03 Setembro 2026
O estado federado de Saxônia-Anhalt realiza eleições nas quais o partido Alternativa para a Alemanha (AfD) lidera há meses as pesquisas de intenção de voto.
O artigo é de Àngel Ferrero, jornalista, publicado por El Salto, 03-09-2026.
Eis o artigo.
Contagem regressiva na Alemanha para evitar um terremoto político. No próximo dia 6 de setembro, o estado federado da Saxônia-Anhalt realiza eleições que concentraram toda a atenção dos meios de comunicação alemães, mas também europeus.
A Alternativa para a Alemanha (AfD) lidera há meses as pesquisas de intenção de voto, com um percentual entre 41% e 42%. A União Democrata-Cristã (CDU) do chanceler Friedrich Merz está a quase vinte pontos de diferença, com 22%, seguida por A Esquerda, com entre 12% e 13%, e o Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD), com 7%. As demais legendas dependem de um ou dois pontos percentuais para conseguir superar a barreira dos 5% e entrar na câmara regional. É o caso dos Verdes, dos liberais do FDP e da Aliança Sahra Wagenknecht (BSW).
Com uma vantagem sólida há meses nas pesquisas, a AfD já se vê como vencedora. A ultradireita também lidera as pesquisas em nível federal, com entre 27% e 28%, entre sete e oito pontos à frente da CDU, de modo que a Saxônia-Anhalt poderia se apresentar como a primeira vitória do partido em um Land e, ao mesmo tempo, se nada impedir sua chegada ao governo, o laboratório político do que poderia ser uma Alemanha governada, ou cogovernada, por eles.
Em meados de julho, o candidato local da legenda ultra, Ulrich Siegmund, apresentou seu "programa de cem dias", um plano de dez pontos com algumas das medidas que assegura que vai colocar em prática se chegar ao governo. Entre suas promessas está eliminar os subsídios à radiotelevisão pública e às organizações não governamentais dedicadas ao que chamam depreciativamente de "indústria da integração e do asilo" e "indústria da salvação climática", assim como o apoio a programas públicos de combate ao racismo ou à LGBTfobia no sistema educacional e as verbas públicas destinadas às fundações dos partidos políticos.
A imigração ocupa, como era de se esperar, um lugar de destaque, e a AfD prometeu expulsar os imigrantes em situação irregular e incluir os solicitantes de asilo em programas de trabalho. No capítulo educacional, prevê criar salas especiais para os filhos dos exilados "para reforçar a mensagem de que sua estadia na Alemanha é apenas temporária" e a presença de agentes de serviços de segurança privada nas escolas com problemas. Segundo a legenda, "o experimento inclusivo fracassou", e ela também aposta em suprimir as aulas de religião islâmica e ampliar as aulas de língua russa, um legado do passado comunista da região.
A AfD dedica um ponto inteiro de seu programa às "guerras culturais": propõe proibir as bandeiras do arco-íris nas escolas, que significam, para eles, "a desvalorização da família e da normalidade social tradicional", e sua substituição pela bandeira alemã "para educar as crianças no espírito do amor ao seu povo e à sua pátria". A AfD também propõe mudar o lema do governo atual, uma coalizão entre CDU, SPD e FDP, de #moderndenken para #deutschdenken.
Segundo a legenda, o executivo de Sven Schulze tentou converter em seu referencial cultural a Bauhaus (em Dessau foi construída, em 1925, sua célebre escola, hoje Patrimônio da Humanidade pela UNESCO, com projeto de Walter Gropius, natural da cidade), à qual acusa de ter tentado apagar "todo símbolo de raiz nacional", um ataque que guarda semelhanças com os realizados em seu tempo pelo nacional-socialismo.
O "programa de 100 dias" da AfD também propõe reduzir o número de ministérios do governo do estado federado e a criação de uma comissão para investigar a gestão do coronavírus, a fim de esclarecer as supostas irregularidades e medidas contrárias à constituição durante a pandemia. Siegmund apresentou seu programa ladeado por cartazes com lemas hiperbólicos, mas já habituais nesse espaço político em toda a Europa, como "cidades seguras", "tudo é possível" ou "recompensar quem se esforça".
Como apontaram oportunamente alguns veículos, nenhuma dessas propostas detalha como serão resolvidos os problemas que afligem esse estado federado, especialmente se, como planeja a AfD, for aprovada uma redução de impostos. A Saxônia-Anhalt é um dos antigos estados da República Democrática Alemã (RDA) que pior desempenho econômico teve desde a reunificação: passou de uma população de 2.873.957 habitantes em 1990 para 2.120.252 em 2025, com uma taxa de desemprego de 8%.
