Em visita à França de 8 a 14 de junho de 2026, o Patriarca Latino de Jerusalém reiterou seu credo: reconstruir pontes entre as comunidades israelense e palestina e nunca deixar de ter esperança na Terra Santa ensanguentada.
A entrevista é de Pierre Jova, publicada por La Vie, 11-06-2026. A tradução é do Cepat.
A cana se curva, mas não quebra. Essa é a impressão que nos atinge a cada encontro com o cardeal Pierbattista Pizzaballa. Nascido em 1965, este franciscano italiano é o Patriarca Latino de Jerusalém desde 2020, responsável pela Igreja Católica Romana em Israel, nos Territórios Palestinos, bem como na Jordânia e no Chipre. Ex-custódio (guardião dos Lugares Santos), fala hebraico e conhece bem a sociedade israelense.
Chegando à França em 8 de junho de 2026, o cardeal visitou Paris e estará em Paray-le-Monial (Saône-et-Loire) de 11 a 14 de junho, um santuário que ainda não visitou, para pregar sobre a conexão entre Jerusalém e o Sagrado Coração de Jesus.
Acompanhado na capital pela Œuvre d’Orient (Obra do Oriente), o patriarca foi recebido no Palácio do Eliseu e no Senado, mas não na Assembleia Nacional: sua presidente, Yaël Braun-Pivet, teria vetado a visita, privando os parlamentares de informações valiosas sobre o conflito entre Israel e a Palestina.
Desde 7 de outubro de 2023, o ministério de Pierbattista Pizzaballa mergulhou ainda mais na tragédia. Condenando sem reservas as ações do Hamas, incluindo a ofensiva militar em Gaza e a expansão dos assentamentos, Pierbattista Pizzaballa caminha em uma corda bamba, atraindo críticas de ambos os lados. Embora tenha aludido discretamente a essas dificuldades em uma entrevista exclusiva à La Vie, realizada nos escritórios da Œuvre d’Orient em Paris, Pierbattista Pizzaballa permanece firme. Este homem profundamente espiritual, imerso em textos bíblicos, enraizado na oração e avesso às preocupações mundanas, está convencido de que há política demais nesta guerra… e religião de menos. Um diagnóstico ousado que certamente perturbará as mentes ocidentais seculares.
Foi nesse estado de espírito que ele publicou uma carta pastoral, intitulada Proposta para viver a vocação da Igreja na Terra Santa, em abril de 2026. Este importante documento não se esquiva de nenhum problema, nenhum debate e oferece perspectivas cristãs baseadas na realidade das comunidades sob seus cuidados.
A entrevista que nos concedeu reflete a visão de um prelado que, em 21 de julho de 2025, estava em Gaza pela manhã, com refugiados cristãos na Paróquia da Sagrada Família, e em Ein Karem à tarde, para celebrar o funeral da Irmã Regine Canetti, uma judia convertida ao catolicismo, diante de uma assembleia de recrutas israelenses uniformizados. Um homem não dilacerado, mas aos pés da Cruz, sofrendo e intercedendo por todos.
O senhor recebeu a Legião de Honra do Presidente da República, Emmanuel Macron. O que essa distinção representa para o senhor?
Creio que essa distinção não é apenas para mim pessoalmente, mas também para o que represento hoje, ou seja, a Igreja na Terra Santa e, em particular, a Igreja Católica. É um reconhecimento do serviço, da vida e do testemunho que a Igreja sempre ofereceu, especialmente por meio de suas escolas, hospitais e todas as suas obras. Trata-se de uma presença voltada para o exterior.
De fato, essa é uma das características da Igreja Católica na Terra Santa: trabalhar a serviço de todos. Essa distinção também reconhece o trabalho de muitos monges e freiras, muitos dos quais são franceses. Numerosas instituições católicas são de origem francesa. É, portanto, também uma forma de reconhecer seu trabalho, seu testemunho e o legado que deixaram.
A França, como Estado, ainda tem um papel a desempenhar no auxílio aos cristãos no Oriente Médio e na Terra Santa?
Não creio que devamos considerar os cristãos como um grupo à parte. Devemos ter cuidado: não se trata de apoiar os cristãos em detrimento de outros. É claro que a situação deles é importante. A França tem desempenhado um papel histórico no Oriente Médio há vários séculos. É essencial que utilize esse papel para abordar as realidades políticas, sociais e culturais do Oriente Médio, a fim de ajudar a região a avançar o máximo possível. Isso inclui os cristãos.
Mas também é importante lembrar a todos que os cristãos são parte integrante da vida no Oriente Médio. Portanto, devem ser discutidos em um contexto mais amplo, como cidadãos plenos de seus países.
