A ecologia da paz na época da criação. Artigo de James Gordon Reid Haveloch-Jones

Foto: homecare119 | Pixabay

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03 Setembro 2026

A paz não é meramente a ausência de guerra, mas sim a conversão, o redirecionamento das energias de destruição para o cultivo e a vida, uma “ecologia da paz” que une o cuidado com a criação e a reconciliação.

O artigo é de James Gordon Reid Haveloch-Jones, publicado por Global Catholic, 01-09-2026.

James Gordon Reid Haveloch-Jones, MA, FRSA, é educador, especialista em ética e teólogo público, cujo trabalho explora a fé, a ética, a educação e a vida religiosa contemporânea. É membro honorário associado da St George's House, no Castelo de Windsor, e membro do conselho da Heythrop Association na Universidade de Londres. 

Eis o artigo.

Em 17 de setembro de 2010, eu estava na Abadia de Westminster quando Bento XVI e o Arcebispo Rowan Williams se ajoelharam juntos em oração, marcando a primeira vez que um Papa e o Arcebispo da Cantuária fizeram isso publicamente.

Lembro-me da importância daquele momento e de sua tranquilidade. Não havia qualquer pretensão de que séculos de divisão tivessem desaparecido. Duas tradições permaneciam distintas. No entanto, dois líderes cristãos ajoelharam-se diante do mesmo Deus. O coro cantou "If Ye Love Me", de Thomas Tallis. A oração e a música pareciam criar um espaço no qual a diferença não era abolida, mas transformada.

Quase dois anos depois, em 29 de junho de 2012, eu estava sentado na Basílica de São Pedro enquanto o Coro da Abadia de Westminster cantava com o Coro da Capela Sistina na Missa Papal da Solenidade de São Pedro e São Paulo.

Foi um momento extraordinário na história musical e eclesial. Diferentes tradições, diferentes histórias, diferentes vozes se tornaram um só som. Naquele dia, vivenciei algo que mais tarde descrevi como um antegosto do céu: um vislumbre da unidade pela qual Cristo orou.

Essas lembranças me vêm à mente este ano, quando a Igreja inicia o Tempo da Criação (1º de setembro a 4 de outubro), cujo tema deste ano é a extraordinária promessa de Isaías: “Eles transformarão suas espadas em arados e suas lanças em foices”.

Frequentemente ouvimos essas palavras como um apelo ao desarmamento. Mas Isaías está dizendo algo mais radical. Ele está imaginando um mundo em que os instrumentos de destruição são transformados em instrumentos de vida. Uma espada é feita para ferir. Uma relha de arado é feita para cultivar.

A transição de um para o outro não é, portanto, meramente o fim da violência. É uma conversão: o redirecionamento do poder, da engenhosidade e do desejo humanos para aquilo que sustenta em vez de destruir. É por isso que a paz e o cuidado com a criação são, em última análise, inseparáveis.

A guerra não termina quando os combates cessam. Suas feridas permanecem no solo, na água, nas paisagens e nas comunidades. Florestas e terras agrícolas podem ser destruídas; o abastecimento de água pode ser contaminado; a segurança alimentar pode ser comprometida. As consequências ecológicas dos conflitos podem perdurar por gerações, muitas vezes atingindo com mais força aqueles que menos têm condições de suportá-las.

O Papa Leão XIV estabelece essa conexão precisamente em sua mensagem para o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação deste ano. Ele descreve a guerra e a degradação ecológica como feridas interligadas no tecido da vida e as relaciona a uma desordem mais profunda no coração humano. Seu convite não é simplesmente para condenar a destruição, mas para questionar como aquilo que foi direcionado para a destruição pode, em vez disso, ser redirecionado para a vida.

Essa é a ideia central da Doutrina Social da Igreja Católica. A Laudato Si' nos legou a linguagem da “ecologia integral”: o reconhecimento de que o cuidado com a criação, a dignidade humana, a justiça e o bem comum estão intrinsecamente ligados.

