Até o magistério tem algo a aprender. O teólogo Söding a respeito de como se fala da homossexualidade na Bíblia

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17 Outubro 2018

Afirmações críticas sobre o modo de considerar a homossexualidade na Bíblia provocaram ao padre jesuíta Ansgar Wuchenpfennig as críticas do Vaticano. Mas de quais pontos da Bíblia se trata, na prática? Uma análise de Thomas Söding, teólogo da Ruhr-Universität em Bochum.

A entrevista é publicada por Dom Radio, 11-10-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

O que existe na Bíblia sobre a homossexualidade?

Muito pouco. Aquele pouco que é encontrado na Bíblia - mais no Antigo Testamento do que no Novo - também é muito escasso e conciso. É absolutamente controverso, depreciativo, muito longe da cultura de debate que temos no século XXI.

Existe uma diferença entre o Antigo e o Novo Testamento sobre a avaliação da homossexualidade?

O Novo Testamento depende do Antigo em cem por cento. No Antigo Testamento existem avaliações negativas da homossexualidade. No Novo Testamento, o tema não é abordado de forma alguma. Isso é um pouco surpreendente, dado que o Novo Testamento se abre para o mundo dos gregos e dos romanos. E sabemos, pela história da civilização antiga, que naquelas culturas a homossexualidade – e, de resto, até mesmo a pederastia, etc. - eram avaliadas de maneira diferente, isto é, mais abertamente do que no contexto judaico. Mas o apóstolo Paulo que, pode-se dizer tenha feito as declarações mais fortes e, aliás, as únicas no Novo Testamento, tem uma orientação similar ao Antigo Testamento.

Em uma entrevista há dois anos, o padre Wuchenpfennig disse que pontos da Bíblia formulados de maneira equivocada seriam o motivo da atitude de rejeição da Igreja Católica aos homossexuais. Como exemplo, ele citava a Carta aos Romanos do apóstolo Paulo. O que Paulo escreve? Paulo pretende esclarecer o conceito: onde a orientação para com Deus é abandonada, as relações humanas também mudam. Então também muda a visão do que é bom ou ruim, certo ou errado. Paulo expressa isso usando diferentes palavras-chave, que são listadas nos chamados catálogos de depravações. Dessa forma, estereótipos antigos são transmitidos. E um deles é precisamente aquele que - de acordo com a opinião dominante - está ligado à homossexualidade. Isso deve absolutamente ser relacionado com as condições culturais e sociais da época. E não tem nada a ver com a atmosfera de Gay Pride atual. Por outro lado, em muitos casos havia relações de poder, porque, por exemplo, os escravos eram explorados sexualmente, e, aliás, também as escravas.

De fato, não há uma discussão do tema como hoje esperaríamos do ponto de vista psicológico, mas são transmitidos determinados estereótipos. E o problema é quando, a partir de tais conceitos antigos - na época considerados óbvios -, agora se tirem conclusões com afirmações normativas na doutrina da Igreja Católica.

Então, acontece algo problemático que, no debate atual, corre o risco de voltar atrás em relação à diferenciação que, graças a Deus, nas últimas décadas também entrou no magistério católico.

Porque o magistério católico não é tão indiferenciado, como muitas vezes se autoapresenta, como agora no caso das posições Ansgar Wuchenpfennig, mostradas como "escândalo".

Como devemos avaliar hoje aquelas declarações bíblicas que, comparadas ao modo de vida atual, parecem inadequadas?

Em primeiro lugar, não se pode ler apenas a Bíblia. A própria Bíblia justamente diz que também se pode abrir os olhos para os sinais dos tempos. A Bíblia deve ser considerada de maneira diferenciada. Seria a última coisa que nós, como teólogos católicos, nos colocássemos a argumentar "biblicisticamente".

Certamente a Bíblia, nas circunstâncias históricas de sua época, chama a atenção para algo que agora tenho a impressão que corre o risco de nos escapar. Isto é, de fato, que existem diferentes formas de sexualidade humana, que têm a ver com a cultura da vida.

Naturalmente, seria difícil imaginar para Paulo o conceito de "matrimônio para todos"! Mas o apóstolo Paulo - aquele intelectual! - teria sido o último a evitar um discurso de psicologia e sociologia sobre o desenvolvimento da sexualidade humana. Devemos, portanto, absolutamente ir além da Bíblia quando estamos lidando com a Bíblia. Eu também esperaria isso da Igreja Católica. Nós já tomamos isso como certo há tempo.

Como acredita que a situação se desdobre nesse caso específico?

Espero que se concentre na lógica da razão. Ansgar Wucherpfennig não é um outsider ou extremista radical. Pelo contrário, ele é um colega respeitado que trata desse tema de uma maneira muito diferente. E representa 90% da opinião dos estudiosos católicos e das estudiosas católicas do Novo Testamento.

Esse é um exemplo típico daqueles casos em que a pesquisa teológica passa a estar em tensão com o ensinamento dominante. Então espero justamente que se entenda que também o magistério tem algo a aprender – inclusive do Documento da Comissão Teológica Internacional sobre o papel da teologia na construção doutrinária da Igreja Católica. Eu confio nisso. Assim deve ser.

E penso e espero que também, a longo prazo, possamos chegar a uma solução construtiva. Não podemos, na situação atual, falar do fato que nós sobre o tema sexualidade na Igreja Católica devemos pensar de maneira aberta e nova, e que depois a primeira coisa que sai nas manchetes na imprensa, é a recusa da autorização para Ansgar Wuchenpfennig.

A discussão sobre Ansgar Wuchenpfennig

O padre jesuíta Ansgar Wuchenpfennig foi reeleito reitor da Hochschule Sankt Georgen católica em Frankfurt. Mas até agora o Vaticano surpreendentemente recusa a ele a necessária confirmação para a continuação do mandato (Nihil obstat).

É evidente que o Vaticano está bloqueado por causa de uma entrevista do teólogo de 2016. Na ocasião Wuchenpfennig tinha definido as condenações bíblicas da homossexualidade como "posições profundas, formuladas em parte de maneira equivocada." A falta de confirmação do Vaticano causa incompreensão em várias dioceses e até mesmo entre os jesuítas. Em uma declaração conjunta, o provincial dos jesuítas na Alemanha, Johannes Siebner SJ, e o bispo de Limburgo Georg Bätzing, se declararam "plenamente" em apoio ao padre Ansgar Wucherpfennig.

"Sou absolutamente a favor do reitor eleito, padre Wuchepfennig; ele goza da minha total confiança. Sua administração nos últimos quatro anos, sua teologia, sua totalmente incontestável adesão eclesial e sua integridade pessoal não deixam a mínima dúvida quanto à sua idoneidade", declarou Siebener. Ele afirma que imagina que não pode ser nada além de um mal-entendido. "Se assim não fosse, seria um procedimento escandaloso".

O Bispo de Limburg

Dr. Georg Bätzing definiu Wuchenpfennig como "um teólogo brilhante, sempre integro e leal à Igreja". Bätzing afirmou não ter dúvidas e espera que Roma aceite a escolha da Ordem e das dioceses.

O residente federal da Bdkj, a Federação dos jovens católicos alemães, Thomas Andonie, solicitou que o Papa Francisco interviesse pessoalmente e concedesse a permissão para o cargo. Em sua opinião, a recusa da permissão é "insuportável": um abuso de poder.

(Deutsche Provinz der Jesuiten, kna).

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