Teologia de gênero, o Evangelho contra estereótipos e marginalizações. Artigo de Luciano Moia

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08 Julho 2026

"O 'princípio de pastoralidade' com base em sólidas referências ao Concílio Vaticano II, pode se tornar o caminho para renovar os itinerários de acompanhamento, acolhendo todo limite e diferença (a começar pelos nossos) para nos desarmarmos e construirmos a comunhão com Deus e entre nós mesmos", escreve Luciano Moia, jornalista italiano, em artigo publicado por Avvenire, 05-07-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Há a questão do patriarcado. Há a masculinidade tóxica e sua relação com o clericalismo. Há o princípio do cuidado pastoral. Há o universo transgênero, analisado à luz dos princípios do Evangelho e da vida de fé. Há tudo isso e muito mais na nova teologia de gênero, que há alguns anos se esforça para acolher os desafios decorrentes das vivências concretas das pessoas, para oferecer palavras e propostas capazes de acolher e acompanhar os indivíduos sem condenações prévias e sem a obrigação de se conformar com modelos perfeitos apenas nas páginas dos manuais, mas desvinculados da realidade e da história.

Atenção: a teologia de gênero não propõe revoluções doutrinárias, nem promove a abolição da distinção entre homem e mulher ou faz campanha pela eliminação da indissolubilidade do casamento. Mas assume o risco de aventurar-se em territórios ainda inexplorados ou analisados apenas sob uma única perspectiva que já se tornou rígida e restritiva, solicitando um discernimento eclesial mais amplo e corajoso, mais respeitoso para com as pessoas e mais atento à compreensão das experiências vividas na fidelidade à essência do Evangelho. O que, então, deve fazer a reflexão teológica diante de situações existenciais que parecem problemáticas para a prática pastoral comum?

"Oferecer a possibilidade de tomar um tempo. De refletir, não de fugir, não de se apressar em definir, mas de permanecer fielmente na tensão da busca." Essas são as palavras do Cardeal Domenico Battaglia, Arcebispo de Nápoles, no prefácio do livro Persone transgender. Scienze, teologie, pastorali (Queriniana, 272 páginas, €22), organizado por Damiano Migliorini e pelo jesuíta Giuseppe Piva.

Persone transgender. Scienze, teologie, pastorali, de Damiano Migliorini e Giuseppe Piva. (Queriniana, 2026)

Trata-se de um texto que deixa de lado as interpretações ideológicas e, adotando uma abordagem interdisciplinar, permite-se ser desafiado pelas contribuições da sociologia, da antropologia cultural, da filosofia e das teologias moral, bíblica e pastoral a respeito de um tema que, em sua complexidade humana e teológica, não pode ser banalizado nem reduzido a indevidos reducionismos.

Nessa linhas aparecem as contribuições de alto valor - de Antonio Autiero, Carlo Casalone, Luisa Derouen, Fabrizia Giacobbe, Diego Lasio, Giulia Longoni, Marzia Mauriello, Federico Sandri e Cristiana Simonelli - que, particularmente na seção "teologias" aqui relevante, mostram a necessidade urgente de uma refundação antropológica baseada na virtude do reconhecimento e no dever de respeitar a todos, com o objetivo é abrir horizontes mais humanizantes porque, como enfatiza o Cardeal Battaglia, "nenhuma vida é estranha ao mistério da salvação. E cada pessoa, cada história, mesmo aquelas que nos parecem distantes ou difíceis de compreender, carrega em si a possibilidade de uma revelação. A revelação de um Deus que se faz próximo, que se deixa tocar, que habita as feridas e que não teme a carne frágil dos filhos do homem. Pois ele assumiu essa carne, a viveu e a transfigurou".

Será esse um objetivo possível também hoje para os muitos fiéis marcados pelo esforço de se afirmarem cristãos às margens da comunidade? Sim, mas é indispensável ir além dos estereótipos de um sistema que cria obstáculos para o amor porque se insinua na psique das pessoas, distorcendo a forma como se pensam e se veem em suas identidades masculinas e femininas, e envenena as relações. Esse sistema chama-se patriarcado e representa o maior obstáculo para a realização de uma civilização do amor.

