialistas da Congregação para a Doutrina da Fé. O Santo Padre é uma pessoa só, não pode ocupar-se com cada coisa. Para isso existem os dicastérios da cúria romana, para colaborar e apresentar uma proposta bem elaborada para apresentar ao Papa.

Há quem insista que o problema dos abusos está relacionado ao problema da homossexualidade do clero. Qual é a sua opinião?

A pederastia e a homossexualidade são expressões da psicologia que ajudam a Igreja em sua teologia moral. Mas, para nós, a dimensão é moral: isto é, se se age de acordo com os Mandamentos, de acordo com a santa vontade de Deus ou não. Este é o problema para nós. Devemos colaborar com a psicologia e com a sociologia, mas nós, na Igreja, ao nível do magistério moral, não precisamos colocar em primeiro lugar essas disciplinas. Devemos, pelo contrário, nos basear na teologia moral.

Está claro que, de acordo com a vontade de Deus, não é possível os fiéis leigos terem relações sexuais fora do matrimônio, e para um sacerdote (que se comprometeu a viver o celibato) não é possível ter relações sexuais. Muito menos que alguém abuse sexualmente de crianças ou adolescentes. O abuso de menores é um pecado abominável, que rouba a alma dos pequenos confiados aos nossos cuidados, é algo diabólico! Nós devemos elevar o nível moral do clero.

Quanto à sua pergunta: não podemos falar de “homossexuais”. Os “homossexuais” como categoria não existem. Existem pessoas concretas que têm algumas tendências e há as tentações. Nosso coração está ferido pelo pecado original e devemos vencer as tentações com a graça, a nova vida em Jesus Cristo. Sempre chamando pecado ao pecado e reconhecendo-o como tal, para não cair na corrupção de alguém que peca e se autojustifica.

O Papa Francisco fala de abuso de poder e clericalismo para indicar que, antes de ser um abuso sexual, o ato perpetrado por clérigos contra menores ou adultos vulneráveis é um abuso de poder por parte daqueles que exercem autoridade sobre a vítima. Por isso, se pode dizer, por exemplo, que McCarrick não tinha simplesmente relações homossexuais com seus seminaristas, mas que abusava deles.

Penso que o Papa quer enfatizar que, no abuso sexual de menores cometido por sacerdotes, há sempre um abuso de autoridade natural e espiritual do sacerdote. Ele é representante de Jesus Bom Pastor, as crianças e os adolescentes confiam nele e ele exerce uma paternidade sobre eles. O abuso sexual começa com um abuso de autoridade e de consciência. Penso que é isso que o Santo Padre queria dizer. Se alguém está secularizado no coração, para ele as categorias do poder, do interesse, do luxo, do dinheiro, do prazer, se convertem em ídolos. O sacerdote não deve ser mundano: nosso tempo, nosso ser, é para o povo, para o povo de Deus.

O Papa Francisco insiste em chamar a atenção para o clericalismo...

Eu não gosto desta palavra, porque é ambivalente, mas, como lhe disse, significa o abuso dos poderes de ofício por parte do sacerdote, que deixa de ser um bom pastor segundo o coração de Jesus e transforma-se em um mercenário. Estas são as palavras da Bíblia.

Eminência, o que acha da polarização e da ênfase com que certos grupos e meios de comunicação instrumentalizam algumas nomeações errôneas, talvez com omissões significativas segundo os grupos aos quais pertencem?

Temos numerosos exemplos muito claros na Bíblia: o próprio Jesus chamou os doze apóstolos e um deles era um traidor, Judas. Também gora é possível ao Papa nomear uma pessoa que é “falsa”, que não é adequada para a tarefa, para o episcopado. O próprio Jesus Cristo, apesar de conhecer tudo graças ao seu intelecto divino, deixou a liberdade ao traidor Judas. Cada um é responsável pelo seu pecado: nós podemos, pelo processo de seleção com as Congregações, mediante todos os nossos julgamentos humanos, fazer o nosso melhor para escolher um bom candidato. Mas o Papa não é responsável pelo que esses bispos fazem, assim como os bispos não são responsáveis por tudo o que seus sacerdotes fazem. Cada um é pessoalmente responsável pelo mal que comete.

Então, como se poderia melhorar o processo de seleção dos bispos?

Para nós, humanos, não é possível formular um juízo absoluto e perfeito. Fazemos isso de acordo com as nossas possibilidades limitadas, de acordo com o que nos foi concedido saber. É preciso procurar candidatos idôneos para o episcopado, mas o Papa não é infalível na nomeação de alguém. E também não poderemos evitar completamente os erros no futuro. Temos que aprender com os erros, tentar cometer cada vez menos, tentar fazer cada vez melhor o nosso trabalho de seleção.

Mas, nós somos humanos e, como tais, somos todos pecadores e falíveis. Todos nós temos necessidade da misericórdia e do perdão de Deus, todos nós devemos nos reconhecer pecadores. Nós não precisamos daqueles que se levantam como juízes ou vingadores, considerando-se justos.

Estou convencido de que um passo significativo seria promover uma maior colaboração entre os diferentes dicastérios da cúria romana pelo bem da Igreja. Cada um dos dicastérios responde diretamente ao Papa, mas a colaboração horizontal deveria ser corroborada.

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