"Homenagear Morin hoje é, portanto, assumir o compromisso de ampliar nossa consciência, praticando uma ciência com consciência e uma educação que não formate, mas que ajude cada ser humano a realizar sua vocação de homo complexus em um mundo em perene complexidade. Morin, presente!", escreve Elvis Rezende Messias, em artigo enviado ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
Elvis Rezende Messias é professor-pesquisador da UEMG-Campanha, doutor em Educação pela UNINOVE, mestre em Educação pela UNIFAL, especialista em Doutrina Social da Igreja pela PUC Goiás, especialista em Ensino de Filosofia pelos Claretianos, licenciado em Filosofia pela UEMG-Campanha, bacharel em Teologia pela UCDB e assessor diocesano do Movimento Fé e Política na Diocese da Campanha. É pesquisador do GRUPEFE (CNPq, UNINOVE).
Idealizador do chamado pensamento complexo, o pensador francês Edgar Morin terminou sua jornada existencial, mas nos deixou uma vasta e inesgotável obra. Com esse breve texto, rendo minha singela homenagem a esse complexo intelectual de nossos tempos, que faleceu aos 29 de maio de 2026, a menos de dois meses de completar 105 anos. Na verdade, em sua partida há uma marcante permanência, uma ocasião complexa para que a sua obra seja (re)descoberta e (re)aprofundada como um legado vivo iluminando nosso pensamento e nossas ações na complexidade do mundo em que vivemos!
Morin e sua obra nos propõem a necessidade de uma reforma do pensamento para a formação de uma cabeça bem-feita como condição indispensável para uma reforma da educação que responda aos desafios da atual era planetária (Morin, 2021a). Vivemos tempos em que somos constantemente bombardeados pelo excesso de formação e por um intenso avanço das descobertas e das inovações técnico-científicas. Mas, estranhamente, vamos nos afundando em novas formas de extremismos, guerras, artificialização do pensamento e naturalização da barbárie. Vemos uma louvável expansão do conhecimento humano, mas carente de interligações entre esses diversos saberes e de apelo ético. Nossa cabeça está sempre cheia, mas não significa que está apta a problematizar e bem organizar os saberes de que dispõe nem de que saiba transformá-los em bem-viver. Que sabores têm os nossos saberes?
Dito de outro modo, o pensamento moriniano é crítico à fragmentação e à hiperespecialização do saber, já que essas realidades epistemológicas isolam os objetos de seus contextos e tornam invisíveis as interações entre as partes e o todo. Em contrapartida, conforme acenado no parágrafo anterior, Morin defende a formação de uma cabeça bem-feita, significando que o conhecimento não deve ser meramente acumulado de forma inerte (cabeça bem cheia), mas organizado de maneira a gerar em nós a aptidão para problematizar a realidade e a religar os saberes que adquirimos, em vista de possibilitar, em nós, a compreensão da condição complexa do real.
Desse modo, uma das principais finalidades do ensino, para Morin, está em cultivar uma cultura que favoreça a contextualização, a globalização e a inteligência estratégica para enfrentar com esperança e humanismo as incertezas crescentes do mundo complexo no qual vivemos. No cerne dessa proposta, reside o que se pode chamar de epistemologia da complexidade, compreensão de que o real é um tecido de fios inseparáveis e intimamente entretecidos (complexus: o que é tecido junto). Para o desenvolvimento, em nós, dessa epistemologia complexa, Morin identifica diversos operadores cognitivos, dos quais destaco fundamentalmente três:
Essa lógica complexa rompe com o paradigma da simplificação, que é baseado na disjunção e na redução, e exige que, em nossa vida como um todo, exercitemos uma racionalidade aberta, que é aquela capaz de dialogar com o irracional, o afetivo, o imprevisto, o incerto... A perspectiva é a de que tal lógica complexa possibilite a superação das racionalizações fechadas da ciência clássica que tendem a ignorar ou a relegar como ilógico aquilo que não é quantificável.
