A colonização do juízo. Artigo de Paolo Benanti e Sebastiano Maffettone

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15 Junho 2026

 "Se o que está em jogo é a estrutura do conhecimento e sua legitimidade — e, portanto, a capacidade dos sujeitos de formar juízos autônomos sobre o mundo — então o projeto de Thiel e Karp não é simplesmente uma tentativa de conquistar posições de poder econômico ou político. Em vez disso, visa redefinir as condições sob as quais o próprio pensamento se torna possível ou impossível", escrevem Paolo Benanti e Sebastiano Maffettone, em artigo publicado por Corriere della Sera, 13-06-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Paolo Benanti é frade franciscano italiano, téologo e especialista em revolução digital. É reconhecido por ter sido o principal consultor do Papa Francisco sobre a ética da Inteligência Artificial (IA) e da tecnologia.

Sebastiano Maffettone é filósofo italiano e professor de Filosofia Política na Universidade LUISS Guido Carli.

Eis o artigo.

As revoluções tecnológicas conduzem sempre a uma reescrita dos critérios dos quais depende a credibilidade do conhecimento. Termos como verdade, realidade, universalidade e objetividade tendem, consequentemente, a perder o seu valor tradicional. Vimos um princípio desse tipo se afirmar durante aquele período cultural que denominamos pós-moderno, que Gianni Vattimo considerava a koiné hermenêutica do nosso tempo. Se refletirmos, o pós-modernismo questionou a própria legitimidade do conhecimento nas formas e maneiras como era transmitido.

A revolução tecnológica inerente a ele foi a revolução digital, que do ponto de vista intelectual precede em muito o momento em que começamos a interagir com ela na prática. A teoria dos autômatos de von Neumann e a cibernética de Wiener, na década de 1940, já são uma evidência madura disso. O pós-moderno nos diz que a questão da legitimidade do conhecimento é, em última análise, política.

Gradualmente, a política real está começando a dar-se conta. As campanhas eleitorais de Obama e o escândalo da Cambridge Analytica são testemunho disso. Mas talvez o significado político do mundo digital manifestou toda sua evidência imediatamente após a primeira eleição de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos, em 2016.  Logo após a eleição, de fato, Trump convocou — por sugestão de Peter Thiel — uma cúpula com os líderes mais importantes da indústria de tecnologia. Todos os grandes nomes do Vale do Silício estavam presentes: Jeff Bezos, Elon Musk, Tim Cook, Sheryl Sandberg, Larry Page, Eric Schmidt e Satya Nadella.

Um encontro assim concebido evidenciava a profunda transformação da indústria estadunidense. Não estavam mais presentes os gigantes da indústria automobilística, como General Motors, Chrysler e Ford, em seu lugar estavam os gigantes do mundo digital. A mudança em questão correspondia a uma transformação da realidade.

O que mais havia mudado, porém, era a atitude cultural e política dos empreendedores. Eles não se contentavam mais, como no passado, em propor rumos econômicos para a política do país. Queriam liderá-la diretamente. Isso fica evidente, entre outras coisas, pelos escritos dos mais intelectuais entre os líderes da indústria informática, como Peter Thiel e Alexander Karp. Eles levam surpreendentemente a sério a vertente humanista para tentar tornar hegemônico o poder digital. Há algum tempo, as humanidades digitais vêm sendo assoladas por um fundamentalismo tecnológico que suscita preocupações alarmantes.

Os sinais de alerta já eram evidentes com o lançamento de "The Technological Republic", de Karp e Zamiska. Karp é um empreendedor bilionário estadunidense com sólida formação clássica, CEO da Palantir Technologies (empresa que fornece suporte de software para a defesa dos EUA), e Zamiska é executivo da mesma empresa. Karp foi um dos fundadores da empresa, juntamente com o mais conhecido Peter Thiel. O mais notável, porém, é o conteúdo da obra. Trata-se de uma espécie de manifesto político de dois homens do Vale do Silício que enxergam o futuro em termos de governo tecnológico, como sugere o título do livro.

Mas — e aqui está a surpresa — não se trata da costumeira engenharia social no comando. Em vez disso, a tecnologia deve incorporar uma espécie de humanismo, em que o hard power das máquinas se funde com as convicções culturais para moldar nada menos que o futuro do Ocidente (como afirma o subtítulo, "Hard Power, Soft Belief and the Future of the West "). Essa mesma utopia tecnológica está sendo agora relançada por um dos grandes protagonistas do turbocapitalismo digital, Peter Thiel, criador do PayPal e fundador da própria Palantir. Com uma diferença fundamental e surpreendente: enquanto Karp e Zamiska propõem uma visão política inspirada na tecnologia, Thiel almeja algo maior.

E — num seu recente artigo publicado na revista First Things — ele se aventura no que poderíamos chamar de teologia científica. Vale lembrar que Karp e Thiel foram ambos alunos de Stanford e, nessa universidade, ficaram fascinados pelo grande místico René Girard. Karp também estudou por muito tempo na Alemanha, obtendo um doutorado com um grupo de pesquisa em teoria crítica originalmente coordenado por Jürgen Habermas.

Resumindo, tudo pode ser dito sobre Thiel e Karp, mas não se pode negar que eles pensam não apenas à sombra de enormes capitais, mas também de sólidas bases intelectuais e culturais. Que permitem que eles questionem a legitimidade do conhecimento e, em última instância, o significado do conhecimento. Essa legitimidade do conhecimento — nos sugeriram os pós-modernos — é de natureza política. E, portanto, constitui um pressuposto interessante para uma constituição da hegemonia.

Mas há mais. Se o que está em jogo é a estrutura do conhecimento e sua legitimidade — e, portanto, a capacidade dos sujeitos de formar juízos autônomos sobre o mundo — então o projeto de Thiel e Karp não é simplesmente uma tentativa de conquistar posições de poder econômico ou político. Em vez disso, visa redefinir as condições sob as quais o próprio pensamento se torna possível ou impossível. Hannah Arendt nos ensinou que o colapso da faculdade de julgar não requer necessariamente a coerção: também pode ocorrer por meio da substituição silenciosa da deliberação pela pura elaboração de dados.

É o que chamamos em outro contexto de banalidade algorítmica — não a maldade de um sistema, mas sua indiferença estrutural em relação ao ato de pensar, a sua tendência a fornecer respostas quando seria necessário, em vez disso, saber formular perguntas. Dessa perspectiva, o verdadeiro objetivo do projeto tecno-humanista não é tanto a hegemonia sobre mercados ou governos, mas sim a colonização do interior: aquela capacidade de questionar a si mesmos, de habitar a incerteza sem dissolvê-la prematuramente, que constitui o núcleo irredutível de toda experiência democrática digna desse nome.

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