18 Março 2026
Os gastos nucleares dos países que possuem a bomba atômica estão batendo recordes em meio a uma tendência global de rearme, e pela primeira vez em mais de 50 anos não há limite legalmente vinculativo para as duas maiores potências nucleares do mundo.
A informação é de Alberto Mesas, publicada por El Salto, 18-03-2026.
Durante décadas, a ideia de uma catástrofe atômica foi relegada à memória nebulosa e em preto e branco da Guerra Fria. No entanto, nos últimos anos, a ameaça de um conflito nuclear tem crescido silenciosamente, impulsionada por Donald Trump e sua política externa belicosa e intervencionista. O contexto global também contribui para isso. Nos últimos cinco anos, a negação das mudanças climáticas proliferou, com o consequente ressurgimento dos combustíveis fósseis — principalmente o petróleo — e a energia nuclear está recebendo um novo ímpeto.
O resultado é que, em 2026, mais países estarão produzindo e armazenando bombas atômicas do que havia quando o Muro de Berlim caiu, e nunca antes tanto dinheiro foi investido na produção e no desenvolvimento de armas nucleares. Essa nova primavera nuclear está florescendo em um planeta à beira do colapso climático e em meio a conflitos armados abertos, como os entre os EUA e Israel no Irã, ou a guerra na Ucrânia.
Sem limites pela primeira vez desde a década de 1970
Há apenas um mês, expirou o Tratado Novo START, o último grande tratado bilateral que limitava os arsenais nucleares estratégicos dos Estados Unidos e da Rússia, as duas maiores potências nucleares do mundo. O término deste acordo significa que, pela primeira vez em mais de 50 anos, não existem limites juridicamente vinculativos para os arsenais nucleares dessas duas grandes potências. O fim do Novo START ocorre em um contexto de guerra aberta entre os EUA e Israel contra o Irã, que nos últimos anos também vem avançando em suas capacidades de enriquecimento de urânio e promovendo uma doutrina de "dissuasão pela sobrevivência".
O Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo observa que praticamente todos os países com armas nucleares estão desenvolvendo novos sistemas ou modernizando os já existentes.
Em 2021, quando Moscou e Washington prorrogaram o Tratado Novo START, nenhum acordo foi alcançado sobre sua substituição ou expansão, apesar da insistência de organizações como a ONU na necessidade de negociar uma estrutura subsequente que incorporasse, entre outras coisas, novas categorias de armas estratégicas e atores como a China. A guerra na Ucrânia, que tensionou severamente as relações entre a Rússia e o Ocidente, e a crescente rivalidade estratégica entre os Estados Unidos e a China, agravaram o impasse, relegando o controle de armas a uma posição secundária em comparação com outras agendas de segurança e defesa.
A deterioração dos acordos de controle de armas nucleares se aprofundou desde 2019, quando os EUA também se retiraram do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF) após acusarem a Rússia de violá-lo sistematicamente. Agora, o único grande acordo multilateral ainda em vigor que afeta ambos os países é o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP), que já revelou profundas divergências quanto ao ritmo do desarmamento e às obrigações das potências nucleares.
Tica Font, presidente do Centro Delàs de Estudos para a Paz e especialista em gastos nucleares e políticas globais de rearme na Aliança para o Desarmamento Nuclear, aponta para outra consequência direta do fim do tratado: “Uma vez rompido o tratado, as relações que técnicos, engenheiros e cientistas de ambos os lados mantinham há anos também se rompem. Havia uma linha direta de comunicação, que podia evitar erros e mal-entendidos, permitindo que se alertassem mutuamente. Existia um canal de diálogo permanentemente aberto que deixou de existir.”
O rearme e os gastos nucleares estão em ascensão
Esse enfraquecimento do sistema de controle baseado em tratados coincide com a entrada em uma nova fase da corrida armamentista nuclear, marcada por um aumento contínuo nos gastos com tais armas e pela modernização dos arsenais das potências que possuem a bomba atômica. De acordo com o último relatório da ICAN (Campanha Internacional para Abolir as Armas Nucleares), em 2024, as nove potências nucleares — Estados Unidos, Rússia, China, França, Reino Unido, Índia, Paquistão, Israel e Coreia do Norte — ultrapassaram US$ 100 bilhões em gastos com armas e infraestrutura nucleares, um aumento de 11% em relação ao ano anterior.
