Idolatria americana. Artigo de Francesca Anessi Pessina

Foto: Molly Riley/The White House | Flickr

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25 Agosto 2026

"A retórica da liberdade e da igualdade coexistiu com a expulsão de populações nativas, a escravatura, a segregação racial e a exclusão de numerosos grupos de imigrantes", escreve Francesca Anessi Pessina, mestranda em Política Europeia e Internacional na Universidade Católica de Roma, em artigo publicado por SettimanaNews, 24-08-2026, comentando o livro American Idolatry: How Christian Nationalism Betrays the Gospel and Threatens the Church de Andrew L. Whitehead.

Andrew L. Whitehead é professor de sociologia na Universidade de Indiana em Indianápolis, um dos mais renomados estudiosos do nacionalismo cristão nos Estados Unidos e pesquisador da Fundação Charles F. Kettering. É autor de *American Idolatry: How Christian Nationalism Betrays the Gospel and Threatens the Church*, obra vencedora do prêmio Gold Medal Book Award de 2024 na categoria Religião, concedido pela Foreword Reviews, e do prêmio Midwest Book Award de 2024 na categoria Religião e Filosofia. Whitehead, em coautoria com Samuel Perry, escreveu *Taking America Back for God: Christian Nationalism in the United States*, que recebeu o prêmio Distinguished Book Award de 2021 da Society for the Scientific Study of Religion. Whitehead também escreveu para o The Washington Post, Time, NBC News e Religion News Service, entre outros veículos.  

Eis o artigo.

Nos Estados Unidos, religião e identidade nacional têm sido frequentemente apresentadas como elementos da mesma narrativa. Em discursos políticos, celebrações públicas e até mesmo em muitos locais de culto, a bandeira americana e a linguagem cristã aparecem frequentemente lado a lado.

Essa proximidade, por si só, não constitui um problema, pois uma comunidade religiosa pode participar da vida cívica sem transformar a nação em um objeto sagrado. O problema surge, porém, quando se afirma que Deus confiou aos Estados Unidos uma missão específica e quando uma determinada cultura religiosa reivindica representar todo o país.

Dessa perspectiva, a fé religiosa e a identidade nacional acabam se sobrepondo, com a consequência de que escolhas políticas, privilégios consolidados e hierarquias sociais podem ser legitimados como expressões da vontade divina.

É precisamente nessa sobreposição que Andrew L. Whitehead concentra sua análise em Idolatria Americana: Como o Nacionalismo Cristão Trai o Evangelho e Ameaça a Igreja. O livro começa com uma pergunta aparentemente simples: o que acontece quando as expressões “bom cristão” e “verdadeiro americano” se tornam quase sinônimas?

Livro "Idolatria Americana: Como o Nacionalismo Cristão Trai o Evangelho e Ameaça a Igreja" de Andrew L. Whitehead

Whitehead responde mudando o foco das crenças religiosas individuais para uma estrutura cultural mais ampla. Em sua interpretação, o nacionalismo cristão não é uma fé particularmente intensa nem um conservadorismo político simples. Em vez disso, representa um critério pelo qual se determina quem pertence plenamente à nação, quem é considerado legítimo para liderá-la e quais grupos devem se conformar a um modelo definido predominantemente por cristãos brancos e conservadores.

Esta tese permite-nos reinterpretar algumas das principais contradições da história americana sob uma nova perspectiva. A retórica da liberdade e da igualdade coexistiu com a expulsão de populações nativas, a escravatura, a segregação racial e a exclusão de numerosos grupos de imigrantes.

Segundo Whitehead, patriotismo e cristianismo certamente podem coexistir. No entanto, a nação se torna um ídolo quando é identificada com o plano de Deus e quando se espera que seu poder proporcione proteção, segurança e salvação. O livro desenvolve essa crítica em torno de três conceitos fundamentais: poder, medo e violência, mostrando como eles se alimentam mutuamente.

Estados Unidos: leitura analítica e memória biográfica

American Idolatry não é concebido como um estudo sociológico exclusivamente acadêmico, visto que Whitehead combina análise de dados e pesquisa com memórias pessoais, interpretações bíblicas, episódios históricos e testemunhos de comunidades religiosas.