Enquanto os conflitos continuam no Oriente Médio, no Líbano, no Irã e em outros lugares, o senhor escreveu em sua carta pastoral de abril de 2026 que “a guerra se tornou objeto de adoração idólatra: (…) um fim em si mesmo”. Como os cristãos podem promover a paz?
Se afirmarmos que podemos resolver todos os problemas políticos, inevitavelmente nos decepcionaremos! Devemos permanecer fiéis a quem somos. Nossa vocação é ajudar, na medida do possível, a construir uma cultura de paz em nossas instituições, especialmente em nossas escolas, onde a Igreja desempenha um papel importante no Oriente Médio. Trata-se também de criar redes entre todas as associações, grupos e movimentos que continuam acreditando que outra forma de convivência é possível. É assim que trabalhamos pela paz: recusando-nos a deixar a narrativa e o campo apenas para os extremistas.
E por falar em extremismo, aqueles familiarizados com Jerusalém sabem dos ataques e assédios contra o Bairro Armênio e a Abadia da Dormição por parte de judeus radicais. Em maio de 2026, uma freira francesa, Irmã Marie-Reine, foi atacada. Os cristãos ainda têm um lugar na cidade?
Mais do que nunca! Mais uma vez, não podemos ceder a narrativa aos extremistas. Não se trata apenas de linguagem, mas também de presença no dia a dia. O que está acontecendo hoje é preocupante, e temo que continue.
É precisamente por isso que devemos reafirmar nossa presença, permanecendo fiéis à nossa identidade e ao nosso modo de ser. Devemos manter nosso estilo. Não devemos adotar a mesma linguagem daqueles que nos atacam. Devemos ser firmes quando necessário, claros, determinados e nunca abandonar o diálogo.
O que você quer dizer com “manter nosso estilo”?
O estilo cristão! A não violência. E a não violência não se resume a atos físicos. Ela também diz respeito à nossa linguagem, ao que dizemos em nossas famílias, em nossas escolas e em nossas instituições. Trata-se de manter essa atitude de abertura ao encontro, de acolhimento ao outro, de recusar-se a ver o outro como uma ameaça. Nem sempre é fácil, porque o medo é muito real.
É importante lembrar que a violência verbal sempre precede a violência física. Em Israel, infelizmente, essa ideia se dissemina nos mais altos escalões do governo. Ela fomenta a desumanização do “outro”, um processo que começou muito antes de 7 de outubro.
Em janeiro de 2026, uma declaração dos patriarcas e líderes das Igrejas em Jerusalém descreveu o sionismo cristão como uma “ideologia nociva” (harmful ideology), prejudicial a todos, e especialmente aos cristãos. Por que é importante denunciar essa ideologia?
Para ser honesto, não sei se essa declaração foi formulada da maneira ideal. Independentemente disso, a questão central permanece. Alguns movimentos cristãos, especialmente os evangélicos, estão desenvolvendo uma interpretação da Bíblia que atribui significado político direto a determinados eventos contemporâneos. Em nossa opinião, essa abordagem é problemática. Esses grupos são frequentemente usados ou manipulados.
O que queríamos enfatizar é a necessidade de distinguir a dinâmica política da interpretação das Escrituras e da vida das Igrejas. Alguns consideram o atual Estado de Israel como o cumprimento direto das promessas bíblicas. Para nós, essa é uma interpretação complexa e difícil de aceitar como está. O assunto é muito amplo e não pode ser resumido em poucas linhas. Mas tem o mérito de suscitar um debate importante. Lembremos que existem várias formas de sionismo.
A aldeia palestina cristã de Taybeh, na Cisjordânia, é alvo de ataques quase diários por parte de colonos radicais. Por que o governo israelense não está agindo?
Eu me faço exatamente a mesma pergunta. Gostaria de ver o governo tomar as medidas necessárias para restaurar o Estado de Direito na Cisjordânia. Infelizmente, isso não está acontecendo. Essa situação está causando muita frustração e sofrimento entre os cristãos. Mas o que está acontecendo em Taybeh também está acontecendo em muitos outros lugares. Essa aldeia é um sintoma da impunidade que assola a Palestina. Essa impunidade e essa violência estão traumatizando profundamente os palestinos.
Em sua carta pastoral, o senhor menciona a chamada “solução de dois Estados”. O senhor escreve que “essas palavras, que alimentaram nosso discurso por anos, agora parecem desgastadas e sem sentido”, acrescentando que “não há alternativa. Esta terra – tão disputada e tão amada – é o lar de todos”. Sem pedir que o senhor tome uma posição política, o senhor seria a favor de um Estado único, compartilhado e igualitário para todos?
