O feminino no Vaticano: entre a corte e o escândalo. Artigo de Anderson Barcelos Martins

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02 Julho 2026

"Afinal, não é a presença de mulheres que desestabiliza a estrutura da Igreja. O que desestabiliza é a exposição de que seus mecanismos de poder sempre dependeram de exclusões naturalizadas. O que hoje se nomeia como ruptura é, na verdade, revelação", escreve Anderson Barcelos Martins, filósofo, mestre e doutorando em Educação pela UFRGS.

Eis o artigo.

Há gestos institucionais que, justamente por sua repetição, se tornam quase invisíveis. Entram na rotina do poder, estabilizam expectativas, produzem a impressão de continuidade. Só quando algo os desloca é que revelam sua arquitetura. Foi assim, durante décadas, com a imagem do papa recebendo a arcebispa da Cantuária: um rito diplomático, discreto, quase automático, inscrito na gramática de reconhecimento mútuo entre Roma e a Comunhão Anglicana.

Eu me recordo de vê-lo ao final do pontificado de João Paulo II, quando o velho papa polonês acolhia Rowan Williams. Bento XVI deu sequência ao gesto. Francisco o reiterou ao receber Justin Welby. O que parecia apenas protocolo era, na verdade, um sinal de estabilidade institucional. Um modo de dizer que o diálogo ecumênico entre católicos e anglicanos havia se tornado parte da paisagem.

Esse quadro começou a se deslocar em 2026, quando Leão XIV recebeu Sarah Mullally, recém-empossada como arcebispa da Cantuária, a primeira mulher a ocupar o cargo. O gesto foi o mesmo. O protocolo, idêntico. A reação, porém, foi inteiramente distinta.

Nas redes sociais, o encontro provocou uma onda de repúdio incomum. Nem Bento XVI, já sob a órbita crescente da cultura digital, nem Francisco, plenamente exposto a ela, enfrentaram reação semelhante ao acolher líderes anglicanos. Isso pede uma leitura mais atenta. Não estamos diante de uma crise do diálogo intereclesial. O que aparece, de modo mais profundo, é a persistência de um machismo estrutural que atravessa não apenas a Igreja, mas o imaginário religioso contemporâneo.

O incômodo não parece ter sido o encontro em si. O escândalo não está no gesto diplomático e ecumênico. Está no feminino. O que desestabiliza não é a presença de uma liderança anglicana em Roma, mas o fato de essa liderança ser exercida por uma mulher.

Rita Laura Segato, ao pensar a violência de gênero como linguagem de poder, mostra como o corpo feminino foi historicamente convertido em território de inscrição de hierarquias. A exclusão, nesse caso, não opera apenas pela interdição direta, ela se manifesta também como disciplina, como delimitação silenciosa de quem pode ocupar o espaço público, em que condições e sob quais mediações. Quando uma mulher alcança um lugar de autoridade simbólica, sobretudo em instituições fortemente hierarquizadas, a reação raramente é apenas teológica. Muitas vezes, ela é disciplinadora.

É nesse registro que a recepção negativa ao encontro entre Leão XIV e Sarah Mullally pode ser compreendida: menos como resistência doutrinária e mais como tentativa de reterritorialização do poder. Em outras palavras, uma forma de reafirmar, ainda que de maneira difusa, que certos espaços não foram historicamente pensados para corpos femininos em posição de comando.

O papel da mulher no cristianismo tem sido tensionado publicamente e hoje isso se amplifica no tribunal difuso da internet, onde convicções teológicas, ressentimentos culturais e ignorâncias históricas se misturam sem mediação. Ainda assim, ou talvez justamente por isso, movimentos institucionais concretos dentro da Igreja Católica não podem ser ignorados.

As mulheres na corte vaticana

A ampliação da presença feminina na Cúria Romana é um desses movimentos. Recentemente, em 30 de junho de 2026, Leão XIV nomeou a irmã Alessandra Smerilli, de 51 anos, para chefiar o Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral. Não se trata de um gesto isolado. Ele se inscreve em uma sequência mais ampla. Francisco havia nomeado irmã Simona Brambilla, de 61 anos, para liderar o Dicastério para os Institutos de Vida Consagrada. No mesmo ano, irmã Raffaella Petrini, de 57, assumiu funções centrais na governança do Estado da Cidade do Vaticano. Em 2026, Maria Montserrat Alvarado, de 36 anos, tornou-se a primeira leiga a administrar um dicastério, à frente da Comunicação.