Essa escolha também reflete o público-alvo do livro, principalmente crentes americanos que percebem uma lacuna entre a mensagem do Evangelho e a forma como o cristianismo é usado nas guerras culturais. O resultado é um texto multifacetado, no qual a perspectiva do acadêmico, interessado em definir conceitos e correlações com precisão, se entrelaça com a do crente que questiona criticamente sua própria formação e reconhece que antes considerava certas ideias como naturais, mas que depois aprendeu a interpretá-las como produto de uma história e um contexto cultural muito específicos.

O componente autobiográfico ocupa um lugar importante no livro. Whitehead relata sua infância em uma pequena comunidade evangélica branca no Meio-Oeste americano, onde família, igreja e orgulho nacional formavam um ambiente cultural quase inseparável.

A presença simultânea das bandeiras americana e cristã em locais de culto tornava visível uma conexão mais profunda, já que amar a Deus também parecia implicar uma certa forma de amar os Estados Unidos. Ao mesmo tempo, fenômenos muito diferentes, como o secularismo, o feminismo, o socialismo, a homossexualidade, o divórcio e o Partido Democrata, eram vinculados a uma narrativa única de decadência moral e social.

Ao reconstruir sua própria formação religiosa, Whitehead demonstra como o nacionalismo cristão pode ser transmitido por meio de símbolos, gestos, medos compartilhados e práticas cotidianas, mesmo na ausência de uma doutrina explicitamente formulada.

A mudança de perspectiva do autor ocorre gradualmente, começando com leituras históricas que desafiam a ideia de uma América originalmente e essencialmente evangélica. Posteriormente, seus estudos sociológicos permitem-lhe compreender que o nacionalismo cristão não se identifica com a fé ou a prática religiosa, mas constitui um sistema cultural distinto, que pode, portanto, ser criticado sem que isso coloque o cristianismo em questão.

A pesquisa citada por Whitehead mostra que o nacionalismo cristão está associado a atitudes autoritárias, discriminatórias e xenófobas, e que essa relação não pode ser explicada apenas pela orientação política ou pelo nível de participação religiosa. O que é crucial, portanto, não é a intensidade da fé em si, mas a forma como o cristianismo se entrelaça com a identidade nacional e a defesa das hierarquias sociais.

Whitehead combina uma análise sociológica com uma leitura explicitamente teológica. Em sua visão, a fé não pode ser reduzida à adesão a doutrinas corretas ou à salvação individual, mas deve também se refletir na maneira como os cristãos se relacionam com os pobres, os oprimidos e os estrangeiros.

O pecado, portanto, diz respeito não apenas às intenções e comportamentos dos indivíduos, mas também às instituições e práticas sociais que continuam a produzir injustiça, mesmo na ausência de hostilidade declarada abertamente. É precisamente aqui que emerge o caráter único do livro, pois Whitehead não se limita a apresentar as conclusões da pesquisa sociológica, mas as interpreta à luz de sua própria concepção do Evangelho.

Essa escolha torna o argumento mais pessoal e consistente com o público-alvo, mas também representa uma limitação potencial, já que um leitor que não compartilhe de sua interpretação bíblica poderia reconhecer a validade da análise social sem aceitar todas as suas conclusões teológicas.

Poder, medo e violência

O argumento central de "American Idolatry" gira em torno de três elementos: poder, medo e violência, que Whitehead considera intimamente ligados.

A busca pelo poder, quando serve para assegurar a dominância de um grupo, alimenta o medo quando essa posição parece estar enfraquecendo. Esse medo, por sua vez, gera uma maior disposição para justificar a exclusão e o uso da força. Essa compreensão nos permite conectar fenômenos que, considerados individualmente, podem parecer simples expressões do conservadorismo americano, incluindo a nostalgia por um passado cristão idealizado, o apoio a líderes dispostos a defender firmemente os valores e interesses de seu grupo, a desconfiança em relação às minorias, um apego quase absoluto às armas e a tendência de contestar os procedimentos democráticos quando estes produzem resultados considerados inaceitáveis.

Whitehead avalia o poder principalmente pelos propósitos para os quais ele é usado. Pode servir para mudar leis injustas, proteger minorias e construir instituições mais equitativas; enquanto no nacionalismo cristão, é frequentemente empregado para defender a centralidade cultural dos cristãos brancos e impor uma interpretação religiosa específica à sociedade como um todo.

Dessa forma, até mesmo o significado de liberdade religiosa acaba sendo restringido, a ponto de coincidir principalmente com o direito do grupo majoritário de manter sua influência, em vez de indicar um espaço compartilhado no qual pessoas de diferentes crenças, ou sem filiação religiosa, possam coexistir.

