Instituto Humanitas Unisinos – IHU promove evento em memória ao centenário do agrônomo e ambientalista brasileiro nesta quinta-feira, 20-08-2026, às 17h30min
Aos 44 anos, José Lutzenberger abandonou a carreira de diretor da multinacional alemã Bayer, responsável pela fabricação de agrotóxicos e sementes transgênicas, e tornou-se uma das referências na defesa de uma “agricultura sã”. Por essa expressão, o agrônomo gaúcho, natural de Porto Alegre e filho de migrantes alemães, não defendia apenas a biodiversidade biológica que compõe um ecossistema, mas o modo de vida das populações que o habitam. “Abandonei [o cargo na Bayer] porque não podia mais coadunar o meu trabalho com a minha consciência. Me dei conta de que o caminho dos agrotóxicos é um caminho fundamentalmente equivocado na agricultura. Existem outros caminhos melhores”, disse em entrevista ao Programa Corpo e Alma, da TVE-RS, em 1987. A entrevista, gravada em Fita VHS à época, foi recuperada e está disponível no YouTube.
Desde o início dos anos 1970, Lutzenberger engajou-se não só na luta ambiental, mas, como afirma na entrevista mencionada, numa “brigada política”. No contexto da ditadura militar, identificava-se como “anti-comunista” e “anti-capitalista”. A sua posição, contou à TVE-RS, “deixava eles [militares] ainda mais confusos porque eles achavam que um cara tinha que ser uma coisa ou outra”. À época, o Brasil vivia sob o AI-5, decretado em 13 de dezembro de 1968, no governo Artur da Costa e Silva, que, entre outras coisas, determinava a censura prévia à imprensa, por meio da qual Lutzenberger expunha suas ideias.
Neste ano celebra-se o centenário de José Lutzenberger. Para resgatar a memória do ecologista e sua atuação na conscientização pública em defesa do meio ambiente, o Instituto Humanitas Unisinos – IHU promove o painel “José Lutzenberger, 100 anos. Da Borregaard às enchentes: os alertas ignorados”. Participam do evento a historiadora Elenita Malta Pereira, pesquisadora da Universidade Federal de Rondonópolis (UFR), e Francisco Milanez, biólogo, urbanista, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e diretor técnico científico da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natura (Agapan). A entidade foi fundada em 1971 e presidida por Lutzenberger. O evento online será transmitido na página do IHU, nas redes sociais e no YouTube nesta quinta-feira, 20-08-2026, às 17h30min. A atividade é gratuita.
Um dos embates de Lutzenberger com os setores público e privado à época envolveu a Borregaard, empresa norueguesa de celulose instalada em Guaíba, município da região metropolitana de Porto Alegre. Segundo denúncias do ecologista, tratava-se de “uma firma muito poluidora e que agredia violentamente o porto-alegrense com aquele problema do mau-cheiro”. Em 1987, ao recuperar a história dessa luta, Lutzenberger destacou sua importância na “maior conscientização” da população local. A gigante do setor, disse à época, tornou-se “talvez, uma das fábricas de celulose mais limpas do mundo”.
Lutzenberger também engajou-se no debate público de conscientização acerca dos malefícios gerados pelos agrotóxicos na agricultura. No período militar, o agrônomo foi um dos expoentes dessa discussão. “Tem que haver na Constituição algum artigo ou mecanismo que nos leve à agricultura mais sã e a uma pesquisa que tenha outro direcionamento. Então não precisamos mais brigar com os agrotóxicos; vão desaparecer sozinhos”. O prognóstico do ex-diretor da Bayer ainda não se realizou e a consciência pública sobre os malefícios gerados pelos inseticidas e herbicidas cresce lentamente num país que se orgulha do desempenho do agronegócio.
