O Oriente, Lutero, o rei Henrique: mil anos de divisões à sombra do poder. Artigo de Corrado Augias

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02 Julho 2026

Em certo sentido, essas disputas em nome da doutrina são algo bom: demonstram vitalidade.

O artigo é de Corrado Augias, jornalista, escritor italiano e ex-deputado do Parlamento Europeu, em artigo publicado por La Repubblica, 02-07-2026. 

Eis o artigo. 

Ouvimos palavras que ecoam tempos distantes, diferentes dos nossos, quando o peso das questões religiosas era muito maior: cisma, excomunhão. Na realidade, motivações doutrinais e políticas estão entrelaçadas no movimento de Lefebvre, como sempre aconteceu com todos os outros cismas na longa história da Igreja. Certamente, há a reivindicação da restauração da Missa Tridentina em latim (Concílio de Trento, 1545-1563); há a rejeição do diálogo inter-religioso, considerado enganoso em relação à verdadeira fé; há a rejeição substancial das decisões tomadas durante o Concílio Vaticano II. Em certo sentido, as disputas são algo bom; esses movimentos cismáticos, essas lutas em nome da doutrina, de sua interpretação, são um sinal de vitalidade. Podem provocar uma crise, sem dúvida, mas o próprio aparato que acompanha essas cerimônias, essa cenografia, esses trajes suntuosos, esses adereços de cabeça tão incomuns que seriam absurdos se não evocassem uma profunda antiguidade, são o sinal visível de um forte desejo de conservação.

Afinal, os cismas têm acompanhado continuamente a história da Igreja. Lembro-me de um dos menos antigos em ordem cronológica, o cisma anglicano de 1534. Ele surgiu de uma série de razões que, na crença popular, são simplificadas ao desejo do rei Henrique VIII de se divorciar de Catarina de Aragão para se casar com Ana Bolena, por quem se apaixonara e de quem também esperava obter uma linhagem masculina sólida que garantisse o futuro da dinastia. "Divórcio", aliás, é um termo impreciso; o rei estava, na verdade, pedindo ao Papa Clemente VII a anulação do casamento, o que é semelhante ao que acontecia na Itália, com um apelo à Rota Sagrada, até a introdução do divórcio. Foi uma maneira engenhosa de contornar a sacralidade do vínculo matrimonial. Roma recusou, e aqui também as razões são complexas. Após o saque de Roma em 1527, Clemente VII ficou muito vulnerável ao imperador Carlos V, que enviara seus ‘lanzichenecchi’* para devastar Roma. O imperador, sobrinho de Catarina, pressionou para defender sua tia. Anular o casamento, que notoriamente foi consumado, teria sido um ato claramente hostil que era melhor evitar. Em suma, o cisma também ocorreu por razões de conveniência política. Com o Ato de Supremacia (1534), Henrique VIII foi proclamado Chefe Supremo da Igreja da Inglaterra (Anglicana Ecclesia), um título transmissível a todos os seus sucessores. Para nos mantermos em nossos dias, a Rainha Elizabeth II foi Chefe Suprema, assim como seu filho, o atual soberano Charles III, e como Guilherme o será no dia em que ascender ao trono.

Mas o cisma inglês provavelmente não teria ocorrido, ou teria sido mais difícil, se não houvesse na Europa um clima político favorável a tais gestos. Poucos anos antes (31 de outubro de 1517), Lutero havia separado grande parte do norte da Europa e a própria França de Roma. O autor do cisma mais grave do cristianismo foi um agostiniano, assim como o atual Papa Leão XIV. O primeiro iniciou o cisma, Leão lutou para impedi-lo. A história está familiarizada com tais paradoxos.

É claro que existem outros motivos para explicar o que aconteceu na época. Por exemplo, as monarquias nacionais estavam fortalecendo seu poder. Nem mesmo Henrique VIII provavelmente teria ousado tal movimento se não tivesse "pressentido", com sua perspicácia política, que seu povo era amplamente favorável à separação de Roma. Seguiu-se a confiscação de propriedades eclesiásticas, com um certo benefício para os cofres do Estado, mas também vantagens consideráveis ​​para os especuladores mais astutos. A aquisição de propriedades da Igreja contribuiu significativamente para uma remodelação da paisagem rural e urbana da Inglaterra.

Outra página dramática é a que ficou conhecida como o Cisma do Oriente de 1054. Nesse caso, as razões doutrinárias, políticas e de poder estão ainda mais claramente interligadas do que no Cisma Inglês. Aparentemente, essa dramática cisão, que separou a Igreja Católica da Igreja Ortodoxa, está ligada a uma única e simples palavra, “Filioque”, em italiano, “e do Filho”. A questão doutrinária está, na verdade, ligada a uma disputa teológica sobre o Credo, o ato de fé que une os cristãos à sua religião (“Credo in unum Deum…”), um pacto, um vínculo. Na tradição latina, acrescentou-se que o Espírito Santo, a terceira pessoa da Trindade, desce, vem, do Pai e do Filho. O versículo diz: “In Spiritum Sanctum [Credo] qui ex Patre Filioque procedit”. Os orientais objetaram que essa dupla descida poderia gerar o mal-entendido de que na Trindade haveria duas fontes das quais a terceira pessoa provém. De fato, na tradição oriental, o filho desaparece, restando apenas o pai. Mesmo nesse caso, porém, outras razões políticas intervieram, além das puramente doutrinárias. Por exemplo, o peso respectivo que as duas capitais, Roma e Constantinopla, reivindicavam para si. É verdade que os habitantes de Constantinopla se autodenominavam "romanos", mas tinham consciência de que a verdadeira Roma já havia iniciado um declínio que gradualmente apagaria sua antiga glória. Então Constantinopla também caiu (1453), a cidade mudou seu nome para Istambul, mas a antiga disputa permaneceu e, como no caso da Inglaterra, ainda persiste hoje em muitos países do Leste Europeu, incluindo a Rússia.

A história da Igreja é longa, o cisma lefebvriano em breve será apenas uma nota de rodapé.

Nota do IHU

* lanzichenecchi - Soldados de infantaria mercenária alemães que lutaram pelo Sacro Império Romano-Germânico entre o final do século XV e o século XVII. Famosos por suas vestimentas extravagantes e uso de grandes lanças, eles ficaram marcados na história pela extrema violência e pelo histórico Saco de Roma em 1527. O termo deriva do alemão Landsknecht, que se traduz literalmente como "servo da terra" ou "servo da região". Essas tropas foram criadas em 1487 pelo imperador Maximiliano I para combater a hegemonia dos mercenários suíços e eram formadas majoritariamente por camponeses e filhos de famílias nobres arruinadas.

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