O paradoxo da Saxônia-Anhalt é que, devido à sua situação econômica atual e a perspectivas que não são muito melhores, é um dos estados federados com menores níveis de imigração, um dos temas favoritos da AfD. Aliás, de acordo com sua cosmovisão racista, a imigração na Saxônia-Anhalt é majoritariamente "branca", liderada por ucranianos (18,6%), seguidos por sírios (15,9%), poloneses (7,8%), romenos (6%) e afegãos (4,9%) (dados de 2022). Ao mesmo tempo, é a economia que impulsiona a legenda ultra nas pesquisas diante da paralisia e do esgotamento dos demais partidos políticos aos olhos dos eleitores, uma situação demasiado familiar no restante da Alemanha e da Europa. Quando o semanário Der Spiegel publicou uma capa com a fotografia de Siegmund e a manchete "O homem mais perigoso da Europa", longe de lamentar isso, a AfD celebrou como uma demonstração de sua luta contra a mídia estabelecida e o sistema político que a sustenta.
O dilema de A Esquerda
A Esquerda, em terceiro lugar, poderia se mostrar decisiva para impedir a formação de um governo da AfD na Saxônia-Anhalt. Não há nenhum outro partido mais bem posicionado para evitar isso, caso seja necessário, já que, apesar de sua liderança nas pesquisas, a AfD não conta com maioria absoluta. Um e-mail interno enviado por A Esquerda a seus filiados em agosto lembrava que um em cada sete eleitores ainda não se decidiu por uma opção eleitoral, cerca de 200 mil pessoas que poderiam inclinar decisivamente a balança, e convocou seus militantes a se somarem a uma campanha informativa de porta em porta como a que lhes deu tão bons resultados nas últimas eleições federais.
O próprio partido oferecia um exemplo desse tipo de campanha: "'Vocês não têm nada a fazer aqui', nos dizem numa porta. Apesar disso, nossas equipes insistem. Desistir não é uma opção. Um andar acima, um homem abre a porta e afirma que isso não tem nada a ver com ele. No final, acabamos falando sobre aluguéis, educação e aposentadorias, e ele garante que, durante a conversa, se aproximou de nossas posições".
Mas mesmo que A Esquerda transforme todos esses indecisos em votos para seu partido, isso implicaria entrar em uma coalizão de governo inédita com os conservadores e os social-democratas, ou com esses dois e outro partido, caso consiga superar a barreira dos 5%, ou, ao menos, apoiar no parlamento um governo minoritário da CDU. O copresidente do partido, Luigi Pantisano, garantiu em entrevista à televisão ZDF que essa era a consequência lógica do antifascismo. "Trata-se de evitar que um partido de extrema-direita chegue ao poder", declarou, apontando os casos da Turíngia e da Saxônia, onde A Esquerda apoia, a partir do parlamento, governos minoritários para bloquear as iniciativas legislativas da AfD. Desde Berlim, no entanto, a questão é tratada com visível discrição, já que o apoio à CDU, cujo programa está, escusado será dizer, nas antípodas do de A Esquerda, poderia acabar prejudicando suas perspectivas eleitorais em outros estados federados, em particular em Berlim, onde tem chances de chegar ao governo.
A dúvida da Aliança Sahra Wagenknecht
Embora a Aliança Sahra Wagenknecht (BSW) tenha ficado de fora do Bundestag nas últimas eleições, mantém uma força relativa nos antigos estados federados da Alemanha oriental e, embora desde janeiro já não faça parte do governo de Brandemburgo, permanece no da Turíngia, com fortes disputas com a direção central do partido, que pressiona a direção local a abandoná-lo.
Essa dissidência de A Esquerda em torno de uma de suas figuras mais controversas se pronunciou, como em eleições anteriores, com ambiguidade sobre o que faria se entrasse na câmara regional. Wagenknecht adiantou à imprensa que, caso faça parte dela, seu grupo parlamentar se absteria numa terceira votação para a eleição do presidente em vez de forçar uma nova convocação eleitoral, o que, na prática, possibilitaria a chegada da AfD ao governo da Saxônia-Anhalt.
Da mesma forma, a BSW também não votaria no candidato conservador, Schulze, por sua oposição ao programa econômico e social da CDU. Diante dos rumores que circularam semanas atrás, a copresidente da BSW, Amira Mohamed Ali, excluiu a possibilidade de entrar numa coalizão de governo com a AfD. "Programaticamente, a AfD está muito distante de nós", explicou Ali em entrevista à Deutschlandfunk, "a AfD apoia o rearmamento, a AfD apoia os cortes sociais, e, além disso, a AfD tem, em parte, membros que são de extrema-direita, que são fascistas: com um partido assim não podemos formar coalizão". Em entrevista anterior ao jornal Die Welt, Ali propôs a eleição de um candidato de consenso independente, cujo programa de governo ficasse submetido às negociações e votações entre os partidos representados no parlamento.