Desde 2008 o Brasil lidera o consumo mundial de agrotóxicos. Enquanto o país se destaca como celeiro do mundo, ampliando a monocultura em diversas regiões e fazendo do agronegócio o setor responsável pelo superávit da balança comercial nacional, as notícias mais recentes chamam atenção para outro ponto: as intoxicações por agrotóxicos cresceram 1.100% nos últimos oito anos. Produtos banidos na agricultura europeia são amplamente utilizados no Brasil, causando inúmeros dados à saúde dos brasileiros.
O agrônomo também criticava a pesquisa convencional, que procurava soluções para os problemas agrícolas na indústria química. O futuro da agricultura, argumentava, dependia de novas alternativas. “O futuro dessa coisa não está na briga com a indústria química. Essa já está desmoralizada nesse campo porque ela sabe que o ela está fazendo está errado. O futuro está numa agricultura sã. Nós temos que partir para uma agricultura sã. Isso é possível”, disse um ano antes da promulgação da Constituição de 88.
José Lutzenberger faleceu em 14 de maio de 2002, aos 75 anos. Na semana seguinte, em 20 de maio, o IHU dedicou uma edição da Revista IHU On-Line à memória do ecologista. Entre os entrevistados, o jesuíta Clemente José Steffen, professor da Unisinos à época, ex-vice presidente da Agapan e amigo pessoal de Lutzenberger, recordou aspectos da luta socioambiental empregada pelo agrônomo nas décadas anteriores. “Lutzenberg chegava a ser um fanático pela preservação da natureza. Era violento. Estourava na hora. Dizia as coisas. Defendia suas ideias com unhas e dentes. Dessa forma, arranjava amigos e inimigos. Tinha grandes ideias e não tinha medo de defendê-los e enfrentar quem quer que fosse. Seu lado humano era muito rico”, disse.
Segundo relato do padre Steffen, os posicionamentos de Lutzenberg fundamentavam-se numa visão de mundo crítica ao uso da tecnologia como fonte última para a resolução de todos os problemas ambientais e humanos. “Ele era contra o homem tecnológico que usa mal a natureza. Via que o desenvolvimento da humanidade tinha ido por um caminho errado, contra a natureza. A humanidade entrou em crise com a tecnologia e para corrigir os erros usa mais tecnologia. Opunha-se a uma concepção de economia como aquela que determina tudo. Ele entendia de natureza, economia, química, astronomia, matemáticas… e gostava de dissertar sobre a economia mundial. (…) Ele era um grande crítico dos desvios que degradam a natureza, seja em seu aspecto biológico, físico, humano etc”.
Foi na própria fazenda, localizada no município de Pantano Grande, no Vale do Rio Pardo, a 124 quilômetros de Porto Alegre, que Lutzenberg fez experimentos em defesa de uma agricultura sã. Sua forma alternativa de cuidar do ecossistema foi explicada pelo jesuíta. “Ele comprou uma área no meio de uma fazenda no município de Pantano Grande, para mostrar, na prática, como tornar ecologicamente sadia uma área degradada. Plantou, deixou a natureza se recuperar, criou animais, tornou a área útil. Transformou-a num local onde demonstrava como criar galinhas e usar o adubo para cultivar plantas aquáticas que, por sua vez, alimentam as galinhas. Tinha diversas práticas de agricultura sustentável, criação de porcos e outros animais que tratava de forma diferente. Lá havia cursos de ecologia, plantas medicinais e muitos outros. Construiu casas à base de madeira e palha para hospedar e dar aulas, o mais natural possível”, exemplificou.
De acordo com a historiadora Elenita Malta Pereira, Lutzenberger também engajou-se na defesa da floresta amazônica. Na década de 1980, participou de várias expedições para conhecer a realidade da região. “Lutzenberger critica a migração de colonos do Sul, Sudeste e Nordeste do país para a Amazônia, que era incentivada pelos governos militares para resolver o problema dessas regiões, onde a agricultura industrial estava tomando conta das terras”, relembra.
