25 Mai 2026
"Do ponto de vista histórico, portanto, se pode dizer que a guerra foi, desde o início, o principal instrumento a serviço da expansão do poder e da riqueza europeia. E a forma particular como se articularam o poder, a guerra e a acumulação da riqueza no território europeu talvez tenha sido a marca diferencial da Europa e de sua expansão vitoriosa nos séculos seguintes. Sobretudo depois que suas guerras se associaram de forma indissolúvel com o modo de produção e acumulação da riqueza capitalista."
O artigo é de José Luís Fiori, professor permanente do Programa de Pós-Graduação em Economia Política Internacional (PEPI) da UFRJ e coordenador do grupo de pesquisa "O poder global e a geopolítica do Capitalismo", publicado no Observatório Internacional do Século XXI, maio de 2026.
O artigo é publicado originalmente no Boletim de Conjuntura n. 17, mai. 2026, do Observatório Internacional do Século XXI, do Nubea, UFRJ.
Eis o artigo.
Charles Tilly, destacado sociólogo, historiador e cientista político norte-americano, publicou — no início dos anos 90 — uma obra muito importante sobre o papel das "guerras" na origem dos Estados nacionais europeus. Nesse livro, Tilly apresenta alguns números impressionantes: entre os anos 1400 e 1800, foi travada no mundo, em média, uma nova guerra a cada três anos; entre 1800 e 1944, uma a cada um ou dois anos; e a partir da Segunda Guerra Mundial, mais ou menos uma a cada quatorze meses.
Na sequência, logo depois do fim da Guerra Fria, na década de 90, os EUA participaram de 48 "intervenções militares" em todo o mundo, segundo Andrew Bacevich, outro historiador americano, especialista em segurança internacional. E a partir de 2001, os EUA e seus aliados europeus estiveram envolvidos numa guerra contínua no Oriente Médio, chegando a bombardear até seis países simultaneamente. Até o momento em que a guerra voltou ao coração da Europa, em 2022, envolvendo a Rússia, a Ucrânia e a OTAN, antes de retornar, uma vez mais, ao Oriente Médio, com os ataques mais recentes de EUA e Israel contra o Irã, em julho de 2025, e em fevereiro de 2026.
Hoje o mundo convive com duas "grandes guerras", na Ucrânia e no Irã, e mais um conflito regional entre Paquistão e Afeganistão, que envolvem, direta ou indiretamente, cinco potências atômicas. Esta é uma das razões pelas quais o Conselho de Segurança da ONU se encontra inteiramente esvaziado e impotente. Uma situação próxima do caos que recoloca, em caráter de extrema urgência, a questão milenar da origem das guerras e da transitoriedade dos "acordos de paz" assinados periodicamente pelas potências envolvidas nos infinitos conflitos travados ao redor do mundo, e muito em particular, dentro do "sistema interestatal" criado pelos europeus e que se universalizou na segunda metade do século XX.
Já faz tempo que a pesquisa antropológica e arqueológica acumula evidências de que a "violência" nasceu junto com os primeiros primatas, e foi companheira inseparável do Homo sapiens, através de todo o seu processo evolucionário. Mas a guerra, como forma regular, organizada e estratégica de exercício da violência entre os povos, só surgiu muito mais tarde, junto com as fronteiras territoriais e o nascimento dos primeiros grandes impérios e civilizações, em torno do terceiro milênio antes da "era cristã". A partir daí, a guerra se generalizou e se transformou no principal instrumento de conquista e dominação entre as cidades, repúblicas e os impérios.
Na Europa, entretanto, depois do "Longo Século XIII", entre 1150-1350, a guerra passou a ocupar lugar cada vez mais central e dinâmico na competição entre os reinos e "feudos medievais", sendo responsável pelo processo de centralização do poder que culminou com a formação dos primeiros "Estados nacionais", entre 1450 e 1650. Nasceram ali também, simultaneamente, o "sistema interestatal europeu" e seus primeiros "impérios marítimos e coloniais" que se alargariam nos três séculos seguintes.
Nessa nova organização do poder territorial que se formou na Europa, a guerra com os vizinhos e contra os "povos colonizados" se transformou numa espécie de "correia de transmissão", conectando o poder dos Estados com a expansão de suas "economias nacionais", responsáveis pelo "financiamento" da própria guerra. Criou-se um circuito de acumulação de poder e riqueza que passou a funcionar automaticamente, como se fosse um mecanismo de relógio cada vez mais acelerado, até a formação do "modo de produção capitalista" propriamente dito, que nasceu também à sombra das guerras infinitas deste sistema de Estados nacionais e impérios coloniais.
