“As crises já estão acontecendo; não se trata de ter medo, mas de estar preparado”. Entrevista com Jeanette Serritzlev, analista militar

Destruição em Kiev. (Foto: Mustafa Çiftçi/Anadolu Agency)

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11 Julho 2026

A especialista dinamarquesa, consultora do painel europeu de especialistas em preparação para crises e emergências, alerta que a guerra já é um risco real na Europa e os ataques híbridos, uma realidade.

Jeanette Serritzlev (Copenhague, 47 anos) passou anos estudando como as guerras não são mais travadas apenas no campo de batalha, mas também na arena da informação. Analista militar da Real Academia Dinamarquesa de Defesa e especialista em desinformação, guerra híbrida e influência russa, ela participou do último Painel Europeu de Cidadãos sobre Preparação para Crises e Emergências como membro do painel de especialistas.

Ela conversou com o EL PAÍS em Bruxelas durante a sessão final para refletir sobre os riscos que a Europa enfrenta, o papel dos cidadãos na construção de sociedades mais resilientes e a necessidade de se preparar para qualquer cenário.

A entrevista é de Elena G. Sevillano, publicada por El País, 09-06-2026.

Eis a entrevista.

Como mudou a percepção de risco na Europa desde a invasão russa da Ucrânia?

Houve uma mudança estratégica tanto no nível político quanto entre a população, porque agora a guerra é um risco e os ataques híbridos são uma realidade.

O que essa mudança significa para o conceito de preparação?

O público está mais consciente da necessidade de estarmos preparados para crises. Existem diferenças entre os países; estou mais familiarizado com o Norte da Europa, mas desde a invasão em larga escala da Rússia em 2022, houve uma mudança na avaliação das ameaças, o que também serviu como um alerta em relação à preparação. Agora, todos os países nórdicos têm recomendações oficiais para que suas populações sejam autossuficientes por 72 horas e, inclusive, na Suécia, por uma semana, devido a fatores geográficos.

Parece que foi preciso uma guerra chegar às portas da Europa para que as autoridades finalmente se organizassem.

Na maioria dos países europeus, os governos não priorizaram a defesa ou a preparação para crises na medida em que deveriam, porque confiaram que o risco não era iminente. Isso é bom? Não. É uma forma de pensar bastante humana? Suponho que sim.

Você percebe diferenças norte-sul ou leste-oeste entre os participantes do painel, que vêm dos 27 países da União?

Não tantos quanto eu imaginava. Esperava que os espanhóis falassem sobre desastres naturais e os países bálticos, sobre uma guerra com a Rússia, e duvidava que o debate pudesse ser focado. Mas acontece que, depois de compartilharem suas experiências, chegaram a uma abordagem muito semelhante para encontrar soluções, e acho isso muito interessante e muito positivo para a resiliência europeia como um todo. Não há países mais focados na preparação, dizendo: "Queremos fazer mais, devemos fazer mais", enquanto outros respondem: "Bem, veremos o que acontece, tenho certeza de que encontraremos uma solução quando a crise chegar".

Os governos também mudaram sua perspectiva?

Tanto eu quanto meus colegas tivemos a impressão de que as autoridades estavam um tanto relutantes em falar sobre o nível de preparação, pois não queriam alarmar o público. E, claramente, não se trata de causar alarme, mas de ser transparente sobre a situação: a ameaça militar da Rússia, as ameaças híbridas russas, mas também qualquer outro risco, seja uma crise migratória, desastres naturais, a crise climática…

Sempre haverá quem acuse um governo de alarmismo por informar o público...

Costumo dizer que, com sorte, nunca teremos que enfrentar uma guerra. Mas as crises já estão aqui e continuarão a surgir. Por isso, não se trata de ter medo, mas de estar preparado, porque se estivermos, seremos mais fortes e mais resilientes quando algo acontecer.

Quão preparada está a população do seu país?

Há dois anos, todos os cidadãos dinamarqueses receberam recomendações para serem autossuficientes por 72 horas. Isso inclui, claro, água, comida, pilhas, algum dinheiro em espécie, um rádio de manivela e coisas do gênero. E, em geral, a iniciativa foi muito bem recebida. Mas, se bem me lembro, menos da metade da população realmente comprou ou reuniu o necessário para essas 72 horas.

Na Dinamarca, como somos uma sociedade muito bem estruturada, existe a sensação de que, não importa o que aconteça, tudo continuará funcionando. O lado positivo é que, a cada crise, mesmo que relativamente pequena, vemos um aumento no número de pessoas que seguem essas recomendações. Esse número continua crescendo.

Um dos desafios na preparação é a falta de confiança nas autoridades. Como vocês combatem isso?

Essa é a pergunta de um milhão de dólares. Participar deste painel de cidadãos e destas três sessões me ajudou a refinar minha visão sobre confiança. Venho de um país onde, em geral, não é preciso concordar com o governo ou as instituições para confiar neles. As pessoas não acreditam que aqueles que trabalham neles o façam para prejudicar a população.

Isso não acontece em todos os lugares.

Sim, é preciso admitir que em alguns países nem sempre se pode confiar, por exemplo, que a polícia estará lá para ajudar. Há problemas com corrupção e outras dificuldades, mesmo dentro da UE. É uma questão muito complexa. A confiança precisa ser conquistada. Pode parecer uma resposta tão básica que chega a ser óbvia, mas envolve, de fato, cumprir o que se promete, ser o mais transparente possível e reconhecer os erros quando eles forem cometidos.

A retórica populista explora crises para alimentar a desconfiança nas instituições. Como esse fenômeno pode ser combatido?

Na Dinamarca, creio que temos sido relativamente eficazes quando as decisões se baseiam num amplo consenso parlamentar. Por exemplo, foi o que aconteceu com a nossa participação na missão no Afeganistão e também com o nosso apoio à Ucrânia. Muitas vezes, o consenso político acaba por se refletir num consenso entre a população. A construção desses acordos pode demorar mais tempo, mas, em questões importantes, ter um amplo apoio político é um elemento fundamental para alcançar a aceitação pública.

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