17 Junho 2026
“A nova cultura da ação coletiva, que coloca no centro os territórios e os povos que os habitam, gira em torno do autogoverno territorial e da defesa de seus espaços, formas que chamamos de autonomia”, escreve Raúl Zibechi, jornalista e analista político uruguaio, em artigo publicado por La Jornada, 12-06-2026.
Segundo ele, "uma questão difícil de resolver, na qual pouco avançamos, é como as duas culturas podem se relacionar: a do trabalho assalariado e a do território; a que olha para o Estado e a que constrói autonomias".
"Estou convencido de que as autonomias são o melhor modo de defender a vida, - escreve Zibechi - mas também compreendo que para as populações urbanas é um desafio tão grande que parece inalcançável".
Eis o artigo.
Durante boa parte do século XX, mas também em uma porção do século anterior, os capitalistas se empenharam em obter trabalhadores, em particular qualificados, para poder explorá-los e aumentar sua riqueza. O centro da vida econômica girava em torno do trabalho assalariado. Os empregados se constituíram como classe por meio de conflitos com os capitalistas e o Estado, construindo sindicatos e partidos para disputar o poder político.
Com a “revolução mundial de 1968” (Wallerstein), o capital se sentiu encurralado e começou a desmantelar os complexos fabris tradicionais, deslocando fábricas para a China e para a Ásia, e automatizando as plantas de produção para, em seguida, robotizá-las, evitando dessa forma a presença incômoda dos operários. O núcleo da acumulação se deslocou do capital produtivo para o capital especulativo.
A acumulação por espoliação ou roubo (Harvey) passou a ser mais importante do que a reprodução ampliada do capital (Marx), que nunca desapareceu, mas deixou de ser o núcleo do enriquecimento capitalista no Ocidente. Em paralelo, mas como parte de um mesmo processo, o capital mais concentrado passou a monopolizar o poder político, tomando por assalto os Estados-nação para fazer deles um escudo de seus interesses. As chamadas liberdades democráticas se tornam cada vez mais restritas, quando ainda existem.
Com essas mudanças, surgem também novos desafios para as pessoas oprimidas e exploradas no mundo. O mais importante é que a cultura da ação coletiva do período de hegemonia industrial (sempre no Ocidente) já não se mostrava suficiente e nem útil no período da espoliação. A centralidade que tiveram as fábricas, o salário e as relações com o Estado (da confrontação à negociação) passou a ocupar um lugar muito menos relevante na vida real.
Entretanto, não ocorreu o mesmo na consciência coletiva, de modo que o mundo do trabalho continuou operando praticamente da mesma forma. Isso é algo habitual na história social, uma vez que a cultura em geral - e a cultura política em particular - evolui muito mais lentamente do que as relações sociais. Embora as artes costumem antecipar o que está por vir e preservem o fio da crítica, a potência criativa costuma ser esmagada pela insistente hostilidade dos grandes meios de comunicação e pela mercantilização das manifestações artísticas, de maneira que a criatividade acaba submetida ao mercado ou sufocada nas margens.
Pouco a pouco, os povos foram descobrindo que a mutação capitalista transformou os territórios no centro da acumulação, por meio da espoliação. Os anos 1990 foram decisivos, com o avanço do neoliberalismo que gerou ondas sísmicas que reorganizaram completamente as indústrias e o mundo do trabalho.
Nesses mesmos anos, houve uma mudança profunda no próprio conceito de território, que deixou de ser apenas o espaço onde se assenta o monopólio da violência legítima (Weber), para dar lugar a uma diversidade de territórios dentro do próprio Estado-nação. O que há de verdadeiramente novo é o papel dos povos que habitam esses territórios: povos indígenas, populações negras e camponesas, principalmente, ainda que as periferias urbanas tenham começado a desempenhar um papel destacado.
A acumulação por espoliação implica deslocar populações para reordenar os territórios em benefício do capital (subcomandante Marcos), o que, na realidade, torna visíveis os sujeitos coletivos que neles se assentam. Embora eu não queira cair em um determinismo simplificador, penso que a transformação do capitalismo e do Estado e a emergência de novos sujeitos coletivos estão na base da ascensão de uma nova cultura política que também começou a ganhar forma nos anos 1990.
Essa nova cultura da ação coletiva, que coloca no centro os territórios e os povos que os habitam, gira em torno do autogoverno territorial e da defesa de seus espaços, formas que chamamos de autonomia. Não é por acaso que as autonomias levantem voo em todo o continente justamente quando a espoliação se intensifica, pois para os povos é o melhor modo de defender o território e a vida.
Os problemas de novo tipo que vão surgindo são: como se defender melhor diante da violência militar-narco-paramilitar que converge para facilitar a espoliação; como e de que maneiras construir o novo nos próprios territórios para que não seja cópia do velho. São grandes debates. Uma questão difícil de resolver, na qual pouco avançamos, é como as duas culturas podem se relacionar: a do trabalho assalariado e a do território; a que olha para o Estado e a que constrói autonomias.
É possível que apenas uma dessas duas culturas não seja suficiente para frear o capitalismo, razão pela qual parece necessário construir pontes e, com sorte, irmanar-se. Estou convencido de que as autonomias são o melhor modo de defender a vida, mas também compreendo que para as populações urbanas é um desafio tão grande que parece inalcançável.
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