Dessa perspectiva, a partilha de poder é vivenciada como uma perda, mesmo que represente uma consequência normal da vida em uma sociedade pluralista.

É precisamente nesse ponto que o medo entra em cena. Mudanças demográficas, declínio da afiliação religiosa e maior visibilidade de grupos antes marginalizados podem gerar uma verdadeira sensação de desorientação, que Whitehead reconhece e leva a sério.

O problema surge quando essa experiência é transformada em uma narrativa política segundo a qual os Estados Unidos estão perdendo sua alma, a família está sob ataque e os cidadãos “de verdade” correm o risco de serem substituídos.

Por meio da linguagem da perda, um grupo que ocupou por muito tempo uma posição dominante pode passar a se perceber como vítima e considerar moralmente necessário recuperar os privilégios que desafiou. O medo torna-se, assim, uma lente através da qual se interpreta a realidade, dividindo o mundo entre um "nós" inocente e um "eles" responsabilizados pelo declínio.

Quando o poder de um grupo é apresentado como parte do plano de Deus, até mesmo a violência pode assumir a aparência de legítima defesa. Whitehead traça essa tendência relembrando uma longa história que inclui a conquista de terras indígenas, a escravidão, a segregação racial e a celebração do poderio militar. No livro, o ataque ao Capitólio em 6 de janeiro de 2021 representa um exemplo contemporâneo particularmente significativo, visto que símbolos cristãos, orações e referências a Jesus apareceram durante a tentativa de interromper a certificação dos resultados eleitorais.

Whitehead não atribui todo o evento a uma única causa, mas chama a atenção para o papel desempenhado pela linguagem religiosa, capaz de atribuir um valor absoluto a um objetivo político contingente e transformar qualquer um que se oponha a ele em inimigo do partido, da nação e até mesmo de Deus.

A relação entre poder, medo e violência é provavelmente um dos aspectos mais úteis do livro, pois ajuda a distinguir o nacionalismo cristão de posições conservadoras comuns. Pode-se apoiar políticas de imigração restritivas, defender um modelo familiar tradicional ou expressar um forte sentimento patriótico sem acreditar que um determinado grupo religioso tenha o direito natural de dominar a sociedade.

A lógica descrita por Whitehead emerge com particular clareza quando o privilégio é percebido como um direito, a igualdade como uma ameaça e a agressão como uma qualidade necessária. A tríade de Whitehead oferece, portanto, uma interpretação eficaz, mesmo que sua clareza possa, por vezes, simplificar demais um fenômeno complexo, que abrange experiências e motivações muito diferentes.

Discriminação, imigração e identidade nacional

Whitehead costuma usar o termo "nacionalismo cristão branco" para situar o fenômeno na história dos Estados Unidos, onde a ideia de plena cidadania está há muito associada a ser branco, cristão, nascido no país e culturalmente conservador.

Esse modelo continuou a influenciar instituições e expectativas sociais mesmo depois que as formas mais flagrantes de discriminação haviam cessado, sem necessariamente exigir hostilidade consciente em relação a outros grupos. É daí que surge a distinção entre preconceito individual e desigualdade estrutural, central para a análise de Whitehead. Uma pessoa pode, de fato, se beneficiar de uma ordem social formada quando outros tinham menos direitos e oportunidades, sem se considerar racista ou discriminatória.

A história do cristianismo americano reflete a mesma complexidade, visto que a fé foi usada para justificar a escravidão e a segregação, mas também apoiou movimentos de libertação e lutas pela igualdade. Por fim, Whitehead observa que o nacionalismo cristão não tem o mesmo significado em todos os lugares. Entre os afro-americanos, pode vir acompanhado de uma maior abertura à participação cívica de outros grupos, enquanto entre os brancos, tende mais frequentemente a reforçar a defesa de uma posição historicamente dominante.

Essa mesma tensão também surge na escolha dos temas considerados mais prementes em um nível moral. Nos ambientes descritos por Whitehead, questões como aborto, sexualidade e família frequentemente ocupam o centro do discurso público, enquanto problemas como discriminação racial, pobreza, violência institucional e o tratamento de imigrantes recebem atenção mais inconsistente.

É precisamente esse desequilíbrio que o autor questiona, argumentando que uma fé focada principalmente nas normas que regem a vida privada corre o risco de negligenciar as condições sociais em que as pessoas vivem e as injustiças que delas decorrem. Whitehead, portanto, nos convida a julgar a fé também com base em seus efeitos concretos, observando se ela protege os mais vulneráveis, dá voz aos marginalizados e expõe as desigualdades que muitas vezes são ignoradas.