Os dicastérios constituem o núcleo administrativo da Santa . São os organismos responsáveis por áreas específicas da vida da Igreja e do Estado da Cidade do Vaticano, desempenhando funções análogas às de ministérios em governos civis. É justamente nesse nível, o da gestão concreta do poder, que as nomeações femininas têm produzido reação.

Para alguns, essas mudanças representariam um risco institucional, como se a presença de mulheres na condução de órgãos curiais implicasse, por si só, um enfraquecimento do Colégio de Cardeais. Mas essa leitura revela menos um diagnóstico consistente do que um equívoco estrutural sobre a própria Igreja e sobre a função específica do colegiado cardinalício. Confunde-se administração com aconselhamento, governo com eleição, gestão com autoridade última.

A Cúria Romana não pode ser entendida apenas como uma engrenagem burocrática. Ela opera segundo uma racionalidade histórica mais profunda: a lógica da corte. O papa, gostemos ou não da formulação, permanece como o último monarca a sustentar uma estrutura desse tipo no mundo contemporâneo. E toda corte carrega consigo um risco antigo e conhecido: o fechamento, a autorreferencialidade, a concentração de influência em circuitos restritos.

Se o papa se vincula excessivamente a essa lógica, sua condição de pastor universal tende a ser tensionada. Não por fraqueza pessoal, mas por desenho institucional. A proximidade contínua com um círculo estreito de conselheiros produz filtros, mediações e, no limite, distorções.

É nesse ponto que se impõe a pergunta fundamental: qual é, afinal, a função primordial do Colégio Cardinalício? A resposta é simples e conhecida, embora frequentemente esquecida: aconselhar e eleger o papa. Nenhuma dessas tarefas exige pertença à Cúria. Ao contrário, uma concentração excessiva de cardeais curiais pode produzir assimetrias de poder que enfraquecem a própria ideia de universalidade eclesial.

É justamente nesse rearranjo que a presença feminina adquire um sentido que vai além da representatividade. Ela pode ser lida como fissura na gramática tradicional do poder. Ao deslocar expectativas, tensionar estruturas e reconfigurar lugares de autoridade, o feminino não apenas ocupa espaços: ele intervém na maneira como esses espaços são produzidos, legitimados e reconhecidos.

Delineia-se, então, uma distinção cada vez mais nítida. De um lado, a necessidade de administradores competentes para a Cúria, capazes de operar a complexa máquina institucional da Igreja e de assegurar as condições para que o papa exerça, com eficácia, seu poder temporal como chefe de Estado. De outro, a necessidade de conselheiros verdadeiramente universais, cuja experiência não se restrinja aos corredores do Vaticano, mas se enraíze nas múltiplas realidades do catolicismo global. Só assim o pontífice pode exercer, de modo efetivo, sua vocação de pastor universal no plano espiritual.

Talvez seja isso, em última instância, o que produz tanto ruído. Não o encontro entre Roma e Cantuária. Não as nomeações femininas. Mas a lenta e irreversível transformação de uma instituição que, ao mesmo tempo em que preserva sua tradição, já não consegue impedir que novas formas de presença reescrevam seus códigos mais antigos.

Afinal, não é a presença de mulheres que desestabiliza a estrutura da Igreja. O que desestabiliza é a exposição de que seus mecanismos de poder sempre dependeram de exclusões naturalizadas. O que hoje se nomeia como ruptura é, na verdade, revelação.

No fundo, quem busca a manutenção do status quo, não trata apenas de defender a tradição, mas de preservar uma forma específica de controle sobre quem pode falar, decidir e representar. Entre a corte e o escândalo, o que está em jogo não é uma simples escolha institucional, mas um deslocamento histórico. E deslocamentos dessa natureza não fazem barulho porque são novos, fazem barulho porque tornam o antigo insustentável

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