14 Agosto 2026
"Na visitação, o 'eu' abdica do controlo absoluto sobre a sua narrativa para acolher a alteridade que toca e usa palavras, que bate à porta e chama. Aqui se encerra, a meu ver, a dimensão antropológica da sinodalidade. Escutar, neste sentido, não é simplesmente permitir que o outro fale. É aceitar a possibilidade de que aquilo que ele diz faça alguma coisa em mim. Não significa necessariamente concordar com ele, nem atribuir a todas as opiniões o mesmo peso ou a mesma verdade. Significa algo mais exigente: reconhecer que posso sair daquele encontro vendo de maneira diferente aquilo que julgava já conhecer."
O artigo é de Miguel Pedro Melo, padre jesuíta português.
Miguel Pedro Melo entrou no Noviciado do Santíssimo Nome de Jesus em 2006, em Coimbra. Após os estudos de Filosofia em Braga, viveu três anos na província chinesa da Companhia de Jesus. Foi depois enviado a iniciar os estudos teológicos na Universidade Pontifícia Comillas, em Madrid, que concluiu no Boston College. Ordenado padre a 7 de julho de 2018, residiu na comunidade Pedro Arrupe, em Braga, onde foi diretor do Centro Acadêmico de Braga e assistente espiritual do Camtil. Depois de integrar durante um ano a equipe da 'Pastoral Juvenil e Vocacional' da província portuguesa dos jesuítas, foi enviado ao Quênia para a Terceira Provação (2025). Atualmente vive em Roma onde colabora na missão internacional da Rede Mundial de Oração do Papa.
Eis o artigo.
Há palavras que vivem uma estranha biografia. Durante alguns anos, aparecem em toda a parte: inflamam debates acesos, dividem sensibilidades teológicas, tornam-se bandeiras pastorais ou ideológicas. Depois, quase sem darmos conta, desaparecem de cena. Não porque tenham sido cabalmente resolvidas ou as suas propostas totalmente assimiladas, mas simplesmente porque deixaram de produzir entusiasmo ou medo. O cansaço da repetição esvazia-as de vigor, transformando-as em ecos distantes de um mantra extenuado.
Talvez estejamos a entrar precisamente nesse momento de transição em relação à sinodalidade. Há escassos anos, quase tudo na vida da Igreja era interpretado sob a sua lente hermenêutica. Para uns, a sinodalidade era temida como uma espécie de cavalo de Troia que escondia uma revolução doutrinal silenciosa, destinada a desmoronar a tradição dogmática. Para outros, apresentava-se como a panaceia universal, a fórmula mágica capaz de curar, de um dia para o outro, todas as patologias clericais e estruturais da Igreja contemporânea.
Hoje, contudo, já não se assiste a nenhum destes extremos. A palavra perdeu o seu poder de hipnotizar, de inflamar ou de assustar. [1]. O burburinho mediático acalmou. E é precisamente agora, longe do ruído das trincheiras e do entusiasmo ingénuo, que nos toca não ceder no caminho de continuar a acolher o seu sentido e prática com profundidade e rigor. Talvez, aliás, este seja um bom momento para deixar de perguntar apenas como manter viva a palavra e começar a perguntar que experiência humana queremos que ela continue a nomear. Porque uma palavra pode desaparecer dos cabeçalhos sem que desapareça a realidade de que precisamos.
Da eclesiologia à antropologia
Para que este discernimento aconteça, a questão de partida talvez não deva ser estritamente eclesiológica, mas sim antropológica (uma verdadeira antropologia eclesiológica, como sabiamente apontava o padre Yves Congar, OP). [2]. O debate crucial, a meu ver, não passa apenas por perguntar "como deve funcionar a Igreja?". A interrogação de fundo é outra: que visão de ser humano torna possível, de facto, uma Igreja sinodal? E será essa visão um ideal de pessoa realista? O dogma de Calcedônia recorda-nos que o que não pode ser vivido humanamente, também não pode ser salvo, divinizado ou assumido como vida eclesial. Em suma, se a Igreja não enraíza no humano as práticas que propõe, estas correm o risco de se tornarem produtos de marketing num mercado volátil.