O tema da imigração destaca a relação entre identidade religiosa e pertencimento nacional. Um segmento da direita religiosa apresenta o cristianismo como fundamento da identidade americana, ao mesmo tempo que retrata imigrantes e refugiados através de imagens de invasão, crime e contaminação cultural.

Whitehead demonstra que, em algumas formas de nacionalismo, o termo "cristão" indica não apenas uma fé compartilhada, mas também um modelo específico de cidadania americana. É por isso que mesmo um imigrante cristão pode ser excluído do "nós" quando sua língua, origem ou cor da pele o colocam fora da imagem dominante dos Estados Unidos.

Whitehead destaca essa contradição por meio de um episódio de sua própria experiência pessoal, relembrando as viagens missionárias que fez durante sua juventude. Nessas viagens, cruzar a fronteira para passar alguns dias em outra comunidade era considerado um ato de serviço, enquanto a chegada daqueles que faziam a mesma viagem na direção oposta, com a intenção de se estabelecer no país, encontrava muito mais resistência.

Essa diferença também depende do controle que o missionário mantém sobre sua experiência, escolhendo quando partir, quanto tempo ficar e quando retornar para casa. A imigração, por sua vez, tem um impacto duradouro na vida comunitária e exige o compartilhamento de recursos, espaço e a oportunidade de participar de decisões coletivas. Acolher, portanto, significa aceitar que a comunidade muda com o tempo e que a maioria não é mais a única a definir sua identidade.

Ao discutir imigração, Whitehead evita usar a Bíblia como um manual para derivar cotas, procedimentos de asilo ou critérios de cidadania. Ele reconhece que a política de imigração deve abordar questões concretas de segurança, recursos e organização, enquanto atribui às Escrituras a tarefa de oferecer orientação moral baseada no amor ao próximo, na hospitalidade e no cuidado com aqueles forçados a deixar sua terra natal.

Essa distinção é particularmente importante porque nos permite abordar a questão das fronteiras sem transformá-las em critérios morais para separar aqueles considerados dignos daqueles considerados indignos. Requer também o reconhecimento de imigrantes e refugiados como indivíduos capazes de relatar e interpretar suas próprias experiências, em vez de reduzi-los a meros receptores de assistência ou ferramentas de propaganda política.

As consequências para as Igrejas

O subtítulo de Idolatria Americana apresenta o nacionalismo cristão como uma traição ao Evangelho e, ao mesmo tempo, uma ameaça à Igreja. Esta última afirmação pode parecer menos imediata do que a crítica política, mas ocupa um lugar central no argumento de Whitehead, porque a identificação cada vez mais estreita entre o cristianismo e o campo conservador acaba por transformar a forma como a fé é percebida na esfera pública.

Aos olhos de muitas pessoas, especialmente os jovens e aqueles que se sentem excluídos ou sub-representados pelas comunidades eclesiais, a palavra "cristão" tende a evocar controle, agressão e hostilidade em relação às diferenças, enquanto o serviço, a misericórdia e o cuidado com os mais vulneráveis ​​tornam-se menos reconhecíveis.

Whitehead interpreta parte do afastamento das igrejas como uma reação a essa perda de credibilidade e observa que, ao tentar defender sua influência social e política, as comunidades religiosas correm o risco de vincular o futuro da fé ao sucesso de um determinado partido ou líder.

Para Whitehead, mudar as crenças individuais é apenas o primeiro passo, pois o problema também diz respeito ao funcionamento das comunidades e instituições. Declarar-se contrário à discriminação ou afirmar a aceitação dos imigrantes é insuficiente se não considerarmos quem toma as decisões, quais experiências são reconhecidas como relevantes, como os recursos são distribuídos e quais políticas recebem apoio.

Este aspecto é particularmente importante porque convida o leitor a considerar, além das responsabilidades dos outros, as das comunidades às quais pertence. Whitehead dirige-se principalmente aos cristãos brancos, convidando-os a dialogar com as igrejas negras e as tradições cristãs nascidas em comunidades marginalizadas, onde a fé muitas vezes foi acompanhada por um compromisso político com a liberdade, a segurança e o reconhecimento. Ouvir essas experiências permite-nos compreender injustiças e dinâmicas sociais que são mais facilmente invisíveis para aqueles que se beneficiaram da ordem vigente.

