Aliado linha-dura de Putin: "A Europa busca uma escalada; ela precisa ser duramente atingida". Entrevista com Sergey Karaganov

Foto: Christian Lue/Unplash

Mais Lidos

  • Escravidão moderna, trabalhadores desprotegidos e precarização universalizada. Entrevista com Reginaldo Ghiraldelli

    LER MAIS
  • Médico defende cuidados paliativos no fim da vida e amenização total da dor em pacientes terminais. “O alívio deve ser na dor total: física, espiritual e emocional”, diz

    Cuidados paliativos: 86% das pessoas que precisam de auxílio no fim da vida são abandonadas. Entrevista especial com Angelo Atalla

    LER MAIS
  • O triunfo do infame. Artigo de Jorge Zepeda Patterson

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

10 Julho 2026

Moscou deveria considerar ataques nucleares limitados contra alvos na Europa para forçar a OTAN a abandonar seu apoio militar a Kiev. Essa é a posição bem conhecida de Sergey Karaganov, cientista político próximo ao Kremlin e presidente honorário do think tank Conselho de Política Externa e de Defesa. Agora que drones ucranianos estão atingindo alvos em território russo diariamente, ele afirma que é "apenas uma questão de tempo" até que Moscou recorra a "medidas drásticas" contra a Europa.

A entrevista é publicada por La Repubblica, 10-07-2026.

Eis a entrevista.

Na última cúpula da OTAN, Trump apoiou os ataques ucranianos que atingem território russo em profundidade, afirmando que eles poderiam levar a uma redução da escalada do conflito. Qual a sua opinião sobre isso?

É evidente que ataques contra a Rússia só podem levar a uma escalada do conflito e, mais cedo ou mais tarde, a ataques russos — o que eu pessoalmente espero que não aconteça — primeiro com armas convencionais e depois com armas nucleares contra alguns países europeus. É fácil para Trump falar sobre escalada e desescalada: ele está do outro lado do oceano. Isso é um discurso irresponsável.

Você frequentemente defende a necessidade de uma escalada nuclear por parte da Rússia precisamente para forçar o outro lado a reduzir a tensão...

Não sou a favor do uso de armas nucleares, mas sim da restauração da credibilidade da dissuasão nuclear. Cheguei a propor ao nosso Comandante Supremo que nomeasse um comandante para o teatro de operações europeu, que teria o direito de autorizar o seu uso, se necessário. Contudo, reitero que jamais desejaria que a Rússia recorresse a elas, pois isso causaria graves danos morais ao nosso povo.

Como imagina um ataque direto da Rússia à Europa?

A primeira onda de ataques teria como alvo centros logísticos, principalmente na Romênia, Polônia e na região do Báltico. Caso o inimigo não se renda, uma segunda onda de ataques convencionais seria lançada contra alvos simbólicos na Europa. Se mesmo isso não for suficiente, a estratégia passaria a ser atacar alvos militares, incluindo alvos nucleares, e, em seguida, infraestruturas civis estratégicas.

A Ucrânia vem bombardeando território russo com armamento ocidental há anos sem provocar tal reação de Moscou. O que aconteceu com as famosas "linhas vermelhas"?

Continuo a criticar o nosso governo, e já não estou sozinho: a maioria dos cidadãos russos e uma parte significativa da elite acreditam que não estamos a punir adequadamente os agressores europeus. Acredito que, dentro de um ou dois anos, será tomada a decisão de adotar medidas mais drásticas. É apenas uma questão de tempo.

No cenário em que a Rússia ataca a Europa, o Artigo 5 da OTAN entraria em vigor, forçando os Estados Unidos a entrar em guerra contra a Rússia. Você não considera essa possibilidade?

Estou preparado para jurar que os Estados Unidos jamais responderiam a um possível ataque nuclear russo contra a Europa. Tudo sobre o Artigo 5 e as garantias relacionadas é, na minha opinião, um blefe.

O Kremlin mantém uma postura conciliatória em relação a Trump, apesar de os EUA continuarem a apoiar os ataques ucranianos, fornecendo informações e tecnologia. Por quê, na sua opinião?

Moscou não descartou a possibilidade de chegar a um acordo com os Estados Unidos a médio prazo. Mas é evidente que todas as propostas de Trump são uma armadilha, e ninguém confia nele de verdade. Dado que a elite política europeia demonstra uma hostilidade irracional em relação à Rússia, devemos manter em aberto a possibilidade teórica de um acordo com Washington.

Na sua opinião, o quanto as suas posições são ouvidas dentro do Kremlin?

Tenho inúmeros contatos com os líderes do nosso país. Publico regularmente minhas análises e envio documentos e propostas. É claro que não decido a política do Kremlin, mas sei que eles estão perfeitamente cientes das minhas posições.

Leia mais