Esta deslocação do olhar é de uma importância vital. Se a sinodalidade for reduzida a um mero método organizativo, a um protocolo de gestão participativa ou a uma ferramenta burocrática de auscultação pública, ela sobreviverá apenas enquanto for funcionalmente útil. Assim que o cansaço administrativo se instalar, será inevitavelmente substituída por outro procedimento considerado mais eficaz, moderno ou expedito. Mas vejamos o cenário contrário: e se esta dinâmica corresponder a uma dimensão constitutiva e profunda da própria pessoa humana? É certo que vivê-la exige conversão e luta interior. Obriga-nos a contrariar o desejo de dominar opiniões e aquele instinto de sobrevivência que Espinosa designou como conatus essendi.
Contudo, se for verdadeiramente estruturante, permanecerá ativa no coração da comunidade crente muito depois de esquecermos ou abandonarmos o seu nome técnico. Nesse caso, a pergunta deixa de ser simplesmente como organizar melhor a participação (embora seja uma pergunta muito importante) e passa a ser mais radical: que acontece dentro de uma pessoa quando ela escuta verdadeiramente outra pessoa? E que tipo de comunidade nasce quando se acredita que essa escuta pode produzir em nós algo que não conseguiríamos produzir sozinhos?
A literatura como porta de entrada
A maior parte das discussões teológicas sobre este tema partiu, legitimamente, da Escritura, da patrística ou da rica tradição conciliar da Igreja. E fizeram-no bem, pois aí reside a nossa memória viva. No entanto, existe outra porta de entrada que raramente ousamos cruzar, mas que nos oferece uma perspectiva antropológica única: a literatura. Não porque a literatura possa substituir a teologia, nem porque um romance tenha a última palavra sobre o que significa ser Igreja, mas porque nela podemos observar, quase como num laboratório humano, aquilo que a teologia procura muitas vezes nomear: o que acontece quando uma realidade, uma palavra ou uma pessoa nos visita e altera o horizonte a partir do qual compreendemos a nossa própria vida.
A literatura conhece o ser humano antes de este se tornar alvo de sistematização teológica. Os romancistas, os dramaturgos e os poetas tateiam a carne, o desejo, a fragilidade e a incompletude humana de uma forma que a teologia académica, por vezes, deixa escapar no seu esforço de abstração. Foi esta intuição profunda que levou o teólogo Karl Rahner a definir o homem como o "ser radicalmente aberto à Palavra" (Hörer des Wortes). [3]. Para Rahner, o ser humano não é apenas alguém capaz de ouvir Deus, mas uma criatura cuja própria estrutura ontológica é definida pela incapacidade de se bastar a si própria. Somos, no nosso âmago, uma pergunta à espera de resposta, um silêncio que necessita de ser habitado.
Na mesma linha, mas com uma plasticidade poética singular, o teólogo belga Adolphe Gesché afirmava que o ser humano é, fundamentalmente, "um ser chamado a ser visitado". [4]. Não somos apenas seres que pensam, que decidem ou que agem. Somos, antes de tudo, seres constitutivamente abertos a deixarmo-nos visitar. A diferença introduzida por este conceito é abissal. Visitar significa que o sentido, a consolação e a verdade chegam de outro lugar. Não são autoproduzidos pelo sujeito; são recebidos como dom.
Na visitação, o "eu" abdica do controlo absoluto sobre a sua narrativa para acolher a alteridade que toca e usa palavras, que bate à porta e chama. Aqui se encerra, a meu ver, a dimensão antropológica da sinodalidade. Escutar, neste sentido, não é simplesmente permitir que o outro fale. É aceitar a possibilidade de que aquilo que ele diz faça alguma coisa em mim. Não significa necessariamente concordar com ele, nem atribuir a todas as opiniões o mesmo peso ou a mesma verdade. Significa algo mais exigente: reconhecer que posso sair daquele encontro vendo de maneira diferente aquilo que julgava já conhecer.
