As vacinas contra a Covid-19 ajudam o sistema imunológico a encontrar tumores que antes lhe escapavam

Foto: National Cancer Institute/Unsplash

Mais Lidos

  • O veneno de André Mendonça e seu antídoto. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Bíblia: uma carta de amor enviada por Deus

    LER MAIS
  • OTAN e União Europeia alertam que o ataque atribuído à Rússia em Leipzig "marca uma nova escalada" em solo europeu: "Não o toleraremos"

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

05 Setembro 2026

Um estudo recente sugere que vacinas de RNA mensageiro contra a Covid-19 podem aumentar a eficácia de alguns tratamentos contra o câncer.

A reportagem é de Jennifer Martínez GeijoCarolina Méndez Blanco e Tania Payo Serafín, publicada por The Conversation e reproduzida por El Diario, 03-09-2026.

Quando pensamos no sistema imunológico, geralmente o imaginamos combatendo vírus ou bactérias. No entanto, ele também funciona como uma equipe de segurança que patrulha constantemente uma cidade em busca de atividades suspeitas. Todos os dias, milhares de células com mutações potencialmente perigosas surgem em nossos corpos, mutações que podem levar a tumores, mas a maioria é eliminada antes mesmo de as notarmos. Mas se nossas defesas são capazes de detectar células cancerígenas, por que o câncer ocorre?

A resposta é que os tumores são especialistas em passar despercebidos. Ao contrário de vírus e bactérias, que são claramente estranhos ao nosso organismo, as células tumorais têm origem no nosso próprio corpo. Embora acumulem alterações que as tornam perigosas, ainda conservam muitas características normais. Isso dificulta a sua identificação como uma ameaça pelo sistema imunológico. Hoje sabemos que a progressão do câncer depende não só das próprias células tumorais, mas também da complexa interação que mantêm com o sistema imunológico.

A revolução da imunoterapia

Durante décadas, os tratamentos contra o câncer basearam-se em cirurgia, radioterapia e quimioterapia. Nos últimos anos, a imunoterapia introduziu uma abordagem diferente. Em vez de atacar diretamente o tumor, por que não ajudar o próprio sistema imunológico do corpo a fazer o trabalho?

As células imunes possuem mecanismos de controle que atuam como freios para impedir que uma resposta excessiva danifique o tecido saudável; o problema é que alguns tumores aprenderam a explorar esses mecanismos para se esconder. Imagine um carro de polícia perseguindo um criminoso. Mesmo que o motor esteja funcionando perfeitamente e o veículo tenha combustível suficiente, a perseguição não irá muito longe se o freio permanecer acionado. Os chamados "inibidores de checkpoint imunológico" liberam esse freio e permitem que o sistema imunológico ataque o tumor novamente.

No entanto, existe uma limitação significativa. Para que essa estratégia funcione, o sistema imunológico precisa ter detectado previamente a presença do câncer. É por isso que os pesquisadores distinguem entre tumores "quentes", facilmente reconhecíveis pelas nossas defesas, e tumores "frios", que passam praticamente despercebidos. Tornar estes últimos visíveis é um dos maiores desafios da oncologia atual.

A surpresa das vacinas de RNA mensageiro

É aqui que entra a questão que buscamos responder neste artigo: uma vacina desenvolvida para prevenir uma infecção viral pode ajudar a combater o câncer? A pergunta parece estranha, mas um estudo recente sugere que vacinas de RNA mensageiro contra a Covid-19 podem aumentar a eficácia de alguns tratamentos contra o câncer. A descoberta não significa que essas vacinas curem o câncer por si só. O que elas fazem é igualmente interessante: parecem ajudar o sistema imunológico a reconhecer tumores que antes passavam despercebidos.

Após a vacinação, o corpo entra temporariamente em estado de alerta. Embora essa resposta seja direcionada contra o vírus, seus efeitos podem se estender além da infecção. É como se as luzes de um quarto escuro fossem acesas e, de repente, o sistema imunológico pudesse ver o que antes estava oculto. O resultado é que tumores antes invisíveis tornam-se detectáveis. Em outras palavras, eles passam de "frios" para "quentes".

O duplo golpe da vacina e da imunoterapia

Uma vez identificado o tumor, a imunoterapia pode liberar todo o seu potencial. No entanto, o tumor não permanece dormente. Ao detectar a pressão do sistema imunológico, ele tenta se esconder novamente, ativando mecanismos que suprimem a resposta defensiva. E é aqui que surge a sinergia potencial. A vacina ajuda o sistema imunológico a identificar tumores que antes passavam despercebidos, enquanto os inibidores de checkpoint impedem que o câncer reative esses mecanismos de defesa.

🔍 Adicione o Instituto Humanitas Unisinos – IHU às suas fontes favoritas do Google

Pesquisadores analisaram pacientes com câncer de pulmão ou melanoma tratados com inibidores de checkpoint imunológico. Aqueles que receberam uma vacina de mRNA contra a Covid-19 no período próximo ao tratamento apresentaram sobrevida significativamente maior. Em pessoas com câncer de pulmão avançado, a sobrevida mediana aumentou de 21 para 37 meses. Resultados semelhantes foram observados em pacientes com melanoma, sugerindo que o fenômeno pode se estender a outros tipos de tumores.

Resumindo, o resultado é uma espécie de efeito duplo: a vacina alerta o sistema imunológico, enquanto a imunoterapia impede que o tumor o suprima. Quando ambos atuam simultaneamente, a resposta antitumoral parece ser mais eficaz.

Além da pandemia

A pandemia acelerou o desenvolvimento de vacinas de RNA mensageiro e demonstrou que essa tecnologia poderia alcançar rapidamente milhões de pessoas. Agora, estudos como o que discutimos sugerem que suas aplicações podem ir muito além de doenças infecciosas.

Compreender como essas vacinas modulam o sistema imunológico pode abrir novas estratégias para melhorar os tratamentos existentes, embora transformar essas ideias promissoras em ferramentas clínicas ainda exija anos de pesquisa.

Leia mais