Apoio qualquer solução que ambos os povos aceitem. Ninguém pode impor uma solução aos israelenses e palestinos de fora. O papel da comunidade internacional é ajudá-los a encontrar uma saída, seja ela a de dois Estados, a de um Estado ou qualquer outra fórmula. Se escrevi que esses conceitos parecem ultrapassados, é porque a realidade no terreno hoje conta uma história muito diferente.
O conflito entre Israel e a Palestina não é novo, mas o dia 7 de outubro causou uma ruptura irreversível na vida de ambos os povos. Para os judeus israelenses, esses eventos são considerados um mini-Holocausto. O israelense médio está convencido de que não se pode mais confiar nos palestinos. Por outro lado, a destruição de Gaza evoca o mesmo sentimento. O ódio e a desconfiança estão em níveis sem precedentes. E estamos testemunhando este novo fenômeno: os laços recíprocos entre israelenses e palestinos, dentro de ambas as sociedades, estão se deteriorando e se desfazendo.
Não podemos, portanto, retornar ao status quo ante. Antes de discutir soluções institucionais, a confiança deve primeiro ser restabelecida.
Isso ainda é possível?
Parece impossível, mas é fundamental. Sem confiança mútua, como poderão chegar a uma solução?
Na sua carta pastoral, o senhor também escreve: “Ignorar a dimensão ‘vertical’ da nossa terra, esta sensibilidade religiosa e espiritual das comunidades que a compõem – judaica, muçulmana e cristã –, é a razão fundamental para o fracasso dos acordos de convivência que se sucederam ao longo das últimas décadas”. Esta afirmação pode surpreender muitos europeus que frequentemente acreditam que a religião é precisamente a causa dos conflitos na região.
Pelo contrário. Todos os acordos propostos para resolver o conflito foram elaborados ignorando a dimensão religiosa. Contudo, ao discutir lugares sagrados, tempos sagrados e espaços simbólicos, é impossível falar de Jerusalém – e tentar dividi-la – sem considerar o que esta cidade representa para todos os judeus, cristãos e muçulmanos. Esta dimensão é parte integrante da vida comunitária. Ignorá-la dá a impressão de um projeto imposto de fora. O problema não é a religião em si, mas a forma como é usada ou interpretada. É claro que as religiões também têm as suas limitações e contradições. Mas precisamos superar essas dificuldades para alcançar algo estável e duradouro.
Essa reflexão me lembra o depoimento de um ex-recruta israelense que foi para a Índia para escapar da guerra em Gaza, conforme relatado pelo jornal italiano La Repubblica em agosto de 2025. Ele disse: “A Índia é a terra da espiritualidade, ao contrário de Israel”. Essa observação é surpreendente para os europeus, que muitas vezes pensam exatamente o contrário.
Tudo depende de como se vivencia a espiritualidade. Na Terra Santa, a espiritualidade é sequestrada por instituições ou por interpretações rígidas da religião. Este é um risco que encontramos em todos os lugares. Neste conflito, há pouca religião e muita política. O que vemos é essencialmente política disfarçada de imagens religiosas. Essa mistura é sempre perigosa.
Como podemos dar à espiritualidade o seu devido lugar?
Precisamos de líderes espirituais (sorri).
Em sua carta pastoral, o senhor escreve que “nossas escolas são talvez o presente mais belo que a Igreja oferece a esta terra”. Por que as escolas cristãs são tão importantes na Terra Santa?
Em Gaza, temos 600 alunos, a maioria muçulmanos, e esperamos educar 1.000 em breve, com a ajuda da Œuvre d’Orient e da França. Nossas escolas são as únicas que não foram formadas com base em critérios étnicos e religiosos.
Temos cerca de 150 instituições cristãs na Terra Santa, nem todas católicas. Existe uma rede de centenas de escolas cristãs que acolhem dezenas, até mesmo centenas de milhares de alunos em todo o Oriente Médio. Dado que os cristãos representam apenas 1 a 2% da população da região, alcançar um número tão grande de alunos significa também alcançar centenas de milhares de famílias.
A escola é mais do que apenas uma ferramenta: é um lugar onde a Igreja pode transmitir sua visão de humanidade e contribuir para a sociedade civil. É também um lugar de diálogo diário entre estudantes, professores e familiares. A educação não se resume à transmissão de conhecimento; ela também prepara para a vida. Acompanhamos as crianças desde o jardim de infância até o ensino médio. Esta é uma oportunidade extraordinária de influenciar positivamente toda uma geração. Não podemos mudar tudo, mas podemos dar uma contribuição substancial.
Por tantas décadas, o conflito se tornou parte de nossas vidas. Não acredito que terminará tão cedo, embora eu espere estar enganado! Devemos ajudar os jovens a lidar com essa situação e a administrar a imensa frustração que ela gera. A escola é o lugar certo para ajudá-los a desenvolver o pensamento crítico e incentivar a criatividade e o engajamento cívico.