O teatro como evento de visitação
Como dissemos, para compreendermos esta dinâmica antropológica da sinodalidade, a teologia sistemática não basta. Precisamos de olhar para a forma como a arte nos elucida para a árdua dádiva de ser (ou não) com outros. Pensemos, por exemplo, no aclamado romance Hamnet, de Maggie O’Farrell. A obra debruça-se sobre a morte trágica de Hamnet, o filho de apenas onze anos de William Shakespeare, vítima da peste em Stratford-upon-Avon. O que torna o romance sublime é que ele quase nunca procura explicar teoricamente o sofrimento ou oferecer uma teodiceia reconfortante. Em vez disso, faz algo muito mais desafiante: mostra como a ausência continua a agir na vida dos que ficam. Mostra como o rapaz morto permanece estranhamente presente nas frestas do quotidiano, e como aquilo que parecia definitivamente perdido regressa sob novas e misteriosas configurações. Uma ausência habitada?
No desenlace da narrativa, compreendemos que a tragédia de Hamlet, escrita por Shakespeare pouco tempo depois, não é apenas uma peça sobre a vingança e a hesitação existencial. É um espaço de hospitalidade ontológica, um território sagrado onde o filho falecido (Hamnet) continua a visitar o pai vivo através da palavra cênica. O teatro, na escrita de Shakespeare, transforma-se numa autêntica "máquina de visitação".
Este dinamismo é reforçado por um recurso dramático que Shakespeare utiliza com frequência: a play within a play (a representação de uma peça de teatro dentro da própria peça). À primeira vista, pode parecer um mero artifício técnico de metateatro e metacognição. Contudo, é um dispositivo antropológico interessantíssimo. Ao assistirem à representação dramática que mimetiza, sob disfarce, a sua própria história e os seus segredos, as personagens perdem o controle sobre a interpretação da sua própria vida. Algo inesperado lhes acontece: a representação visita-as. A memória recalcada regressa com violência e sem aviso prévio, a culpa ou a gratidão irrompem, e a verdade oculta torna-se subitamente visível.
O teatro não acrescentou qualquer informação nova ao espectador cúmplice; transformou-lhe, sim, o olhar e a consciência. Ele não foi convencido por um argumento lógico; foi visitado pela realidade do seu próprio ser. E talvez seja precisamente aqui que a literatura se torna relevante para a sinodalidade: uma palavra que verdadeiramente nos visita não é apenas uma palavra que acrescenta informação ao que já sabemos. É uma palavra que altera o lugar a partir do qual olhamos para aquilo que sabemos.
Numa comunidade cristã, isto pode acontecer quando uma pessoa conta uma história que obriga os outros a reconsiderar uma realidade que julgavam conhecer; quando alguém que normalmente não tem voz descreve a Igreja a partir de uma experiência que os demais nunca tinham imaginado; ou quando uma situação concreta, escutada sem pressa, torna insuficientes categorias que até então pareciam adequadas.
Não é isto que nos acontece quando um grande romance nos comove até às lágrimas? Quando uma sinfonia parece compreender a nossa dor íntima melhor do que nós próprios? Ou quando o silêncio que se segue a um filme nos deixa suspensos no tempo, deixando-nos embevecidos a olhar para os créditos finais do filme como se estivéssemos mesmo a olhar para eles quando, na verdade, estamos a milhas de distância, dentro de nós?
Objetivamente, nada mudou nas circunstâncias externas da nossa vida. Mas mudámos nós. Não fomos necessariamente persuadidos por uma tese nocional: fomos visitados por um sentido maior. E ser visitado não significa ficar automaticamente convencido. Às vezes, a visitação recorda ou confirma uma convicção; outras vezes, desinstala-a; outras ainda, simplesmente abre uma pergunta que antes não existia. É justamente essa liberdade diante do que nos acontece que torna possível o discernimento.
O acontecimento da compreensão
O filósofo Hans-Georg Gadamer chamava a isto o "acontecimento da compreensão". Para Gadamer, compreender não consiste no ato intelectual de acumular e catalogar ideias novas. Consiste, sim, em permitir que um horizonte diferente, inicialmente estranho, penetre e alargue o nosso próprio horizonte. É uma “fusão de horizontes” onde o sujeito sai inevitavelmente transformado do encontro. [5].