Daí que, enquanto a racionalidade aberta reconhece seus próprios limites e dialoga com a complexidade não linear e nem sempre lógica do real, Morin nos alerta para o perigo da racionalização (que tenta prender a realidade em sistemas fechados que impõem, forçadamente, uma “coerência” entre o mundo observado a partir de um aspecto e a explicação universalizante que se faz sobre ele) e o perigo do racionalismo (que considera irracional e irreal aquilo que não se consegue explicar, inicialmente, pelos princípios racionais fechados, perdendo a capacidade de acolher a incerteza e o mistério, bem como reduzindo o complexo à simplificação racionalizadora).
Por isso, o seu método não deve ser confundido com uma metodologia ou programa rígido. Antes, método é estratégia, ajuda à caminhada e arte da inteligência complexa, construído abertamente no próprio ato de pesquisar: caminho que não é prévio, mas que se faz ao caminhar.
Outra grande consequência educacional do pensamento complexo aparece aí, pois a reflexão moriniana expande-se para a necessidade de transdisciplinaridade, que entrevê a conexão de conhecimentos diferentes e busca o trânsito entre, através e para além das disciplinas (Rodrigues, 2006), promovendo o que Morin chama de ciência com consciência (Morin, 2021b). Isso não significa que seja ruim o conhecimento promovido pelas disciplinas e suas especializações, mas enfatiza que o conhecimento científico por nós produzido pouco conhece a si mesmo (conhecimento do conhecimento) e gera um saber parcial que corre o risco de se pretender total. Ou seja, a transdisciplinaridade não anula as disciplinas, mas as faz comunicar, reconhecendo a multidimensionalidade do real, que é simultaneamente biológico, psíquico, social, afetivo, racional etc. O problema, então, não é a Biologia, mas o biologismo; não é a Sociologia, mas o sociologismo; não é a Antropologia, mas o antropologismo; não é a Ciência, mas o cientificismo.
Isso nos remete à antropologia moriniana, que é uma eco-socio-bio-físico-antropologia complexa. Morin nos apresenta o duplo enraizamento humano: somos seres biofísicos, filhos e filhas do cosmo e da evolução biológica (somos imago mundi), mas também somos seres psicossocioculturais, definidos pela linguagem e pela noosfera (o mundo das ideias). E essa condição complexa é regida por dois princípios fundamentais da nossa condição de sujeitos: o princípio de exclusão (a identidade única do “Eu”, sua egocentricidade: ninguém pode dizer “Eu” no lugar do outro) e o princípio de inclusão (a capacidade de inscrever um “Nós” no centro de nosso mundo egocêntrico), o que fundamenta sua defesa de uma fraternidade aberta e de uma identidade terrena, pois temos uma autonomia vital que é também dependente da sociedade e da biosfera.
Esse movimento é intrínseco à proposta educacional de uma interculturalidade complexa (Messias, 2023; Messias, 2026), que reconhece a unidade do múltiplo e a multiplicidade do uno como base para uma ciência complexa e uma convivência planetária. Morin argumenta que a diversidade das culturas não deve mascarar a unidade da espécie humana, assim como a unidade biológica não deve apagar a singularidade cultural. Em suas palavras:
“A diáspora da humanidade a partir dos tempos pré-históricos não produziu cisão genética durante 100 mil anos ou mais. Pigmeus, negros, amarelos, índios, brancos remetem à mesma espécie, dispõem dos mesmos caracteres fundamentais; mas a diáspora permitiu a expressão da diversidade; a variedade de indivíduos, de espíritos, de culturas, tornou-se fonte de inovações e de criações em todos os campos. O tesouro da humanidade está na diversidade criadora, mas a fonte de sua criatividade está na sua unidade geradora” (Morin, 2012, p. 66).
Como se pode ver, para Morin, o tesouro da humanidade reside em sua diversidade criadora, exigindo uma ciência complexa, uma educação que promova a solidariedade e uma cultura da compreensão mútua como antídotos à barbárie e à colonialidade cultural que ainda subalternizam saberes ancestrais. Religar saberes pressupõe também religar culturas; interculturalidade exige intersaber, respeitosa, crítica e complexamente.
