Estudo identificou que juventude aprecia o orgulho gaúcho, mas se sente limitada por preconceitos.
Pesquisa realizada entre jovens apontou que o
RS tem como grandes desafios respeitar a
diversidade e oferecer mais oportunidades de
emprego. O estudo “
O Sonho do Jovem Gaúcho”, realizado pela
Invest RS em parceria com a
ACE Post-Consultancy, mostra que, embora apreciem valores que relacionam ao povo gaúcho, como o orgulho e a tradição, eles querem que o território onde vivem se torne uma sociedade mais
aberta, diversa, acolhedora e capaz de oferecer oportunidades concretas de
desenvolvimento profissional e pessoal.
Quando perguntados sobre o lado ruim de ser gaúcho, 34,7% afirmaram ser o
preconceito, elencando
machismo,
homofobia e
racismo como questões que afetam o bem estar. Para os entrevistados, nascidos entre 2008 e 1994, o preconceito também é um limitador para as
oportunidades profissionais.
Depois do
preconceito, na sequência, eles listaram entre os problemas do estado o
conservadorismo (22,7%) e o
julgamento social por
aparência ou status (21,8%). “Eu vejo muitas pessoas diversas que não conseguem emprego por conta de serem diferentes no interior. Eu acho que isso existe menos nas cidades grandes”, disse um dos entrevistados, que não foi identificado na divulgação da pesquisa.
A percepção dos jovens também é de que há pouco espaço para
erro,
inovação e
escuta. Só 8,1% se sentem ouvidos nas decisões sobre o futuro do
RS. Com relação ao ambiente de oportunidades, 35,5% reclamaram que os gaúchos são fechados e que mantêm-se em “
panelinhas”, incentivando o que chamam de
cultura de bolhas. Eles relataram, ainda, a dificuldade de lidar com o peso da pressão de
conquistas de outras
gerações e também a insegurança diante da falta de
oportunidades, demonstrando certa percepção de que é preciso migrar para outros estados para ter êxito profissional.
O lado bom de ser
gaúcho, para quase metade dos entrevistados, é ter
orgulho pelas tradições (49,6%). E pelo menos 70% indicaram interesse em manter-se no
RS em razão da família e de outros vínculos afetivos. Entretanto, a maioria cogitaria deixar o estado por melhores salários (61%) e melhor qualidade de vida (55%).
A pesquisa “
O Sonho do Jovem Gaúcho” foi realizada pela
Invest RS,
Agência de Desenvolvimento do Rio Grande do Sul, em parceria com a
ACE Post-Consultancy. Os dados foram apurados por meio de questionário submetido a mil jovens, com idade de 18 a 32 anos. Eles foram ouvidos nas regiões Metropolitana, Fronteira, Central, Norte/Noroeste/Nordeste e Sudoeste/Sudeste.
A
pesquisa selecionou as pessoas pela idade (entre 18 a 32), buscando paridade de gênero (50% mulheres e 50% homens). Com relação à orientação sexual, ouviram 20% LGBTQI+ e 80% heterossexuais. Foram ouvidos, ainda 50% pessoas que se autodeclaram brancas e 50% não brancas, além de metade ser pertencentes às classes A e B e o restante à C. Também foram feitas entrevistas complementares com jovens gaúchos que moram em outros estados e com outros que retornaram ao Estado, assim como pessoas de outros estados que estão morando no
RS.
Para a
pesquisa, foi utilizada a metodologia de coleta de painel, estruturada em um questionário de onze perguntas. A equipe responsável elaborou um painel a partir de percepções e aspirações do jovem gaúcho e sua relação com o Estado. A diretora de
Estratégia e Inteligência da Invest RS,
Caroline Bücker, destaca que os jovens buscam mais exemplos de pessoas que construíram sua trajetória no
RS para que possam servir de inspiração para quem fica.
“Enfrentamos uma
epidemia de solidão, e os jovens, mesmo
hiperconectados, estão
cada vez mais isolados. É preciso ajudá-los e dar espaço para o movimento social e colaborativo. Além disso, os resultados apontam fatores que influenciam a permanência e o desenvolvimento dos jovens no Estado, como o forte sentimento de
pertencimento ao
RS, mas também desafios relacionados ao medo de errar, baixa tolerância ao risco, percepção de pouca abertura para novas ideias, dificuldade de
networking e
escassez de oportunidades de crescimento profissional. Dessa forma, os achados podem subsidiar políticas públicas e iniciativas voltadas à retenção de talentos e ao fortalecimento do ambiente de desenvolvimento para os jovens gaúchos, inclusive empreendedores”, salienta.