Whitehead propõe uma presença pública da fé baseada na liberdade religiosa de todos, na colaboração com pessoas de diferentes crenças e no uso do poder para beneficiar aqueles com menos poder. Tal perspectiva também exige a disposição de renunciar a privilégios que o nacionalismo cristão tende a apresentar como direitos naturais.

A crítica aos três ídolos do nacionalismo cristão se traduz, portanto, em uma abordagem concreta, na qual o serviço substitui a dominação, a proximidade reduz a distância criada pelo medo e o reconhecimento da dignidade do outro limita o recurso à violência. Traduzir esses princípios em prática, contudo, não é fácil, pois exige abrir mão de parte do controle exercido sobre os outros, repensar a forma como os adversários são percebidos e não interpretar toda perda de poder político como uma ameaça ao cristianismo.

Um dos maiores méritos do livro é que Whitehead desenvolve sua crítica a partir do próprio cristianismo americano. Ele conhece bem o ambiente evangélico conservador em que cresceu e consegue descrevê-lo sem simplificá-lo demais, demonstrando como crenças aprendidas de boa fé podem, ainda assim, contribuir para a exclusão e a injustiça. Essa abordagem reflete o propósito da obra, que se destina principalmente às comunidades cristãs e é concebida como uma reflexão moral e teológica fundamentada em pesquisa sociológica.

A interpretação do Evangelho feita pelo autor, portanto, guia toda a argumentação e pode se mostrar menos persuasiva para aqueles que leem os textos bíblicos de maneira diferente ou que não reconhecem sua autoridade moral. Um leitor poderia, portanto, considerar os dados válidos e a análise social convincente, sem concordar com todas as conclusões teológicas de Whitehead. A pesquisa sociológica também é apresentada de forma concisa, coerente com a escolha de se dirigir a um público amplo, e o livro dedica mais espaço aos resultados do que à explicação dos métodos, das amostras utilizadas e de possíveis interpretações alternativas.

Além disso, a questão da relação causal permanece em aberto, uma vez que as associações encontradas entre o nacionalismo cristão e as atitudes autoritárias ou xenófobas não nos permitem estabelecer com certeza se o primeiro contribui para a produção de tais orientações ou se oferece uma justificação religiosa para crenças já existentes.

Impressões de uma jovem italiana

Antes de ler "American Idolatry", eu sempre considerei a associação entre a direita política e o cristianismo quase que espontaneamente. No debate público, especialmente nos Estados Unidos, a fé cristã é frequentemente apresentada como um dos elementos definidores da identidade conservadora, juntamente com a defesa da família tradicional, da ordem social e da nação.

Justamente por estar acostumado a ver essas realidades coexistindo, eu nunca havia percebido uma contradição entre o chamado ao cristianismo e a hostilidade contra imigrantes e refugiados. O livro de Whitehead me impactou porque questionou uma conexão que eu até então considerava óbvia. Por meio da comparação com o Evangelho e os ensinamentos de Jesus, o autor destaca como a fé cristã nos chama a acolher os estrangeiros, a cuidar dos vulneráveis ​​e a cultivar uma solidariedade capaz de transcender os limites da nossa própria comunidade. Essa perspectiva me levou a reconhecer um paradoxo que eu havia ignorado.

Um segmento da direita americana afirma veementemente sua identidade cristã e, ao mesmo tempo, constrói uma parte significativa de seu discurso político sobre o medo. A análise do livro aborda o significado do cristianismo dentro do nacionalismo cristão. Nesse contexto, a fé tende a se transformar em uma identidade cultural e política, atrelada a uma ideia específica dos Estados Unidos, sua população branca, o conservadorismo e um modelo familiar tradicional. Ser cristão, portanto, acaba coincidindo com pertencer a um grupo que se considera o verdadeiro representante da nação.

Aqueles que vêm de outro país, pertencem a uma religião diferente ou não compartilham o mesmo modelo cultural são percebidos como forasteiros na comunidade nacional. A hostilidade em relação a imigrantes e refugiados adquire, portanto, uma função específica, pois ajuda a reforçar a fronteira entre aqueles que são reconhecidos como plenamente americanos e aqueles que são marginalizados. É precisamente esse aspecto que mudou minha maneira de entender a relação entre religião e política.