Nesse sentido, a educação complexa proposta por Morin sugere uma síntese de sete saberes necessários (Morin, 2011):
Esses saberes não são propriamente sete novas disciplinas que devem se tornar obrigatórias nas escolas e universidades, mas problemas fundamentais que devem perpassar nossos estudos e nossa vida diariamente. Temos aí uma visão educacional que clama por uma pedagogia da compreensão humana — antídoto contra o ódio e o desprezo — e pela unificação das culturas científica e das Humanidades. O propósito central desses saberes não é a formação de especialistas isolados, mas de cidadãos e cidadãs conscientes de suas limitações e também de algumas de suas potencialidades, como da tríade indivíduo-sociedade-espécie que somos e que nos torna homo complexus, em vista de, coerentemente, nos colocarmos sempre em busca de conhecimento complexo.
O pensamento complexo visa, assim, reconsiderar a própria questão epistemológica e também gnosiológica, revisita a teoria do conhecimento, afronta o cânone dogmatizante e policialesco da ciência clássica, (re)conquista a importância da pesquisa qualitativa, questiona o trono do quantitativismo, com a perspectiva de superar a disjunção pela conexão e a redução pelo complexo. Mais diretamente, então, oferece para a educação um elenco de sugestões, tendo em vista uma vivência formativa que (Messias et al, 2023):
Em síntese, a educação complexa orbita a compreensão de que educar é um processo exigente, armando o sujeito para o combate vital pela lucidez e ensinando-o a navegar em um mar de incertezas através de pequenos arquipélagos de certezas. Trata-se, assim, de uma aposta na regeneração das relações humanas, unindo o saber prosaico ao saber/sabor poético, para que o conhecimento seja um instrumento de humanização e de abertura para a poesia da vida, integrando razão, paixão e afetos, sujeito e objeto, indivíduo, sociedade e espécie, cérebro, cultura e espírito, em busca de um autêntico bem-viver com os outros no mundo.
Homenagear Morin hoje é, portanto, assumir o compromisso de ampliar nossa consciência, praticando uma ciência com consciência e uma educação que não formate, mas que ajude cada ser humano a realizar sua vocação de homo complexus em um mundo em perene complexidade. Morin, presente!
MESSIAS, Elvis Rezende. Interculturalidade complexa: uma proposta de reflexão. Educação & Linguagem, São Paulo, v. 26, n. 2, p. 53-82, jul.-dez., 2023.
MESSIAS, Elvis Rezende. Pedagogia desnorteada: (de)colonialidade cultural e interculturalidade na formação filosófico-educacional brasileira. Curitiba, Appris, 2026.
MESSIAS, Elvis Rezende; SEVERINO, Antônio Joaquim; MANCILHA, Mariana Silva; PETRAGLIA, Izabel. Epistemologia da complexidade e transdisciplinaridade: uma introdução. Educação & Linguagem, São Paulo, v. 26, n. 1, p. 5-29, jan.-jun., 2023
MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. 2. ed. rev. Tradução de Catarina E. F. da Silva e Jeanne Sawaya. São Paulo: Cortez; Brasília: UNESCO, 2011
MORIN, Edgar. O método 5: humanidade da humanidade. 5. ed. Tradução de Juremir Machado da Silva. Porto Alegre: Sulina, 2012.
MORIN, Edgar. A cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. 26. ed. Tradução de Eloá Jacobina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2021a.
MORIN, Edgar. Ciência com consciência. 20. ed. rev. e amp. Tradução de Maria D. Alexandre e Maria Alice Araripe Sampaio Doria. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2021b.
RODRIGUES, Maria Lúcia. Metodologia multidimensional e Ciências Humanas: um ensaio a partir do pensamento de Edgar Morin. In: RODRIGUES, M. L. LIMENA, M. M. M. (org.). Metodologias multidimensionais em Ciências Humanas. Brasília: Liberlivro, 2006.