Em conjunto, esses nove países aumentaram seus investimentos por vários anos consecutivos, refletindo uma crescente dependência da dissuasão nuclear em um contexto internacional cada vez mais tenso. Uma parcela significativa desses gastos é direcionada à modernização dos arsenais existentes. O Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo (SIPRI) observa que praticamente todos os Estados com armas nucleares estão desenvolvendo novos sistemas ou modernizando os existentes, desde mísseis balísticos até plataformas de lançamento submarinas e aéreas. No ano passado, a mesma instituição contabilizou 12.241 ogivas nucleares em todo o mundo, das quais 9.600 fazem parte de arsenais militares ativos. Os EUA e a Rússia detêm aproximadamente 90% delas.
Os maiores beneficiários desse aumento no orçamento militar e nos gastos nucleares são as empresas privadas de defesa. O relatório do ICAN estima que pelo menos US$ 42,5 bilhões dos gastos nucleares de 2024 foram destinados a contratos com empresas privadas encarregadas de projetar, produzir ou manter sistemas nucleares. De acordo com o SIPRI, a combinação dessas inovações tecnológicas e a deterioração dos tratados de controle de armas está alimentando uma “nova corrida armamentista nuclear” em escala global.
Valentina Carvajal (Greenpeace) acredita que o impacto climático de um conflito nuclear também não está suficientemente presente e valorizado pelo público ou no debate político.
Tanto a ICAN quanto o Centro para o Controle de Armas e a Não Proliferação insistem que esse aumento não se explica apenas por crises cíclicas específicas, mas por programas de modernização de longo prazo aprovados pelos governos, cujos custos têm uma projeção de décadas.
O mesmo relatório mostra um aumento muito significativo nos gastos nucleares na Ásia, com a China liderando o caminho. Em 2024, os gastos chineses ultrapassaram US$ 12,5 bilhões, um aumento interpretado como parte da estratégia da China para se aproximar do nível de dissuasão dos Estados Unidos. A Índia e o Paquistão, embora com valores absolutos menores, também aumentaram seus orçamentos nucleares de forma constante, em um contexto de conflito latente e episódios recorrentes de tensão militar na Caxemira e ao longo da fronteira. Nas últimas semanas, a guerra entre os EUA e Israel contra o Irã trouxe a dimensão nuclear do conflito para o primeiro plano.
Font acredita que estamos em uma nova corrida armamentista nuclear comparável à da Guerra Fria. "A lição que muitos países estão aprendendo é: 'Posso ser o país que eu for, mas se eu tiver armas nucleares, eles não podem me atingir'", diz ele, citando a Rússia como exemplo. O potencial militar da Rússia foi seriamente questionado pelo impasse na Ucrânia, mas o país continua sendo considerado uma potência militar pelos Estados Unidos.
A especialista acrescenta que atualmente existem entre 20 e 25 países que desejam obter a bomba atômica por meio de investimentos em infraestrutura para sua produção. "A maioria desses países está localizada no Sul da Ásia e no Oriente Médio, como o Japão e a Arábia Saudita." Isso, em sua opinião, pode significar "que muitos desses países consideram que os EUA não são mais um aliado tão confiável".
Devastação climática
O clima é mais uma vítima do uso e dos testes de armas nucleares que, além de seu poder destrutivo, têm efeitos devastadores sobre o meio ambiente. O impacto não se limita à radioatividade. Desde a década de 1980, diversos modelos de climatologia nuclear têm demonstrado que os testes desse tipo de armamento liberam milhares de toneladas de fumaça e cinzas na estratosfera, bloqueando a luz solar e perturbando os ecossistemas.
Esses cenários se desenrolam em um contexto de um planeta que já está aquecendo mais de 1°C em comparação com os níveis pré-industriais, com sistemas agrícolas sob grave estresse hídrico devido à seca e centenas de milhões de pessoas vivendo em condições de alta vulnerabilidade climática. No entanto, o risco nuclear raramente é incluído na agenda como uma variável a ser considerada. O debate se concentra nas emissões de gases de efeito estufa ou na transição energética, mas quase não menciona os riscos ambientais que um conflito nuclear poderia causar.
