10 Julho 2026
Entre a intervenção de Trump em um cartão vermelho, o debate sobre jogos de azar no Congresso e a agitação racial na Argentina, a Copa do Mundo de 2026 revelou menos sobre futebol e mais sobre quem manda em campo, em casa e na América Latina.
O artigo é de Carol Althaller, publicado por El País, 10-07-2026.
Carol Althaller é a diretora executiva do Update Institute, uma organização que atua como uma plataforma regional para inovação e imaginação política no sul global.
Eis o artigo.
Na noite de 5 de julho, a FIFA anulou a suspensão automática do atacante americano Folarin Balogun, que havia sido expulso dias antes por uma entrada violenta em um jogador bósnio na primeira partida das eliminatórias para a Copa do Mundo. A decisão só foi tomada após um telefonema pessoal de Donald Trump para o presidente da FIFA, Gianni Infantino, fato que o próprio presidente americano admitiu publicamente sem hesitar. A Bélgica, próxima adversária dos americanos, protestou. A União Europeia questionou a decisão. A FIFA, no entanto, a manteve.
Poucos eventos ilustram tão claramente o que esta Copa do Mundo, realizada nos Estados Unidos, México e Canadá, revela sobre o atual clima político. O futebol, um esporte apresentado como uma linguagem universal e neutra, está, na prática, cada vez mais alinhado com aqueles que detêm o poder estatal e de mercado, não com o torcedor, não com o jogador e certamente não com a mulher que assiste ao jogo em casa, torcendo para que seu time perca para que isso não lhe custe caro mais tarde.
A subserviência de Infantino não é novidade. Meses antes da Copa do Mundo, a FIFA criou um Prêmio da Paz sem precedentes para homenagear Trump, semanas antes de os Estados Unidos bombardearem o Irã. Ao longo do torneio, delegações de países em conflito diplomático com Washington relataram tratamento incomum nas fronteiras americanas, desde a detenção de um árbitro até o interrogatório prolongado de jogadores do Oriente Médio. A FIFA, historicamente confortável em coexistir com governos autoritários — de João Havelange, que usou sua influência na ditadura militar brasileira para consolidar a organização, à Rússia em 2018 e ao Catar em 2022 — encontrou em Trump a continuação mais explícita de sua própria tradição institucional.
Isso diz respeito diretamente à América Latina. Afinal, a região está vivenciando seu próprio ciclo de experimentação autoritária, de Javier Milei a Nayib Bukele. No Brasil, a própria camisa da seleção deixou de ser um símbolo de consenso nacional e se tornou munição em uma guerra cultural. A apropriação do amarelo por Bolsonaro nunca teve a ver com orgulho patriótico, mas sim com uma posição em uma guerra imaginária contra a esquerda, usando um símbolo esportivo como extensão da disputa política. É a mesma lógica do caso Balogun, aplicada à bandeira em vez do cartão vermelho: transformar um espaço supostamente neutro em uma ferramenta daqueles que já estão no poder.
Esse fenômeno tem outro reflexo no âmbito doméstico: as apostas. A publicidade de empresas de apostas durante as transmissões da Copa do Mundo desencadeou uma das mobilizações institucionais mais rápidas do ano no Brasil. A deputada federal Erika Hilton compareceu ao Ministério Público Federal e ao Conselho Nacional de Autorregulamentação da Publicidade, argumentando que os comentaristas estavam usando sua credibilidade para induzir apostas em tempo real.
Como ela mesma afirmou, apostar não é esporte, é jogo de azar. A Comissão Nacional do Esporte (CONAR) suspendeu a publicidade de três operadoras, e uma investigação revelou que o público perdeu 61% das apostas ao vivo sugeridas. O problema é maior do que a publicidade abusiva: os gastos das famílias brasileiras com apostas cresceram 500% em três anos, concentrados entre homens de baixa renda. Especialistas consultados pelo Senado durante a própria Copa do Mundo relataram um aumento de 140% nas consultas por transtorno do jogo desde 2018 e uma ligação direta entre dívidas e violência doméstica.
A masculinidade exibida em torno do futebol competitivo, disposta a apostar na sorte e no conhecimento com dinheiro, é precisamente a gramática que a indústria das apostas monetiza. O dano raramente se limita ao apostador, um padrão que se alinha com dados internacionais bem documentados: no Brasil, as ameaças e agressões contra mulheres aumentam nos dias de jogos da seleção; na Inglaterra, a violência doméstica cresce mesmo quando o time vence. Isso desmantela a explicação simplista da frustração e aponta para algo mais estrutural: uma masculinidade em exibição pública que precisa ser reafirmada em algum lugar. E esse lugar, muitas vezes, é dentro de casa.
Essa mesma masculinidade encontrou sua vitrine espiritual nesta Copa do Mundo. Dos 26 jogadores convocados para a seleção brasileira, 23 se identificam como cristãos evangélicos. Agradecer a Deus tornou-se o registro emocional oficial da equipe, protegendo o sucesso individual de qualquer análise estrutural do sistema que o produz. Enquanto isso, circula uma narrativa sobre as parceiras dos jogadores, tratadas pela imprensa esportiva como capital de imagem: audiências monetizadas mesmo quando seus históricos pessoais incluem infidelidades públicas, o que posiciona as mulheres como acessórios, raramente como protagonistas de suas próprias histórias.
Esse sistema tem uma origem mais cínica, o que explica por que esses jogadores chegam à seleção praticamente desconhecidos nos países que representam. Desde a Lei Bosman de 1995, os clubes europeus têm recrutado sistematicamente jovens talentos da América Latina e da África, esgotando prematuramente atletas que já haviam construído carreiras e conquistado reconhecimento popular em seus países. O resultado é um elenco de nomes desconhecidos, comandado por um técnico europeu contratado para "profissionalizar" a equipe — uma decisão que, para muitos observadores, também apagou o que restava da ginga historicamente atribuída à herança negra do futebol brasileiro.
É mais um episódio de branqueamento institucional, desta vez de dentro para fora, com um reflexo distorcido no exterior. Seleções europeias que até algumas décadas atrás eram quase inteiramente brancas chegaram a 2026 com jogadores negros de destaque e filhos de imigrantes, ao mesmo tempo em que as políticas anti-imigração se intensificam nesses países: quem apresenta resultados é celebrado, quem não joga bem é perseguido. A Argentina é o contraponto exato, permanecendo quase inteiramente uma seleção branca, legado de um projeto histórico de branqueamento que remonta à promoção oficial da imigração europeia no século XIX. O futebol não cria essa hierarquia racial, mas a expõe, em alta definição, para o mundo todo ver.
No entanto, há um contraponto que vale a pena destacar. Enquanto a Copa do Mundo se tornou a vitrine onde essas novas alianças de poder são exibidas sem qualquer pudor, é na Copa Libertadores que o futebol latino-americano ainda é jogado com relativa autonomia, decidido pelos próprios clubes, por meio de seus próprios veículos de comunicação, para seu próprio público, sem depender de vistos americanos ou ligações presidenciais. É um pequeno, mas útil lembrete de que a captura não é um destino inevitável.
O mesmo se aplica à política. A onda autoritária que varre Milei, Bukele e o movimento de Bolsonaro não é uma lei da física regional. O Brasil ainda tem eleições livres, instituições que resistem à pressão e um debate público — como aquele que a própria Erika Hilton provocou sobre jogos de azar — que pode prevalecer até mesmo contra o dinheiro. Nada disso garante nada. Mas é a diferença entre uma democracia que ainda elege seu povo e um campeonato que não o faz mais.
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