Valorizar o professor é defender o futuro: reconhecimento, proteção e reconstrução da esperança docente. Artigo de Robson Ribeiro

Foto: Austin/Unsplash

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03 Setembro 2026

"Porque valorizar o professor não é apenas agradecer pelo passado. É proteger a possibilidade de futuro"

O artigo é de Robson Ribeiro, teólogo, filósofo e historiador, enviado ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

Este artigo integra a série “A crise da docência no século XXI”, composta por sete textos que abordam temas como violência, adoecimento, sentido, autoridade e esperança na docência.

Eis o artigo.

Depois de percorrer a violência, a perda de autoridade, a sobrecarga e o adoecimento, chegamos a uma questão decisiva: o que precisamos fazer para que o professor queira permanecer? Não basta lamentar a crise da docência. É necessário reconstruir as condições que tornam possível ensinar com dignidade e esperança.

Valorizar não significa apenas homenagear. Significa criar condições concretas de trabalho. Remuneração digna, carreira, tempo de planejamento, formação continuada, segurança, apoio psicológico, gestão qualificada e mecanismos de proteção diante da violência fazem parte de uma política real de valorização. Sem essas condições, a palavra valorização corre o risco de se transformar em discurso vazio.

Os dados já mostram sinais de alerta. Quando 79,4% dos professores de uma pesquisa nacional afirmam que já pensaram em abandonar a carreira, a sociedade precisa perguntar por que uma profissão tão necessária está perdendo capacidade de reter seus profissionais. A resposta não pode ser simplesmente exigir mais vocação. Vocação ajuda a sustentar uma escolha, mas não substitui condições de trabalho.

Também precisamos mudar a maneira de falar sobre o professor. É preciso abandonar tanto a imagem do profissional como herói que suporta tudo quanto a imagem do servidor que apenas executa tarefas. O professor é um intelectual da educação, um profissional da formação humana e um participante fundamental da construção do mundo comum.

O Pacto Educativo Global, proposto pelo Papa Francisco, recorda que educar exige compromisso coletivo. Essa perspectiva ajuda a superar a ideia de que a escola é uma ilha. O futuro da educação depende de uma aliança entre pessoas e instituições dispostas a colocar a pessoa humana no centro.

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Valorizar o professor também significa devolver sentido à profissão. Em uma sociedade acelerada, na qual tudo parece precisar gerar resultados imediatos, ensinar continua sendo uma atividade de longo prazo. O professor raramente vê imediatamente o resultado de seu trabalho. Muitas vezes, uma palavra dita hoje só será compreendida anos depois. Uma aula pode parecer esquecida e, entretanto, permanecer na memória de um estudante por toda a vida.

É justamente por isso que a crise docente precisa ser tratada como questão de futuro. Quando um professor abandona a profissão, não perdemos apenas uma mão de obra. Perdemos experiência, conhecimento, memória e vínculos. Quando um jovem desiste de tornar-se professor porque observa o sofrimento de quem já está na carreira, perdemos uma possibilidade futura de renovação.

Cuidar do professor é, portanto, uma escolha social. Significa reconhecer que aqueles que formam médicos, engenheiros, artistas, cientistas, trabalhadores e cidadãos também precisam ser cuidados. Não existe profissão que não tenha passado, em algum momento, pela escola.

Talvez a pergunta final seja simples: que sociedade queremos construir? Se desejamos uma sociedade capaz de respeitar o conhecimento, o diálogo, a democracia e a dignidade humana, precisamos começar reconhecendo aqueles que trabalham diariamente para tornar esses valores possíveis.

O professor não precisa ser tratado como herói. Precisa ser tratado como pessoa, profissional e sujeito de direitos. Precisa poder ensinar sem medo, trabalhar sem adoecer e encontrar sentido naquilo que faz.

Porque valorizar o professor não é apenas agradecer pelo passado. É proteger a possibilidade de futuro.

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