Também Paul Ricoeur insistirá que é através das narrativas, dos mitos e dos símbolos que o ser humano aprende a interpretar continuamente a sua própria existência. Não pensamos primeiro de forma puramente abstrata para depois decidirmos mudar de rumo; mudamos de rumo porque fomos narrativamente habitados por um sentido novo que nos descentrou de nós mesmos. [6].
Ora, se a arte da narração tem este poder de nos descentrar e visitar, o que acontece quando aplicamos esta mesma matriz antropológica à forma como a comunidade cristã se escuta mutuamente? Talvez aconteça algo decisivo: a escuta deixa de ser o momento preliminar de um processo que já sabe onde quer chegar e passa a ser parte constitutiva do próprio discernimento. Uma comunidade não escuta verdadeiramente apenas para recolher dados antes de decidir. Escuta para se tornar capaz de decidir de outro modo.
É aqui que a literatura nos devolve à prática. Imaginemos uma assembleia paroquial convocada para discutir a participação dos jovens na comunidade. É possível recolher opiniões, identificar necessidades, distribuir responsabilidades e votar propostas. Tudo isso é geralmente necessário. Mas imagine-se que, antes de qualquer solução, uma jovem que deixou de participar na vida da comunidade conta durante quinze minutos o que experimentou, o que a afastou, aquilo que procurou e aquilo que não encontrou; ou um jovem adulto que deixou a vida religiosa partilha em que circunstância e de que modo o fez.
O objetivo não é (re)situar com claridade os vencedores e o vencidos. Ninguém recebeu uma nova doutrina. Talvez ninguém tenha sequer mudado imediatamente de opinião. Mas pode ter acontecido algo mais importante: uma realidade que estava diante de todos entrou agora dentro da compreensão de todos. A pergunta deixou de ser apenas "o que devemos fazer com os jovens?" e passou a ser "o que esta história fez à maneira como estávamos a olhar para eles?". É uma pequena diferença, mas é precisamente aí que uma assembleia pode deixar de ser apenas participativa e começar a ser sinodal.
A sinodalidade revisitada: do procedimento ao modo de proceder
É precisamente neste cruzamento entre antropologia, literatura e filosofia que a sinodalidade pode reencontrar a sua verdadeira espessura teologal. Escutar, no contexto da Igreja, nunca foi um mero exercício de recolha de opiniões, uma espécie de sondagem estatística ou um inquérito de satisfação para ajustar a oferta pastoral à procura dos fiéis. Se fosse apenas isso, estaríamos perante uma versão eclesial, deslavada e burocrática, da sociologia de consumo.
A vida monástica na Igreja, com a sua larga tradição capitular, é um testemunho da continuidade inegável entre a prática da sinodalidade nos primeiros milénios e no milénio que pouco a pouco estamos a tatear. O valor da escuta no exercício capitular monástico, mais do que um ato de simpatia, é um ato de obediência e hospitalidade. Obediência porque a escuta de Cristo verifica-se no amor com que se escuta o irmão. Hospitalidade pois a escuta garante que aconteça algo que nenhuma das partes envolvidas conseguiria produzir por si só: a emergência de um sentido novo capaz de alimentar a vida comum.
Porém, o reconhecimento de Cristo no irmão e da emergência do sentido novo pedem uma disposição prévia. É por esta razão que Santo Inácio de Loyola, no livro dos Exercícios Espirituais, concede tanta importância ao dinamismo da "consolação". Para a espiritualidade inaciana, a consolação não é um prémio espiritual de caráter psicológico, nem um mero bem-estar emocional. É a experiência profunda de sermos deslocados interiormente, pelo Espírito de Deus, para um lugar existencial onde nunca conseguiríamos chegar recorrendo apenas às forças do nosso raciocínio ou da nossa vontade. Aí conseguimos amar todas as coisas que nos chegam do mundo colocando-as sempre em relação com Deus. Como se entre nós e as coisas houvesse uma proximidade meditativa que, consciente da bondade de Deus, se pergunta: de que modo me pode isto tornar mais próximo de Deus, em atitude de amor e serviço, ou afastar? A consolação é, por excelência, um acontecimento de visitação. [7].