Do ponto de vista histórico, portanto, se pode dizer que a guerra foi, desde o início, o principal instrumento a serviço da expansão do poder e da riqueza europeia. E a forma particular como se articularam o poder, a guerra e a acumulação da riqueza no território europeu talvez tenha sido a marca diferencial da Europa e de sua expansão vitoriosa nos séculos seguintes. Sobretudo depois que suas guerras se associaram de forma indissolúvel com o modo de produção e acumulação da riqueza capitalista. Além disso, foram as guerras também que criaram as primeiras hierarquias de poder dentro da própria Europa. Na verdade, a guerra acabou se transformando na condição básica de sobrevivência de cada uma de suas unidades territoriais de poder.
Por isso, todas as suas unidades estão sempre obrigadas a se expandir, porque a guerra é uma possibilidade constante, e um componente essencial do cálculo político e estratégico de todas elas. Para todas essas unidades territoriais — sobretudo as mais poderosas —, existe sempre uma "guerra futura" que justifica sua "preparação permanente" para o conflito. A presença contínua dessa "guerra futura" atua como estímulo para a mobilização interna de recursos destinados à pesquisa e à inovação da tecnologia militar e para a ampliação dos arsenais de cada um desses "Estados-economias nacionais" guerreiros. Uma mesma energia que esteve na origem do capitalismo, e que depois se transformou na mola propulsora de seu processo de acumulação infinita de capital.
Essa "compulsão expansiva", que se universalizou na segunda metade do século XX, aponta na direção inevitável do monopólio. Isto é, todas as unidades competidoras se propõem, em última instância, a conquistar um poder global e incontrastável que possa ser exercido sobre um território cada vez mais amplo e unificado, sem fronteiras. Ao mesmo tempo, se alguma dessas unidades conseguisse se impor, de forma imperial, a todas as demais, implicaria a eliminação de todos os demais poderes territoriais concorrentes. Caso isso viesse a ocorrer, estaria suspenso — automaticamente — o próprio processo de acumulação do poder e de capital. Se a exclusividade fosse alcançada e se criasse uma situação de monopólio absoluto, o sistema entraria em crise, e tenderia a um estado de entropia. Por isso se pode concluir que nem a hegemonia unipolar, nem o império são capazes de ordenar e pacificar o "sistema interestatal capitalista". Mais do que isto, a única força que parece capaz de mantê-lo hierarquizado e pacificado temporariamente é a possibilidade permanente de uma nova guerra.
Resumindo o argumento: na medida em que as primeiras unidades de poder territorial europeias foram dando origem a estruturas de poder mais amplas e complexas por causa das guerras e da centralização do poder, duas coisas foram ficando cada vez mais claras: em primeiro lugar, foram as guerras que aumentaram os laços de integração e mútua dependência entre os poderes territoriais desse sistema político; em segundo, do ponto de vista estritamente lógico, os poderes vencedores não podem destruir seus concorrentes/adversários. Mais do que isto, se não houver uma "concorrência espontânea", seus "poderes expansivos" terão que gerar seu próprio concorrente ou inventar adversários que permitam que o mecanismo desse relógio não pare jamais. Um segredo muito bem guardado pelos "senhores do mundo": são eles mesmos que criam ou inventam, em última instância, seus adversários, que são indispensáveis para sua própria acumulação de poder e de riqueza.
E a chamada "potência hegemônica", em particular, precisa estar sempre à frente de todos nesse processo, mesmo que seja obrigada a destruir as regras e instituições que ela mesma criou, num momento em que se sinta ameaçada, como está acontecendo, de forma extraordinariamente clara, na relação dos EUA com seus antigos aliados europeus, e com todo o sistema internacional.
Nunca houve, nem haverá "paz perpétua" nesse sistema interestatal, porque ele e seus líderes, em particular, precisam da guerra para expandir seu poder. E o que é mais paradoxal, ele precisa da guerra para poder se "ordenar", "hierarquizar" e "pacificar". Nesse contexto, a luta pela paz se transformou numa bandeira e numa utopia dos que lutam para construir barreiras éticas e jurídicas de contenção do "rolo compressor" das grandes potências.
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