Antes de ler o livro, eu considerava a ligação entre a direita e o cristianismo um fato consolidado e nunca havia sentido necessidade de examinar sua coerência. Whitehead me levou a distinguir o uso público da fé da fidelidade concreta aos ensinamentos evangélicos, destacando a lacuna que pode existir entre uma identidade política declaradamente cristã e o tratamento reservado àqueles em situações de vulnerabilidade.

Essa reflexão também nos leva a analisar mais atentamente os efeitos da linguagem religiosa na vida coletiva. Uma pessoa pode estar sinceramente convencida de que está defendendo sua fé e, ao mesmo tempo, apoiar uma visão de sociedade que protege primordialmente o grupo ao qual pertence.

A sinceridade individual, portanto, não é suficiente para avaliar a coerência de uma posição com a mensagem cristã, sendo necessário também observar as consequências concretas das ideias e políticas defendidas.

Uma comunidade pode invocar amor, liberdade e justiça e ainda assim contribuir para a exclusão daqueles percebidos como forasteiros. Isso não significa considerar todo crente conservador inconsistente ou carente de fé autêntica, ou atribuir automaticamente valor positivo a qualquer referência ao cristianismo. Em vez disso, Whitehead nos convida a questionar a própria ideia de fé que está sendo proposta e os efeitos que ela tem sobre os mais vulneráveis.

Apreciei também a abordagem do autor ao tema da imigração, sem reduzi-la a um conflito de posições absolutas. A gestão de fronteiras, recursos e acolhimento apresenta desafios reais e pode ser abordada por meio de diferentes escolhas políticas. A questão crucial é como esses desafios são representados e discutidos.

É possível discutir limites e responsabilidades sem transformar estrangeiros em inimigos ou descrever populações inteiras como perigosas. Quando o medo se torna a principal ferramenta de mobilização política, o debate transcende a simples administração da imigração e envolve uma questão mais profunda, ligada à definição de próximo e ao tipo de comunidade que se deseja construir.

De uma perspectiva acadêmica, esse aspecto do livro me pareceu particularmente significativo porque demonstra até que ponto a religião pode influenciar a construção da identidade coletiva. Definir os Estados Unidos como uma nação cristã significa escolher uma interpretação específica da história, atribuir importância central a certos símbolos e estabelecer quais grupos representam a imagem autêntica do país. Mesmo o medo de estrangeiros e imigrantes, sob essa perspectiva, parece ser resultado de discursos e narrativas que transformam pessoas reais em uma categoria associada ao perigo e à perda de identidade.

O fenômeno analisado por Whitehead pertence à história específica dos Estados Unidos e exige cautela quando comparado a outros contextos. No entanto, o livro levanta uma questão útil mesmo para além do contexto americano: quando uma religião majoritária é apresentada como fundamento da identidade nacional, seu apelo amplia a responsabilidade para com aqueles que são diferentes ou restringe os limites do "nós"?

Foi essa questão em particular que me chamou a atenção, porque me levou a reconhecer uma contradição que antes eu aceitava como parte normal do debate político.

Conclusão

Em "Idolatria Americana", Whitehead descreve o nacionalismo cristão como uma deformação da fé que surge quando uma determinada ideia de nação é ajustada ao plano de Deus. A partir desse momento, o sucesso político também adquire um valor religioso, a perda de influência é vivenciada como perseguição e aqueles que não se encaixam no modelo dominante acabam sendo considerados menos americanos do que os outros. Poder, medo e violência são os elementos que sustentam esse mecanismo.

As pessoas tentam manter o controle para proteger seu grupo, alimentando o medo de perdê-lo, e, com o tempo, até mesmo formas de agressão e exclusão podem parecer justificadas. Whitehead mostra como essa lógica teve profundas consequências na história dos Estados Unidos, especialmente nas relações raciais, nas políticas em relação a imigrantes e refugiados, na compreensão da democracia e na credibilidade das igrejas.

O autor, portanto, convida os cristãos a participarem da vida pública sem transformar sua fé em instrumento de dominação. Em sua visão, ser fiel ao Evangelho significa defender a liberdade de todos, ouvir os marginalizados e usar o próprio poder para reduzir as desigualdades.

O ponto central diz respeito à capacidade de reconhecer como próximos aqueles que pertencem a outra cultura, religião ou grupo social. É nesse sentido que Whitehead fala de idolatria. Quando a defesa da própria nação, do poder e dos privilégios de grupo se torna mais importante do que os ensinamentos de Jesus, a fé perde seu significado original e passa a ser usada para justificar o medo e a exclusão.

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