Quem defende quem, se as armas são a única chance da humanidade?

Foto: U.S Military/ Flickr

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06 Agosto 2026

"O que têm em comum confrontos com pedras e paus, se é que realmente ocorreram, entre clãs do Paleolítico, onde os corpos se enfrentavam e os combatentes podiam se olhar nos olhos, com conflitos travados com bombas, canhões, mísseis, aeronaves e drones que custam bilhões de dólares? Sem mencionar o fato de que, hoje, qualquer guerra — por mais "limitada" que seja no momento de seu início — desenrola-se sempre no limiar do abismo nuclear que poder levar à extinção da vida no planeta."

O artigo é de Guido Viale, sociólogo e escritor italiano, publicado por il manifesto. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

“A guerra é uma condição permanente da humanidade? Uma verdade incômoda, mas infelizmente inegável." Com essa pergunta — acompanhada de uma resposta pronta (La Stampa, 22 de julho), depois "esclarecida", ou seja, reiterada, em sucessivas respostas às críticas recebidas, o teólogo Vito Mancuso praticamente se candidatou, em nome de todos os belicistas da Terra, para o papel de "antipapa", o alvo de sua diatribe em favor de uma "paz armada" é a fórmula da "paz desarmada e desarmante", com que Leão XIV quis caracterizar tanto sua primeira encíclica quanto seu primeiro ano de pontificado.

Essa afirmação categórica é, contudo, falsa: a “humanidade” vivenciou a guerra de forma esporádica, ora aqui, ora ali, às vezes por longos períodos, outras por breves investidas, sempre alternados com períodos de paz também de duração variável. No entanto, para alguns povos e civilizações ou culturas inteiras, a guerra foi uma exceção.

Em segundo lugar, o termo "guerra" é enganoso: o que têm em comum confrontos com pedras e paus, se é que realmente ocorreram, entre clãs do Paleolítico, onde os corpos se enfrentavam e os combatentes podiam se olhar nos olhos, com conflitos travados com bombas, canhões, mísseis, aeronaves e drones que custam bilhões de dólares? Sem mencionar o fato de que, hoje, qualquer guerra — por mais "limitada" que seja no momento de seu início — desenrola-se sempre no limiar do abismo nuclear que poder levar à extinção da vida no planeta.

Até mesmo a agressividade, traço indispensável das guerras travadas em confrontos diretos ou no corpo a corpo entre pessoas (homens) empunhando armas individuais, cedeu lugar à fria determinação de quem - verdadeiro protagonista das guerras modernas – desempenha sua missão de morte sentado diante de um console.

Como as virtudes guerreiras mudaram ao longo dos anos e séculos! É um despropósito aplicar a elas as categorias do repertório bélico tradicional, como força (física), coragem, ousadia, heroísmo, sacrifício, valor, honra e glória. No entanto, junto a essa transformação antropológica do guerreiro, ocorre também uma mudança conceitual dos meios com os quais se realiza a guerra.

Também as armas já não são mais armas, mas "sistemas de armas": terminais de uma máquina controlada à distância que não poderiam funcionar sem conexões em tempo real, recursos de reconhecimento, satélites e, cada vez mais, inteligência artificial. O conceito de defesa — se é que se trata realmente de defesa — muda de campo: não é mais defesa dos "homens no front" nem da "população civil" (agora transformada em alvo para "desmoralizar" o inimigo), mas a máquina que atribui a cada um papel e tarefas: um papel passivo de alvo e as tarefas parceladas de uma cadeia de produção de morte, da qual é cada vez mais difícil compreender o conjunto e as finalidades.

É essa a cadeia que deve ser defendida, salvaguardada e fortalecida: a resistência não é mais aquela de um povo em armas — não pode sê-lo —, mas aquela de uma máquina de guerra que engloba tudo e é muito complicada.

É por isso que o entusiasmo inicial, que havia animado a primeira resposta bem-sucedida à invasão russa da Ucrânia, foi se arrefecendo à medida que a guerra se prolongava sem objetivos claros ("a vitória" — mas qual?) e sem ser acompanhada por uma iniciativa diplomática séria para interrompê-la. Consequentemente, na Ucrânia, além das manifestações contra o governo, multiplicam-se refratários, desertores, fugitivos e expatriados que não querem nem morrer nem combater, mas que são caçados para o recrutamento pelas autoridades que comandam o jogo. O mesmo provavelmente acontece — exceto talvez as manifestações, sobre as quais pouco sabemos — do outro lado do front: aquele do agressor.

Fica evidente que Mancuso não tem uma ideia bem clara sobre o que quer debater, por sua resposta a uma crítica feita por Roberta de Monticelli, ambos os textos publicados pelo il manifesto: "Eu, de fato, forneceria armas aos palestinos, tanto para se defenderem no imediato quanto para alcançar o verdadeiro objetivo da política, que é a paz."

Mas do que estamos falando? De um lado, há um Estado e um exército, um dos mais aguerridos do mundo; do outro, um povo oprimido, massacrado e sem governo: jamais pôde ter um governo. Ou será que Mancuso está propondo armar o Hamas para colocá-lo em pé de igualdade com as Idf? "A única verdadeira paz que podemos e devemos concretamente buscar é uma paz armada", conclui Mancuso.

Um oximoro, obviamente. Para defender-se e buscar a paz com as armas, é necessária uma superioridade em relação a qualquer potencial inimigo. No entanto, esse potencial inimigo (real ou imaginário), para se defender e buscar a paz, também buscará sua própria superioridade armada. Dessa forma, a dissuasão alimenta uma corrida armamentista sem fim, colocando cada vez mais o controle de tudo nas mãos daqueles que fabricam, governam, utilizam ou pretendem utilizar essas armas, transformando as respectivas populações, ou seja, nós, em bucha de canhão.

É precisamente isso que estamos testemunhando,especialmente desde que a guerra na Ucrânia e os conflitos subsequentes anularam os meios e a justificativa para a única guerra verdadeira a ser travada juntos: a guerra contra a catástrofe climática e ambiental — e contra aqueles que a promovem, lucram com ela ou a ignoram — que já está devastando muitos territórios e vidas, humanas e não, quanto um conflito armado. Mas que, para ser travada, exige uma mudança radical, a começar por aquilo que se deve entender por "defesa".

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