A solidão de lecionar em tempos de superficialidade. Artigo de Robson Ribeiro

Foto: Tra Nguyen/Unplash

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08 Mai 2026

"É justamente nesse cenário que nasce a angústia de lecionar. O professor prepara aulas, leituras e debates que exigem concentração, maturidade e elaboração crítica, mas frequentemente encontra apatia, dispersão e desinteresse. Há um sofrimento profundo em perceber que o esforço formativo parece perder espaço para a superficialidade da cultura digital e da lógica do entretenimento contínuo", escreve Robson Ribeiro, teólogo, filósofo e professor. É formado em História, Filosofia e Teologia, áreas nas quais trabalha como professor em Juiz de Fora (MG).

Eis o artigo.

“Quem tem um porquê enfrenta qualquer como.” A afirmação de Friedrich Nietzsche ultrapassa o campo do pensamento individual e se transforma em uma denúncia profunda sobre a crise de sentido que atravessa a modernidade. Para Nietzsche, o sofrimento não destrói necessariamente o ser humano; o que o enfraquece é a ausência de significado, a incapacidade de transformar a existência em afirmação e superação. Quando a vida perde profundidade, o indivíduo passa a existir apenas de maneira funcional, adaptando-se mecanicamente às exigências do tempo histórico sem desenvolver consciência crítica, interioridade ou força criadora.

Essa reflexão torna-se especialmente contundente quando aplicada à educação contemporânea e à condição existencial do professor. O que muitos educadores experimentam hoje não é apenas cansaço profissional, mas uma profunda sensação de desalento diante da experiência de ensinar. Há uma frustração silenciosa que atravessa a sala de aula: a percepção de que o conhecimento perdeu centralidade cultural em uma sociedade dominada pela velocidade, pela distração permanente e pelo esvaziamento da experiência intelectual.

A docência, que historicamente carregava prestígio simbólico e reconhecimento social, passou a ocupar um lugar de constante desgaste. O professor já não enfrenta apenas dificuldades estruturais, mas uma realidade cultural que frequentemente desvaloriza o próprio ato de pensar. A aula precisa competir com telas, algoritmos, redes sociais e estímulos instantâneos que moldam sujeitos habituados ao consumo rápido de informações e à dificuldade de permanecer diante da reflexão profunda. O problema deixa de ser apenas pedagógico e assume uma dimensão antropológica: forma-se uma geração marcada pela incapacidade de suportar o silêncio, o esforço intelectual e a construção lenta do conhecimento.

Nietzsche já advertia sobre o perigo de uma sociedade massificada, incapaz de produzir indivíduos fortes espiritualmente. Sua teoria crítica aponta para o enfraquecimento da cultura quando esta abandona a profundidade e passa a valorizar apenas aquilo que é útil, rápido e imediatamente prazeroso. Nesse contexto, a educação deixa de formar consciências para tornar-se treinamento técnico. O saber perde sua dimensão transformadora e converte-se em simples ferramenta de adaptação ao mercado e às exigências produtivas da sociedade contemporânea.

É justamente nesse cenário que nasce a angústia de lecionar. O professor prepara aulas, leituras e debates que exigem concentração, maturidade e elaboração crítica, mas frequentemente encontra apatia, dispersão e desinteresse. Há um sofrimento profundo em perceber que o esforço formativo parece perder espaço para a superficialidade da cultura digital e da lógica do entretenimento contínuo. Muitos educadores passam a experimentar a dolorosa sensação de falar sem ser verdadeiramente ouvidos, ensinar sem perceber significado imediato e lutar diariamente contra um ambiente que banaliza o próprio conhecimento.

Essa frustração não decorre apenas da indisciplina ou das dificuldades escolares, mas do sentimento de que a sociedade já não reconhece plenamente o valor da formação humana. O professor é constantemente pressionado a adaptar-se, flexibilizar-se e competir pela atenção dos estudantes, como se o conhecimento precisasse transformar-se em espetáculo para continuar existindo. A autoridade intelectual é fragilizada, a profundidade é substituída pela velocidade e o processo educativo torna-se cada vez mais submetido à lógica da performance e do consumo.

Entretanto, é justamente nesse contexto de desalento que o ato de ensinar revela sua dimensão mais radical. Permanecer na educação, apesar do esgotamento e da frustração, torna-se uma forma de resistência cultural e humana. Ensinar é insistir que o ser humano precisa mais do que entretenimento e informação fragmentada; precisa de formação, consciência, memória, ética e sentido. O professor que continua acreditando na força transformadora do conhecimento enfrenta diariamente os “comos” difíceis da educação contemporânea porque ainda preserva um “porquê”: a convicção de que formar seres humanos conscientes continua sendo uma das tarefas mais necessárias em uma sociedade que corre o risco de perder sua própria profundidade.

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