Mas Isaías nos leva além. Ele não pergunta simplesmente: Como paramos de usar a espada? Ele pergunta: O que fazemos com a espada depois de a termos largado?

Essa questão é importante porque a paz é frequentemente imaginada de forma negativa, como a ausência de guerra, o silenciamento das armas, a cessação da hostilidade. Isaías nos dá uma visão positiva. A paz é o que acontece quando as energias da destruição são convertidas em trabalho de cultivo.

Poderíamos fazer a mesma pergunta sobre a nossa época. O que aconteceria se os recursos destinados à divisão fossem redirecionados para a reconciliação? Se a engenhosidade desenvolvida para a destruição fosse direcionada para a cura? Se as comunidades exaustas pela hostilidade recebessem as ferramentas para se reconstruir? É isso que quero dizer com uma ecologia da paz.

Um ecossistema é uma rede de relações em que o florescimento de uma parte afeta o florescimento do todo. A paz é assim. Ela existe não apenas entre nações, mas também entre vizinhos, comunidades, povos e gerações. Ela se estende à nossa relação com o mundo natural e, em última instância, ao coração humano.

A história da minha família me ensinou sobre o preço da separação. Meu avô era um oficial protestante da Guarda Galesa; minha avó era uma católica romana devota. O amor deles não foi facilmente aceito, então eles tiveram que se mudar para a Inglaterra para se casar.

Décadas depois, seu neto se viu sentado na Basílica de São Pedro durante uma missa papal, tendo sido moldado em parte pelo clero protestante que nutriu sua vida musical e espiritual. Não consigo separar essa experiência do que testemunhei na Abadia de Westminster e em Roma. A história muda. Divisões que antes pareciam intransponíveis podem se transformar em relações de amizade, oração e comunhão.

O Tempo da Criação é ecumênico por natureza, e isso importa. A resposta cristã à divisão não é a uniformidade, mas sim a comunhão. Os coros da Abadia e da Capela Sistina não se tornaram idênticos.

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Bento XVI e Rowan Williams não deixaram de pertencer às suas respectivas tradições. A diferença permaneceu, mas tornou-se capaz de harmonia. Talvez seja isso também o que a conversão ecológica nos exige.

Tudo começa com a atenção. O convite da CAFOD para caminhar na natureza, orar e observar a vida ao nosso redor pode parecer modesto diante das grandes crises da guerra e da degradação ambiental. No entanto, a atenção não é escapismo. É o início da responsabilidade. Não podemos cuidar daquilo que nos recusamos a notar. Não podemos fazer as pazes com aquilo que nos recusamos a ver. E não podemos cultivar aquilo que continuamente tratamos como descartável.

A relha do arado oferece uma visão diferente. Ela penetra na terra sem a conquistar. Ela abre o solo para que o crescimento possa criar raízes. Ela direciona o esforço humano para o sustento, a comunidade e a vida. É por isso que a visão de Isaías é tão exigente. A paz não é passiva. Ela é cultivada.

É preciso paciência: transformar armas em ferramentas, hostilidade em hospitalidade e indiferença em cuidado. É preciso acreditar que relacionamentos danificados podem ser restaurados, comunidades divididas reconciliadas e paisagens feridas renovadas.

Num mundo marcado pela guerra e pela ansiedade ecológica, os cristãos são chamados a mais do que lamentar. Somos chamados à imaginação, a enxergar possibilidades de transformação onde outros veem apenas divisão permanente.

A espada e a relha do arado representam, portanto, duas maneiras de habitar o mundo: uma organizada em torno da dominação e da destruição, a outra em torno do cultivo e da vida. Testemunhei algo dessa transformação em minha própria vida: em um santuário de uma abadia, no som de dois coros e na história de uma família cujas divisões não tiveram a última palavra.

Isaías nos deixa com uma pergunta que é tão espiritual quanto política e ecológica: O que estamos dispostos a transformar para que a paz possa florescer?

Talvez a resposta comece onde a visão de Isaías começa, não simplesmente depondo a espada, mas descobrindo o que ela pode se tornar.

Essa é a ecologia da paz.

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