Entre as influências teóricas que fundamentavam as teses defendidas pelo agrônomo, Elenita menciona a Teoria de Gaia, formulada James Lovelock e Lynn Margulis. Lutzenberger, diz, “tornou-se um de seus principais divulgadores. (…) A partir da Teoria de Gaia e da sua militância prática e intelectual, formulou a ética do desenvolvimento ecosustentável, um caminho para, segundo ele, garantir a continuidade da Amazônia e da vida como um todo”. A luta pela preservação da floresta, acrescenta a pesquisadora, “não se resumiu à preservação da fauna e da flora, mas também levou em conta a proteção dos povos afetados por essa devastação: indígenas, seringueiros e ribeirinhos”.
Em 1976, Lutzenberger escreveu o “Fim do futuro? Manifesto ecológico brasileiro”, que repercutiu entre ambientalistas do país. O texto foi relembrado recentemente pelo biólogo e urbanista Francisco Milanez, ao comentar os eventos climáticos extremos que estão ocorrendo com mais frequência no Rio Grande do Sul. “Quando tivemos as cheias em 2023, as pessoas diziam que aquele era um fenômeno que se repetia apenas de 70 em 70 anos e eu contestava: ‘não, viriam piores e mais frequentes cheias. Um texto do Lutz, anterior ao livro ‘Fim do futuro? Manifesto ecológico brasileiro’, de 1976, já indicava essa situação”, disse ao EcoDebate no contexto das cheias de 2024.
Milanez relaciona os eventos climáticos extremos à degradação ambiental em curso nas últimas décadas. “Tiraram das encostas as matas que absorveriam boa parte da água e freariam as chuvas. Aí o rio aguentaria a água descendo. Mas, sem floresta, a água vai para o rio em alta velocidade, logo extravasa e vira enchente. Para piorar, tiraram também as matas ciliares e a terra vai para o rio, que assoreia. Cada vez menos chuva vai resultar em mais enchentes. Foi o que aconteceu em Muçum, a cidade mais atingida, e que não casualmente foi a que mais desmatou no ano passado”, explica. Seguindo os ensinamentos de Lutzenberger, o professor da UFRGS é enfático: “A sociedade tem que ter outra forma de viver. As coisas que poluem mais hoje são as guerras e o estilo de vida one way, descartável. Ambas precisam ser revisadas”.
Painel: José Lutzenberger, 100 anos. Da Borregaard às enchentes: os alertas ignorados
Palestrantes:
Elenita Malta Pereira é graduada, mestre e doutora em História pela História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Psquisadora da Universidade Federal de Rondonópolis (UFR) e coordenadora do canal Lutz Global no YouTube, projeto de história pública e divulgação científica em história ambiental, que recebeu o Selo do Fórum Saberes Históricos da Associação Nacional de História (ANPUH).
Francisco Milanez é formado em Ciências Biológicas e Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), especialista em Análise de Impactos Ambientais pela Universidade Federal do Amazonas, mestre e doutor em Educação em Ciências: Química da Vida e Saúde na bioquímica da UFRGS. Foi palestrante na Rio 92, onde abordou a tendência do desenvolvimento mundial no terceiro milênio, e palestrante na Cúpula Mundial para o Desenvolvimento Social da ONU, em Copenhagen, em 1995. Na ocasião, tratou sobre o desenvolvimento do terceiro mundo. É um dos pioneiros brasileiros da questão ambiental e do ecodesenvolvimento.
Quando: 20-08-2026, às 17h30min
Transmissão: www.ihu.unisinos.br, redes sociais e YouTube
No dia 27-08-2026, o ciclo IHU ideias, promovido pelo IHU todas as quintas-feiras, dará continuidade ao debate sobre o legado de Lutzenberger. O biólogo Paulo Brack e a jornalista Ilza Girardi, ambos da UFRGS, participam do painel José Lutzenberger, 100 anos. A coragem de dizer o que ninguém queria ouvir. A transmissão na página do IHU, nas redes sociais e no YouTube será às 17h30min.