Adolphe Gesché chamaria a isto visitação; Karl Rahner designá-lo-ia como a abertura transcendental ao Mistério; o teólogo Yves Congar recordar-nos-ia que é exatamente através destas brechas e deslocações imprevisíveis que o Espírito Santo conduz e renova a Igreja ao longo da história. [8]. As linguagens teológicas diferem, mas a estrutura antropológica subjacente é rigorosamente a mesma: o ser humano só se torna plenamente ele próprio quando aceita ser conduzido para lá das fronteiras daquilo que já sabe e controla.
É precisamente aqui que as comunidades encontram a base humana para afirmar a sinodalidade como um verdadeiro modo de proceder. Ou seja, como uma disposição interior que molda o exercício do nosso juízo, da nossa liberdade e da nossa vontade, por oposição a uma mera técnica que se limita a gerir o tempo de antena de cada um. É verdade que não há modos de proceder sem metodologias sólidas; contudo, é nesse modo de proceder que a sinodalidade encontra a sua articulação decisiva entre a qualidade humana do processo e a abertura teologal dos participantes.
Um coração novo para habitar o mundo novo
Aqui residem as raízes mais profundas da sinodalidade. Ela não se fundamenta na importação de modelos democráticos parlamentares, nem na eficácia da gestão corporativa moderna. Fundamenta-se, sim, numa determinada e bela compreensão da pessoa humana como ser capaz (capax Dei) de receber a visita de Deus e ser inacabado (homo viator).
A Igreja não escuta porque acredita candidamente que todas as opiniões individuais têm o mesmo peso teológico ou a mesma maturidade espiritual. A escuta está no ADN da Igreja porque (1) ela experimenta que recebe o seu Ser apostólico da escuta celebrativa da Palavra de Cristo sob a ação do Espírito Santo, do mesmo modo que os apóstolos a receberam e comunicaram; mas também porque (2) tem a convicção profunda de que nenhuma pessoa ou comunidade humana coincide inteiramente com aquilo que já pensa ou sabe de si mesma.
Cada um de nós permanece sempre infinitamente maior do que as suas próprias convicções atuais. Cada um de nós continua disponível para ser visitado por um O/outro e nas circunstâncias sempre novas de um tempo que é presente. Por isso, reconhecer que o outro pode visitar-me não equivale a dizer que o outro tem sempre razão. Significa reconhecer que a minha própria compreensão permanece aberta a ser aprofundada, corrigida, alargada ou até confirmada por aquilo que acontece no encontro.
É por isso que a escuta mútua pode tornar-se o lugar exímio da própria evangelização. Não porque validemos acriticamente todas as posições, mas porque acreditamos que Deus continua a surpreender-nos através de mediações humanas, culturais, artísticas e espirituais que rasgam e alargam o nosso estreito horizonte de compreensão. A evangelização acontece, então, não apenas quando transmitimos uma verdade que o outro ainda não conhecia, mas também quando criamos condições para que uma verdade possa encontrar uma vida concreta e transformá-la. E talvez seja esta uma das razões pelas quais a Igreja precisa tanto de aprender a escutar: porque uma palavra que não encontra espaço para nos visitar dificilmente encontrará espaço para nos converter.
Por conseguinte, talvez não nos devamos preocupar excessivamente se a palavra "sinodalidade" cair gradualmente em desuso ou deixar de figurar nos cabeçalhos dos documentos pastorais. As palavras, por vezes, têm as suas estações. Daqui a uns anos, poderemos estar a utilizar uma gramática pastoral inteiramente diferente. Mas continuaremos, a necessitar de histórias narradas por pessoas (em poemas, teatro, música ou de viva voz), de amizades autênticas com pessoas que não pensam como eu, de comunidades acolhedoras e de liturgias vivas que realizem em nós aquilo que nenhuma argumentação nocional ou decreto administrativo conseguirá jamais fazer sozinho: visitar o coração humano.
