"Doenças, fome, tendas e escolas em farrapos: aqui se continua a morrer". Artigo de Gabriel Romaneli

Fome em Gaza. (Foto: UNRWA)

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30 Julho 2026

Este texto do pároco da Igreja da Sagrada Família de Gaza é uma prévia da edição de agosto-setembro da revista Vita Pastorale. Em um vídeo, Gabriel Romanelli revelou ter recebido uma mensagem de encorajamento do Papa. Leão lembrou que não passa um momento sem que "pense e reze por aqueles que estão sofrendo. E - acrescentou ele - o Papa confiou essa exortação especialmente a nós, sacerdotes, e a todos os religiosos: ‘Obrigado por permanecerem ao lado deles. Que Deus os ajude e dê forças. Bênçãos, um abraço fraterno’". Romanelli agradeceu ao Papa pelas palavras proferidas durante o Angelus: "Ele nunca deixa de rezar por nós".

O artigo é de Gabriel Romaneli, pároco de Gaza, publicado por Avvenire, 28-07-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Qual é a situação em Gaza? Desastrosa. Infelizmente, a situação não apenas não melhorou, como na verdade piorou. Explico. Desde o início da trégua em outubro de 2025, a situação geral melhorou no sentido de que não há mais bombardeios generalizados, isto é, ataques constantes em todos os lugares. No entanto, dizer que a situação melhorou não significa que ela esteja boa. Longe disso. Gaza assemelha-se a uma paisagem pós-tsunami, abandonada à própria sorte. As pessoas continuam a morrer. Os bombardeios persistem esporadicamente, inclusive no centro da cidade lotada de pessoas, de civis. Há doenças graves e incuráveis e quase nenhuma possibilidade de evacuação para os milhares de feridos e doentes, exceto para algumas poucas centenas de pessoas. Milhares aguardam tratamento no exterior. A maioria dos hospitais, quando têm condições de funcionar, opera com o mínimo indispensável.

Doenças digestivas, neurológicas, oculares e auditivas, bem como doenças de pele, se disseminaram. Alimentos? Sim, há mais disponibilidade no mercado. E, ao contrário do que ocorreu durante a maior parte do período da guerra, é possível encontrar carnes, laticínios, verduras e frutas. Mas quem tem condições de comprá-los? A maioria das pessoas não tem dinheiro e, aquelas que têm, muitas vezes não conseguem utilizá-lo, tanto porque os recursos são insuficientes, quanto porque suas contas foram bloqueadas devido à inadimplência de empréstimos ou por diversos outros motivos. A maioria da população, cerca de 2,3 milhões de pessoas, precisa desesperadamente de ajuda humanitária. E essa ajuda chega apenas esporadicamente. Chega, sim, mas é insuficiente. A maioria das pessoas perdeu seus empregos.

A crise hídrica, que afeta tanto a higiene quanto o acesso à água potável, é real. Muito real. A maior parte da população vive em tendas. Tendas? A palavra soa melhor do que a realidade! Centenas de milhares de famílias vivem ali. Famílias que antes tinham suas próprias casas, suas atividades e suas hortas. Vivem ali, no meio do nada, pisando na areia e no esgoto, cercadas por ratos. É assim que vive a maior parte da população de Gaza, se viram como podem. As escolas? As que ainda estão de pé estão lotadas de pessoas deslocadas que moram nelas, fazendo o melhor que podem. Os pontos educacionais, ou seja, barracas ou tendas ou, nos melhores casos, uma estrutura sólida, oferecem aulas para alguns milhares de alunos.

No entanto, a maioria das crianças não tem sequer esse alento. Das três escolas que tínhamos antes da guerra, conseguimos arrumar uma. Ela funciona pela metade, mas é melhor do que nada. Antes, atendia 2.250 alunos; agora, apenas 462. A necessidade, porém, é imensa. Madeira, vidro, cola, cimento, um pouco de alumínio, carteiras escolares, livros e cadernos, painéis solares, lâmpadas: não é permitido que nada disso entre em Gaza. Além disso, o sistema elétrico de Gaza está praticamente inoperante desde o início da guerra, há mais de mil dias.

E as pessoas? Alguém se importa com as pessoas de Gaza? Pareceria que não. Mas isso não é verdade. Há muitas pessoas em todo o mundo, tanto dentro quanto fora da Igreja, que desejam a paz, que desejam a justiça, e que trabalham para garantir que cada ser humano possa desfrutar de seus direitos inalienáveis. A paz é possível; a justiça é absolutamente necessária, assim como a reconciliação e o reconhecimento da dignidade de cada pessoa. Não é verdade que o que está acontecendo aqui é o resultado de uma guerra sem fim e sem possibilidade de resolução. Não é verdade. E, embora o horizonte humano ainda pareça muito sombrio, um vislumbre de paz entre a Palestina e Israel é possível.

O que estamos fazendo? Estamos tentando continuar a desempenhar a nossa missão. Em primeiro lugar, a nossa missão é preservar e acompanhar o nosso bom Jesus, presente no Santíssimo Sacramento, sobre o altar da paz em Gaza. Também nos empenhamos em preservar a vida espiritual de cada cristão, para que possamos continuar sendo luz e sal nesta parte da Terra Santa que é Gaza da Palestina. Além disso, esforçamo-nos por testemunhar a nossa fé com fervorosa caridade, procurando ajudar, de todas as formas possíveis, a população civil que continua a sofrer os horrores dessa guerra.

Podem nos ajudar? Sim, certamente. Rezando com fervor e incentivando outros a rezar pela paz. Divulgando a causa de uma paz justa e falando sobre a nossa situação com verdade, caridade e prudência. Finalmente, também através de ajuda financeira por meio do Patriarcado Latino de Jerusalém. Do Calvário de Gaza, a paz esteja convosco! E que o céu derrame seu perdão sobre todos nós e sobre toda a humanidade.

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