O professor coordenador do
Grupo de Estudos em Juventudes e Políticas Públicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul,
Giovane Scherer, relaciona a pesquisa com o debate sobre
desigualdades. “Tem o desafio enquanto estado e sociedade como um todo, não só estado, de propiciar um desenvolvimento mais igualitário de uma juventude que vivencia um contexto muito grande de desigualdade social. Porque se a gente for analisar os dados de desemprego é principalmente sobre os jovens periferizados que cai o maior impacto de desemprego”, aponta.
Para
Scherer, a pesquisa ainda mostra uma tendência mundial de “
fuga dos cérebros”, com os talentos que têm oportunidade escolhendo migrar para os grandes centros urbanos, como
RJ e
SP. O professor acredita que o mapeamento deve servir de motivação para gestores buscaram desenvolver políticas para “uma juventude esquecida” em regiões rurais como a
Campanha, mais periféricas e empobrecidas e que, mesmo quando são urbanas, estão fora dos grandes centros.
Ele também chama de “
adultocêntrica” a forma como, mesmo na elaboração de políticas públicas, os adultos costumam deixar os jovens sem escuta. “Temos uma forma de tratar a
juventude como um vir a ser, não como algo que é”, critica. “Sempre vai olhar para o jovem como um futuro ou projeto. E isso faz com que a gente, enquanto mundo adulto, coloque como imposição sobre os jovens o que eles vão gostar de ser, de ter e de desejar. É como naquela velha máxima: ‘eu já tive 17 anos, eu sei exatamente o que um jovem de 17 anos quer’. Mas a sociedade sempre muda. Então, a minha juventude não é a mesma da sociedade que esse jovem está vivenciando agora e principalmente a minha história de vida, ela não pode servir de parâmetro para todas as juventudes, principalmente em razão dessa diversidade”, explica
Scherer.
Scherer ainda contextualiza a pesquisa com outros
estudos sobre juventude que reforçam uma demanda atual pela
saúde mental. Para o pesquisador, por o
RS ser agrícola, a sucessão rural aumenta a tensão entre as gerações.
“Tem uma pressão muito forte na saúde mental dos jovens. Essa pesquisa não revela, mas outros estudos vêm revelando a questão do
suicídio. É na juventude que se concentram as altas taxas de suicídio. E o
Rio Grande do Sul é um dos estados que mais tem concentrado as taxas de suicídio, por várias razões. Então, em algumas regiões, principalmente o uso de defensivos agrícolas e agrotóxicos acaba influenciando nessas taxas, além de questões culturais, como a própria cultura gaúcha, que é apontada também pelos jovens. Então o orgulho de ser gaúcho é positivo, faz se sentir bem no estado. Mas, por outro lado, tem a importância também de olhar para a saúde mental dos jovens”, pondera.
Caroline enfatiza que a pesquisa deve ser utilizada para a criação de ações e políticas públicas envolvendo o Executivo e a iniciativa privada. Em novas etapas, os jovens irão propor ações de forma colaborativa para organizações e entidades, como a
Invest RS,
Fiergs,
Fecomércio,
Farsul,
Sebrae,
South Summit Brazil,
Instituto Caldeira e
Tecnopuc. “Mais do que produzir um retrato da realidade, queremos criar as condições para que diferentes atores trabalhem de forma coordenada em torno de um mesmo objetivo: fazer do
Rio Grande do Sul um território cada vez mais atrativo para os jovens e capaz de desenvolver, reter e potencializar seus talentos”, comenta a diretora de Estratégia e Inteligência da Invest RS.
Na avaliação de
Giovane Scherer, pesquisas como essa mostram que o desafio para o investimento e a formação de políticas públicas para os jovens é entender a educação não só como formação para o mercado de trabalho, mas de preparação do jovem para um contexto de mudança social e precarização das atividades. “O mercado de trabalho está em constante transformação, o que pode gerar uma grande um
lógica de desemprego. Temos muitos jovens com Ensino Superior completo desempregados, sem acesso ao mercado de trabalho. Então há uma mudança estrutural do mercado de trabalho que tem precarizado a vida de todo mundo, e isso tem um impacto profundo na saúde mental. É preciso pensar em saúde mental frente a um contexto de precarização tão grande de vida”, alerta.