01 Outubro 2026
"Antes de proclamar o que está escrito, é essencial fazer a devida leitura e sua honesta interpretação. Caso contrário, o significado sagrado de suas palavras é profanado. Além disso, corre-se o risco de cair em contradição", escreve Rosanna Virgili, biblista, em artigo publicado por Vita Pastorale, setembro de 2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
É verdade, existe uma Bíblia que convoca a pegar em armas. Mas existe também uma Bíblia "desarmada e desarmante". E os crentes, aqueles que a leem e acolhem a sua Palavra, têm o dever de conhecê-la e proclamá-la publicamente: "o que escutais ao ouvido pregai-o sobre os telhados", instrui o Mestre (Mt 10,27). No entanto, não se faz o suficiente. São poucos demais os cristãos que assumem essa tarefa. Nos telhados dos poderosíssimos meios de comunicação, as vozes que "proclamam" os versículos bíblicos são em geral aquelas que os utilizam para propaganda, que os reduzem a slogans para os partidos políticos que os financiam, e certamente não por temor a Deus.
Se estivessem realmente interessados em transmitir o que a Bíblia diz, precisariam, antes de tudo, conhecê-la como um todo. Precisariam entender as suas linguagens e compreender, por trás das suas antigas formas expressivas e literárias, a mensagem para os dias de hoje. Em vez disso, acontece o contrário: as pessoas buscam os versículos bíblicos para sustentar aquilo que se deseja impor. E o uso que mais entristece e escandaliza é transformar a Bíblia numa arma "divina" para a guerra, as mortes, a violência e a opressão, atingindo níveis aterradores de blasfêmia contra a humanidade, a terra e o Criador.
“Ah! Filha de Babilônia, feliz aquele que te retribuir o pago que tu nos pagaste a nós. Feliz aquele que pegar em teus filhos e der com eles nas pedras" Esses versículos do Salmo 137 (vv. 8-9) foram proferidos, há poucos dias, por um grupo de soldados do exército de Israel a caminho de matar crianças em Gaza. Eles entoaram palavras que os exilados judeus haviam clamado entre lágrimas durante o cativeiro na Babilônia, onde haviam sido conduzidos pelo poder de um exército poderoso.
O rei Nabucodonosor havia destruído o Templo e toda a cidade de Jerusalém, arrancando os judeus da sua terra para deportá-los e submetê-los às humilhações do exílio. “Pois lá aqueles que nos levaram cativos nos pediam uma canção; e os que nos destruíram, que os alegrássemos, dizendo: Cantai-nos uma das canções de Sião. Como cantaremos a canção do Senhor em terra estranha?” (Sl 137,3–4). Uma situação diametralmente oposta é aquela dos jovens soldados judeus que, hoje, apontam seus fuzis contra inermes palestinos, libaneses, voluntários da Flotilha ou até mesmo seus próprios irmãos ultraortodoxos.
Devemos nos perguntar, então, que significado têm para esses soldados judeus proferir esses versículos no contexto atual e por que eles os tomam para si. Por que entoar o Salmo 137 quando o governo a que servem como militares é comparável ao que era na época a antiga Babilônia? De fato, a raiva que alimenta esses versículos deveria ser sentida pelos civis inocentes de Gaza, e não pelos novos soldados de Nabucodonosor... A Bíblia, portanto, não pode ser lida e recitada de maneira tão abstrata, é preciso antes se perguntar: “Que está escrito na lei? Como lês?” (Lucas 10:26). Antes de proclamar o que está escrito, é essencial fazer a devida leitura e sua honesta interpretação. Caso contrário, o significado sagrado de suas palavras é profanado. Além disso, corre-se o risco de cair em contradição.
Pois, enquanto o Salmo 137 conclama à vingança contra os babilônios – melhor se consumada sobre seus filhos (inocentes) - o profeta Jeremias fala o contrário, exortando os judeus exilados a permanecerem na terra para a qual haviam sido deportados! “Este é o conteúdo da carta que o profeta Jeremias enviou de Jerusalém aos líderes que ainda restavam entre os exilados, aos sacerdotes, aos profetas e a todo o povo que Nabucodonosor deportara de Jerusalém para a Babilônia.
A carta dizia o seguinte: Assim diz o Senhor dos Exércitos, o Deus de Israel, a todos os exilados, que deportei de Jerusalém para a Babilônia: Construam casas e habitem nelas; plantem jardins e comam dos seus frutos. Casem-se e tenham filhos e filhas; escolham mulheres para casar-se com os seus filhos e deem as suas filhas em casamento, para que também tenham filhos e filhas. Multipliquem-se, não diminuam. Busquem a prosperidade da cidade para a qual eu os deportei e orem ao Senhor em favor dela, porque a prosperidade de vocês depende da prosperidade dela" (Jr 29,1-7).
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Aquela mesma Babilônia que, no Salmo 137, é objeto de ódio e de planos hediondos de vingança é, inversamente, o lugar - ainda que de sofrimento - onde Deus oferece a Israel a chance de renascer, de multiplicar seus filhos unindo-se e tornando-se um só povo com aquele dos “inimigos”. Por meio da amizade, do respeito e da confiança, Israel superará o medo e não se isolará nem se armará para, por sua vez, incutir medo nos outros, somente assim sobreviverá e colaborará para um mundo de justiça e fraternidade.
Precisamente durante os dias em que a Itália celebrava o Dia da República, por volta de 2 de junho, o exército israelense violava ainda mais as fronteiras do sul do Líbano e hasteava a sua bandeira sobre o Castelo de Beaufort. Enquanto isso, a Europa não reagia de forma alguma, nem aprovando nem condenando. Assim como fez, e continua fazendo, em relação ao massacre de um povo e de sua terra em Gaza. E essa Europa, que se diz cristã, não se preocupa em saber se é lícito que tudo isso seja apoiado pela Bíblia. Os países europeus não respeitam nem o direito internacional (laico) nem aquilo que, para eles, enquanto cristãos, é a Palavra de Deus.
Pessoas como nós, que vão à igreja no Natal e celebram o nascimento de Jesus com banquetes suntuosos e presentes caros, não sabem, ou não se lembram, que aquele menino, logo após o nascimento, escapou de um genocídio. O rei Herodes - usurpador do trono de Judá - mandou matar todas as crianças judias de Belém com dois anos ou menos. Mas quem pensa nisso? Os soldados israelenses não pensam nisso, porque o texto do Massacre dos Inocentes aparece em um Evangelho e não faz parte do cânone da Bíblia Hebraica. E talvez nem nós o pensamos muito, pois vemos esse texto como uma "porta de entrada" obrigatória para o próprio Evangelho (cf. Mt 2,16). Enquanto isso, os cidadãos italianos, predominantemente católicos, comemoram o nascimento da República com a ostentação das forças armadas.
Seria mais apropriado, em vez disso, que no lugar delas houvesse a ostentação de todas as vítimas dos regimes tirânicos, os rostos desfigurados dos inocentes violados e, entre eles, as páginas rasgadas e vilipendiadas da Palavra de Deus, onde a palavra de paz, apesar de tudo, continua a resistir.
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