Valentina Carvajal, chefe da campanha de paz e desarmamento do Greenpeace, acredita que o impacto climático de um conflito nuclear também é insuficientemente considerado e valorizado pelo público e no debate político, já que este tende a se concentrar nas dimensões militares ou geopolíticas. “É importante lembrar que as armas nucleares já geram impactos ambientais mesmo quando não estão em uso. Todo o seu ciclo de vida, da mineração de urânio à produção, testes, armazenamento e gestão de resíduos nucleares, envolve contaminação radioativa e danos ambientais que podem durar séculos.”
Carvajal enfatiza que “o risco de uma guerra nuclear é diferente de outros desafios globais e tem uma característica única: não há possibilidade de recuperação posterior. Não existe um sistema de saúde capaz de responder, nenhuma infraestrutura que possa ser reconstruída e nenhuma estabilidade climática que possa ser restaurada”. O especialista afirma que “temos a capacidade de destruir grande parte da vida no planeta há quase oito décadas” e que hoje o risco “está aumentando novamente em um contexto de crescente tensão geopolítica e enfraquecimento dos acordos de controle de armas”.
O Conselho de Segurança Nuclear da Espanha destaca que os testes nucleares realizados nos últimos 60 anos já causaram contaminação em larga escala em vastas áreas do planeta. As explosões nucleares também perturbam processos climáticos básicos. Em dias com níveis mais elevados de radioatividade provenientes de testes nucleares, as nuvens ficam mais densas e a precipitação aumenta, alterando os padrões de formação de nuvens e a distribuição da chuva em áreas a milhares de quilômetros dos locais de teste.
Segundo Carvajal, do Greenpeace, os testes atmosféricos realizados durante esse período registraram que as explosões nucleares “liberaram energia equivalente a 29.000 bombas do tamanho da de Hiroshima. A precipitação radioativa gerada por esses testes se dispersou por vastas distâncias e permanece detectável globalmente, contaminando o ar, a água e o solo por gerações”. No Pacífico e na Ásia Central, essa contaminação chegou a deslocar populações inteiras, e o acesso e o consumo de alimentos permanecem restritos até hoje. Além disso, os casos de câncer e defeitos congênitos aumentaram exponencialmente nessas regiões.
Uma abordagem de "fora da guerra"
O clima social também é muito diferente daquele da Guerra Fria. Naquela época, a ameaça nuclear era uma presença constante no cotidiano e no imaginário coletivo. Numerosas e massivas mobilizações antinucleares eclodiram, protestos em massa contra testes atômicos eram comuns e havia uma profunda consciência do risco de destruição total. Hoje, apesar da escalada nuclear na nova corrida armamentista, a ameaça atômica ocupa um lugar menos proeminente no debate público global, e a atenção se voltou para outras crises mais imediatas, como as mudanças climáticas e a desigualdade.
Foi nesse contexto que nasceu o Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares (TPNW). Promovido pela ONU e em vigor desde 2021, ele proíbe o desenvolvimento, a posse, a transferência e o uso de armas nucleares, e coloca o direito humanitário no centro do desarmamento. No entanto, nenhuma das nove potências nucleares ou qualquer membro da OTAN — incluindo a Espanha — está entre os 95 países signatários.
O TPNW reflete a postura do ativismo antinuclear que surgiu durante a Guerra Fria e destaca o declínio na percepção pública do perigo nuclear, apesar do risco crescente. Busca também revitalizar a agenda do desarmamento, concentrando-se nas consequências humanitárias, de saúde e ambientais.
Diferentemente do TNP, ele não legitima a posse de armas atômicas por um pequeno grupo de países, mas as coloca na mesma categoria de proibição absoluta que as armas químicas e biológicas, com ênfase explícita nas vítimas e nos danos a longo prazo.
A chefe da campanha pela paz e desarmamento do Greenpeace explica que "num momento em que o risco nuclear volta a aumentar, o papel da sociedade civil é mais necessário do que nunca", razão pela qual o objetivo da organização "é que a Espanha adira ao TPNW e que os cidadãos estejam cientes dos riscos reais representados por este armamento".
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