Lembrar Edgar Morin. A guerra do bem é o mal. Artigo de Enrico Peyretti

Edgar Morin (Foto: Wikimedia Commons)

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03 Junho 2026

"Para MorinPutin é um déspota capaz de realismo: contrapartidas podem ser encontradas para a paz. É necessário, porque a guerra traz crises ecológica, econômica, civilizacional, e 'crise de pensamento, incapaz de pensar a crise'. Em seis anos, os seres humanos à beira da carestia quadruplicaram. Morin dizia alguns anos atrás: existe "evolução involutiva" da humanidade e 'ciência sem consciência' ", escreve Enrico Peyretti, teólogo, ativista italiano, padre casado e ex-presidente da Federação Universitária Católica Italiana (Fuci), em artigo publicado por Il Foglio, 31-05-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Nesta obra concisa e densa como um relâmpago, Edgar Morin, 102 anos em 2023 e que morreu em 29 de maio passado aos 104, filósofo da complexidade, confessa que, quando jovem, não compreendeu imediatamente que "a guerra do Bem comporta em si o Mal ". Mas hoje isso é claro. Os bombardeios maciços aliados contra milhares de civis na guerra contra Hitler são crimes de guerra sistêmicos, não ocasionais, cometidos pelas democracias. E acobertados, assim como os crimes do stalinismo. Assim - continua Morin - toda guerra espalha rios de sangue humano por resultados poluídos de crimes. Na Ucrânia, a espiral de ódios entre agressor e agredido só pode trazer um mal pior. Nossos meios de comunicação silenciam sobre o outro imperialismo, apenas apontam para aquele russo. Histeria, mentiras, criminalizações são em todos os lugares a alma das guerras, todas, msmo as nossas: Argélia, Iugoslávia, Palestina, ... Crimes que produzem contra-crimes”.

De guerre en guerre: De 1940 à l'Ukraine

Basta consultar, no livro, o conceito de "ecologia da ação": um jogo de interações que modifica seu sentido. Erros e ilusões têm um peso determinante. A "sociedade do conhecimento" ignora que, desde 1945, o mundo não é mais aquele de antes. Os EUA são uma democracia desde a origem e a Rússia é uma potência despótica, mas sua história paralela mostra muitas semelhanças (pp. 67-71). Gorbachev foi um "herói da humanidade", daquela "casa comum" que é a Terra para todos os humanos. Bush prometeu apenas verbalmente que não alargaria a OTAN, cujas bases, em vez disso, "cercaram" a Rússia”. As bombas dos EUA na Sérvia aumentaram as inquietações. Violaram o direito internacional tanto os EUA com a ofensiva "preventiva" no Iraque em 2003, como agora a Rússia invadindo a Ucrânia. Em 2014, desde a sangrenta revolução pró-ocidental de Maidan, começaram tanto as invasões russas quanto a guerra interna ucraniana contra os separatistas. Houve tanto a imposição russa dos kolkhoz quanto a carestia forçada de 1931, tanto a colaboração com a invasão nazista de forças ucranianas, minoritárias, lideradas por Bandera, que exterminaram 30.000 judeus. Depois de Maidan, em Kiev, 2014, a avenida Rússia passou a se chamar avenida Bandera, e fatos semelhantes em várias partes da Ucrânia. Quando a presente guerra estourou, se alistaram para a Ucrânia voluntários de dois tipos: democratas e fascistas. O comando do regimento Azov é de nacional-socialistas.

A Rússia é o agressor, os EUA inspiram a política ucraniana depois de Maidan. A Ucrânia é uma presa geopolítica entre dois titãs: a Rússia, para manter o domínio sobre o mundo eslavo, os EUA, para enfraquecer, como declararam, a Rússia, um obstáculo à sua hegemonia planetária. A Ucrânia se ocidentalizou, na Rússia a economia é uma casta de oligarcas, com corrupção generalizada. Os conflitos internos na Ucrânia não foram apenas entre pró-ocidentais e pró-russos, mas também entre imperialismo estadunidense e imperialismo russo. Os acordos de Minsk de 2015 não foram respeitados, nem pela Ucrânia nem pela Rússia, e a guerra do Donbass causou 14.000 mortes, até 2022: é um “abscesso purulento”.

Hoje, a histeria hipernacionalista também bane toda a arte russa na Ucrânia, como aconteceu da Alemanha nazista. A independência ucraniana deve ser apoiada, mas Zelensky só quer a vitória, que vá enfraquecer a Rússia. “Há três guerras numa só”: a guerra ucraniana interna, aquela da Rússia, aquela do Ocidente contra a Rússia. Patriotismo e ódio pelo inimigo integram a unidade ucraniana. Putin queria tomar rapidamente Kiev, teve que se contentar com o Donbass e o Sul. A "guerra internacional interna à Ucrânia" se espalhará para a Europa e além? A nova perigosa crise mundial favorece a crise das democracias. Rússia e China fazem um bloco contra os EUA. Numa situação tão perigosa, tão pouca consciência, vontade e vozes pela paz se levantam na Europa! Para Morin, Putin é um déspota capaz de realismo: contrapartidas podem ser encontradas para a paz. É necessário, porque a guerra traz crises ecológica, econômica, civilizacional, e “crise de pensamento, incapaz de pensar a crise”. Em seis anos, os seres humanos à beira da carestia quadruplicaram. Morin dizia alguns anos atrás: existe "evolução involutiva" da humanidade e "ciência sem consciência".

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