A razão é simples: uma relação de amor só pode se concretizar em um plano de igualdade, no respeito e na dignidade pessoal, ao passo que o patriarcado, que opera em termos hierárquicos com um viés em favor do masculino, torna-se a contradição mais flagrante do amor e, consequentemente, do Evangelho. Esse é o argumento apresentado por Simona Segoloni Ruta, professora de eclesiologia no Instituto Teológico Pontifício João Paulo II e presidente da Coordenação das Teólogas Italianas, em um livro curto e precioso, justamente intitulado Patriarcato (Edizioni Messaggero Padova, 136 páginas, €16).

Uma obra de investigação teológica e antropológica que expõe as diversas esferas onde o patriarcado continua ainda hoje a gerar injustiças e sofrimentos: da família à sociedade e, lamentavelmente, à Igreja, onde "a hierarquia social do patriarcado se entrelaça com a hierarquia eclesial do clericalismo, dando vida a uma combinação perigosa". O melhor remédio para isso chama-se Evangelho; pois não há nada nas ações de Cristo, ressalta a teóloga, "que autorize uma confirmação do sistema social de desigualdade entre homens e mulheres".

Essa leitura também é compartilhada por outra teóloga, Selene Zorzi, que já foi responsável da Coordenação das Teólogas Italianas e lecionou em diversas faculdades pontifícias. Em seu livro mais recente, Dio è maschio? Chiesa, maschilità tossica e teologie di genere (Deus é homem? Igreja, masculinidade tóxica e teologia de gênero, em tradução livre, Edizioni La Meridiana, 180 páginas, € 16,50), reflete, entre outros temas, sobre o papel e a responsabilidade da Igreja diante dos tantos casos de violência contra a mulher, argumentando que uma educação fortemente androcêntrica não apenas acabou construindo graves preconceitos contra o universo feminino, mas também alimentou e, por vezes, justificou a cultura do abuso

Dio è maschio? Chiesa, maschilità tossica e teologie di genere, de Selene Zorzi. (Edizioni La Meridiana, 2026)

Também nesse caso, o remédio se chama retorno à radicalidade do Evangelho, aliado a uma promoção mais corajosa daquele desenvolvimento doutrinal que desde sempre a Igreja utilizou para enfrentar os desafios de cada época, compreender o Evangelho de forma cada vez mais aprofundada e explicitar todas as suas potencialidades. Também redescobrindo e relançando teorias já argumentadas no passado e que hoje poderiam servir para revitalizar a prática pastoral das nossas comunidades.

Um exemplo disso é o "princípio de pastoralidade" que Luca Lunardon, professor de ética teológica no Instituto Superior de Ciências Religiosas de Vicenza e na Pontifícia Universidade Gregoriana, reexaminou e atualizou em seu livro Incontri che trasformano. Teologia dell’accompagnamento e pratiche di vita (Encontros que transformam. Teologia do acompanhamento e práticas de vida, em tradução livre, Marcianum Press, 244 páginas, € 23; posfácio de Stella Morra).

O esforço corajoso do teólogo visa suscitar diversas linhas de pensamento e novas perspectivas sobre questões como a coabitação, as pessoas LGBT e os casais que buscam a reprodução assistida. Trata-se de situações existenciais hoje amplamente presentes em nossas comunidades e que exigem compreensão, sem intenções de normalização e sem vieses de julgamento.

Nesse caso, o "princípio de pastoralidade" - acolher as pessoas valorizando suas realidades vividas e experiências - com base em sólidas referências ao Concílio Vaticano II, pode se tornar o caminho para renovar os itinerários de acompanhamento, acolhendo "todo limite e diferença (a começar pelos nossos) para nos desarmarmos e construirmos a comunhão com Deus e entre nós mesmos".

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