Uma medida assim, no entanto, não conta apenas com a oposição dos demais partidos, mas também de setores da própria BSW. Paralelamente à campanha na Saxônia-Anhalt, registraram-se, neste verão, tensões entre a direção em Berlim e o partido na Turíngia, que forma uma coalizão de governo com social-democratas e conservadores. O partido na Turíngia se recusa a abandoná-la mais ou menos pelos mesmos motivos defendidos por A Esquerda na Saxônia-Anhalt: para não permitir a chegada da AfD ao poder. O presidente da AfD naquele Land, Björn Höcke, não só fez sua, neste verão, a proposta de Ali de eleger um candidato independente, como chegou a oferecer o cargo de ministra-presidente à própria Wagenknecht, que rejeitou a oferta e desafiou Höcke para um debate televisionado, ao qual este último fez ouvidos moucos.
A opção nuclear: proibir a AfD
Diante da ascensão da AfD nas pesquisas de intenção de voto, ressurgiu na Alemanha, neste verão, uma terceira opção para impedir sua chegada ao governo: proibir diretamente o partido. No início de agosto, o vice-chanceler e copresidente do SPD, Lars Klingbeil, publicou no Die Zeit um artigo no qual classificava como "dever democrático" estudar um parecer nesse sentido, publicado por um grupo de "acadêmicos independentes" que "demonstraram que a AfD trabalha sistematicamente para destruir nossa democracia e nosso Estado de direito". "Se a ideologia de extrema-direita chegar ao poder, ninguém estará a salvo", advertiu Klingbeil, para quem "deveria ser examinado cuidadosamente se estão dadas as condições para uma proibição por parte do Tribunal Constitucional da Alemanha".
Os problemas de uma medida desse calibre não são, como se pode imaginar, poucos. Para começar, existem problemas legais, porque as declarações de membros individuais do partido não equivalem a propostas políticas, e a AfD, como todos os partidos desse espaço político, aprendeu a caminhar na corda bamba. Além disso, quando houve uma tentativa parecida de proibir o Partido Nacional-Democrático da Alemanha (NPD) em 2017, o Tribunal Constitucional alegou que, embora os motivos legais fossem sólidos, o partido era pequeno demais e pouco representativo para ameaçar a ordem constitucional. Adicionalmente, fontes das corporações e forças de segurança pediram que o NPD não fosse proibido, pois, em sua opinião, isso só levaria seus militantes à clandestinidade e a uma radicalização ainda mais violenta (pela esquerda, apontou-se que essas mesmas fontes temiam que se revelassem, além dos agentes de polícia infiltrados no NPD, os vínculos pessoais entre membros individuais de ambos).
Mas também há problemas políticos, porque pode-se proibir um partido que, segundo as pesquisas de intenção de voto, conta atualmente com o apoio de mais de um quarto da população em nível federal? O presidente da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, defendeu que a exclusão dos "inimigos da constituição" não é "inerentemente antidemocrática", mas sim "a expressão de uma democracia defensiva". Artimanhas retóricas à parte, essa mesma argumentação não poderia se aplicar algum dia, com outra constelação política no governo, a A Esquerda?
A pergunta não é banal, num ano em que se comemorou o 70º aniversário da proibição do Partido Comunista da Alemanha (KPD) na Alemanha ocidental, decisão que acarretou graves consequências profissionais e pessoais para os afetados. O próprio recurso às vias legais também aparece, aos olhos de muitos, como uma medida desesperada, que aliás não teve muito efeito na última campanha eleitoral de Donald Trump nos Estados Unidos e tampouco parece tê-lo nas pesquisas para a candidata do Reagrupamento Nacional (RN) na França, Marine Le Pen. Como apontaram vários analistas, uma medida desse tipo também poderia ser contestada pela Casa Branca, onde a legenda ultra conta com simpatizantes como o vice-presidente JD Vance: vale lembrar que, em sua viagem a Munique em 2025, ele se recusou a se reunir com o então chanceler Olaf Scholz, e o fez com a copresidente da AfD, Alice Weidel. Assim, Washington poderia adotar medidas de retaliação, como sanções pessoais a seus responsáveis e tarifas econômicas ao país.
Enquanto se debate, em diferentes intensidades, a proibição da AfD, a legenda ultra, como ocorreu com o caso da capa da Der Spiegel mencionada acima, tenta tirar proveito da situação, apresentando-se como a opção mais oposta ao establishment. Mesmo que os demais partidos consigam impedir a chegada da AfD ao governo da Saxônia-Anhalt, o problema está longe de terminar nesse estado federado: na última pesquisa publicada, a da Insa, de 29 de agosto passado, a AfD chegava a 29%, e 22%, ou um em cada cinco entrevistados, garantia que deixaria o país se a ultradireita chegasse ao poder.
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