Durante nosso último encontro, em Jerusalém, em 2023, o senhor explicou que desejava fomentar o surgimento de uma classe média cristã, acreditando que ela transforma a sociedade mais do que as elites. Como isso pode ser alcançado quando tantos cristãos estão emigrando?
A emigração é, de fato, um grande obstáculo. Aqueles que partem geralmente pertencem à classe média. São eles que podem dar uma contribuição essencial à sociedade: empresários, médicos, advogados, acadêmicos, figuras culturais… Muitas vezes, representam a face da comunidade e sua capacidade de contribuir para o bem comum. A atual situação econômica e as tensões estão colocando tudo isso em risco.
No entanto, embora muitas pessoas estejam partindo, há também aquelas que desejam ficar. Devemos trabalhar não apenas para manter a quantidade da presença cristã, mas, sobretudo, para garantir sua qualidade. O mais importante não é ficar, mas ter algo a dizer.
Por isso, devemos trabalhar para formar uma nova geração de líderes cristãos locais. É também por isso que estamos desenvolvendo centros de formação espiritual para leigos de língua árabe em Israel e na Palestina, para lhes dar as ferramentas necessárias para aprofundar sua fé, aprender sobre sua história e serem formados na doutrina social da Igreja. Esta é uma questão tão importante quanto as questões econômicas.
Todos nós vimos a imagem daquele soldado israelense atacando um crucifixo no Líbano em abril de 2026. Muitos judeus israelenses não sabem nada sobre o cristianismo. Como essa situação pode ser mudada?
Não devemos generalizar. Nem todos os israelenses compartilham essas atitudes. O que aconteceu é muito triste. É um sintoma de um problema presente em um segmento da sociedade israelense, mas certamente não em toda ela. É verdade que não devemos subestimar esse fenômeno. Há um debate identitário muito forte em Israel, que expressa uma fragilidade intrínseca e que se manifesta em rigidez e violência disfarçadas de dimensão religiosa.
A Igreja não pode simplesmente condenar esses atos. Devemos continuar a dialogar e criar oportunidades de encontro. Devemos também ajudar as instituições envolvidas a abordar essas questões de forma adequada.
Correndo o risco de surpreendê-los, penso que o ataque à Irmã Marie-Reine em maio de 2026 foi o que cantamos durante a liturgia da Páscoa: uma Felix culpa (uma “feliz culpa” ou “bendita culpa”, uma expressão teológica que significa que o pecado original justificou a Redenção)! Este ataque aumentou a conscientização sobre essa questão na sociedade israelense. Recebemos inúmeras manifestações de apoio de judeus israelenses.
No entanto, sentimos que a sociedade israelense carece de interlocutores dispostos a dialogar com os cristãos.
Este é, de fato, um dos nossos problemas. Não temos interlocutores suficientes. Devemos perseverar. A barreira linguística também desempenha um papel importante. Poucos de nós, entre os líderes cristãos, falamos hebraico e compreendemos verdadeiramente a sociedade judaica. Precisamos também preparar as nossas próprias comunidades para esse encontro.
Em sua carta pastoral, o senhor expressa sua preocupação com o uso militar da inteligência artificial, que sabemos estar se tornando cada vez mais comum no exército israelense. O senhor acha que a recente encíclica do Papa representa o início de uma resposta a esses desafios?
Não creio que tenha sido escrita em resposta à minha carta pastoral! Mas, sim, certamente é um dos primeiros textos a abordar essa questão de forma relativamente sistemática. O assunto é extremamente complexo, tanto ética quanto tecnologicamente. Este texto abre um debate de alto nível, mas também aborda aspectos culturais e jurídicos. Isso é muito importante. Espero que contribua para o surgimento de princípios comuns que possam ser reconhecidos por toda a comunidade internacional.
Já falamos sobre o papel da França como Estado. Que medidas concretas os cristãos franceses podem tomar para apoiar seus irmãos e irmãs em Cristo – e na humanidade – em Israel e na Palestina?
Em primeiro lugar, rezar. A oração é a ação mais importante de um crente. Em segundo lugar, apoiar as muitas instituições que atuam no terreno. Também é importante compreender melhor a realidade da Terra Santa e, quando possível, retomar as peregrinações.
Entendo que isso seja difícil hoje, mas devemos manter esse desejo. Devemos também falar sobre essas questões, conscientizar as pessoas ao nosso redor, estabelecer programas de intercâmbio, desenvolver conexões e cultivar relacionamentos duradouros. A rede cristã na Terra Santa prospera em grande parte graças a esses contatos e peregrinações, particularmente nas regiões de Jerusalém e Belém. É essencial manter essa conexão viva.