Continuaremos a precisar de lugares onde uma pessoa possa falar sem que a sua palavra seja imediatamente convertida em dado, posição ou voto; onde uma história possa permanecer tempo suficiente entre nós para alterar a pergunta que tínhamos trazido; onde o discernimento não seja apenas o momento de escolher entre respostas previamente disponíveis, mas também a disponibilidade para reconhecer que talvez a realidade nos esteja a fazer uma pergunta nova.
Porque talvez seja precisamente assim, de mansinho e por visitação, que Deus nos evangeliza: não ensinando-nos meras ideias novas, mas tornando-nos capazes de habitar o mundo com um coração novo, visitado — e, por isso, transformado — pelo coração de Cristo (Cf. Gaudium et Spes 22). Eis o cerne daquilo que a sinodalidade procura plantar nas Igrejas e na humanidade, com a graça de Deus. E, para lá chegar, é preciso o despojamento que vem da alegria de se saber conduzido por alguém bom, em direção a algo sempre maior. Uma meta definitiva, que nos deixa, no entanto, com a mais desconcertante das perguntas: será a sinodalidade um evento de humanização e que, portanto, nos poderá divinizar?
Notas
[1] Este "arrefecimento" encontra-se amplamente documentado. Dario Vitali, coordenador dos peritos do Sínodo, admite que «vislumbra-se uma espécie de cansaço, se não de intolerância, em relação ao processo sinodal» (Vita Pastorale / IHU Unisinos, 2024). Na mesma linha, Marinella Perroni (IHU Unisinos, 2023) alerta para o esvaziamento do discurso sem reformas e John O’Malley (America Magazine, 2022) para a sua conversão em jargão. A literatura regista fenômenos de ‘synodality fatigue’ por excesso de linguagem corporativa (America Magazine, por G. J. Laskey e D. Perry), de ‘consultation fatigue’ por auscultações exaustivas (The Tablet; La Croix International) e a saturação semântica própria de uma buzzword desgastada pelo uso omnipresente (Catholic World Report; National Catholic Reporter).
[2] Cf. ÉMILE, Brother. Faithful to the Future: Listening to Yves Congar. Transl. by Mark K. Taylor. Collegeville, MN: Liturgical Press, 2013
[3] Cf. RAHNER, Karl. Antropología teológica. In: RAHNER, Karl et al. (dir.). Sacramentum Mundi: enciclopedia teológica. Barcelona: Herder, 1972.
[4] Cf. GESCHÉ, Adolphe. Dios como prueba del hombre. In: GESCHÉ, Adolphe. Dios para pensar. II: El hombre. Salamanca: Ediciones Sígueme, 1997.
[5] Cf. GADAMER, Hans-Georg. Verdad y método: fundamentos de una hermenéutica filosófica. Traducción de Ana Agud Aparicio y Rafael de Agapito. 5. ed. Salamanca: Ediciones Sígueme, 1993, p. 370-377.
[6] Cf. RICOEUR, Paul. Tiempo y narración. I: Configuración del tiempo en el relato histórico. Madrid: Cristiandad, 1987; e RICOEUR, Paul. Sí mismo como otro. Madrid: Siglo XXI, 1996.
[7] Cf. INÁCIO DE LOIOLA, Santo. Exercícios Espirituais. 2. ed. rev. Braga: Editorial AO / Rede Mundial de Oração do Papa, 2017.
[8] Cf. GESCHÉ, Adolphe. Dios como prueba del hombre. In: GESCHÉ, Adolphe. Dios para pensar. II: El hombre. Salamanca: Sígueme, 1997; RAHNER, Karl. Antropología teológica. In: RAHNER, Karl et al. (dir.). Sacramentum Mundi: enciclopedia teológica. Barcelona: Herder, 1972, v. 1; RAHNER, Karl. Oyente de la palabra. Barcelona: Herder, 1967; CONGAR, Yves. El Espíritu Santo. Barcelona: Herder, 1983.
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