03 Junho 2026
Em poucas palavras: o problema não é antes de mais nada a Sacrosanctum Concilium ou a Lumen Gentium, mas a Gaudium et Spes e a Nostra Aetate! E é sobre este ponto que deveríamos argumentar para discernir que manobras são possíveis e quais, ao contrário, absolutamente excluídas.
O artigo é de Andrea Grillo, teólogo italiano e professor do Pontifício Ateneu Santo Anselmo, publicado no blog Come se non, 1-06-2026.
Após a publicação do debate com Enzo Bianchi, e já antes das avaliações de algumas autoridades sobre a liturgia do monaquismo na Europa e no mundo, um útil aprofundamento pode vir desta carta, que recebi de Frei Michael-Davide de Novalesa. A relação entre vida monástica e forma litúrgica me parece um plano de grande interesse, para avaliar de que modo somos herdeiros do Concílio Vaticano II e até que ponto podemos arriscar minimizar o impacto de algumas escolhas rituais e institucionais. Parece-me importante fazer entrar esta carta no âmbito do justo debate que se abriu na Igreja Católica com o início do Pontificado de Leão XIV. Agradeço de coração a Frei Michael-Davide por ter aceito que este seu texto pudesse ser publicado. (ag)
Novalesa, 31 de Maio de 2026
Caro Andrea,
Sigo habitualmente o que escreves e, em particular, estou acompanhando o teu diálogo com Enzo Bianchi. Na tua última carta, lamentas uma certa ausência de participação no debate e imagino que te surpreendas com o silêncio dos monges beneditinos a esse respeito.
Na realidade, há alguns meses, reeditando, após 10 anos, pela San Paolo o meu texto sobre os desafios da vida consagrada — Non perfetti, ma felici — acrescentei entre outras coisas um capítulo precisamente sobre a questão dos nossos irmãos do Vetus Ordo.
Fico feliz em dizer-te que concordo inteiramente com as tuas análises, avaliações e conclusões. Não concordo, porém, com a linha tomada por Enzo Bianchi, que me parece cair na armadilha da minimização — aliás apenas aparente — como a do Abade Pateau.
No último Congresso dos Abades (2024), a questão foi de fato abordada quando se tratou de admitir na Ordem o mosteiro de La Garde, fundado pelo Barroux. Na discussão, mais longa do que o previsto, a certa altura interveio o Abade Luc, de La Pierre-qui-Vire. Com efeito, muitos abades de outras Congregações não conseguiam entender como é que os monges "do Barroux", que se professam filhos do P. Muard — fundador de La Pierre-qui-Vire — e reclamam uma ascendência com os nossos mosteiros sublacenses de En Calcat e Tournay, não podiam ser acolhidos ou reacolhidos na nossa Congregação Sublacense-Cassinese. A resposta — breve e clara — do Abade Luc foi a seguinte: "O motivo pelo qual não nos sentimos em sintonia com os irmãos 'do Barroux' não está, antes de mais nada, ligado às questões litúrgicas — aliás importantes — mas por causa de um 'olhar completamente diferente sobre o mundo contemporâneo'".
Em poucas palavras: o problema não é antes de mais nada a Sacrosanctum Concilium ou a Lumen Gentium, mas a Gaudium et Spes e a Nostra Aetate! E é sobre este ponto que deveríamos argumentar para discernir que manobras são possíveis e quais, ao contrário, absolutamente excluídas.
Concordo plenamente contigo quanto à avaliação que fazes sobre alguns pontos críticos do modus cogitandi et operandi nos mosteiros "tradicionalistas". Surpreende-me muito que Enzo Bianchi fale deles como de realidades monásticas "exemplares". Ou melhor, não me surpreende tanto: não devemos esquecer que se não é difícil ser monges exemplares, é muito mais complexo tornar-se monges cristãos e católicos.
Com demasiada frequência se esquece que o fenômeno monástico é a expressão de uma predisposição antropológica a viver "monasticamente" e não basicamente uma forma de "sequela Christi". De fato, há monges em outras tradições religiosas inclusive anteriores ao monaquismo cristão explodido no século IV. Há também pessoas que vivem segundo a forma monástica inclusive de modo filosófico ou agnóstico.
Identificar a exemplaridade a partir apenas da "prática/observância" pode ser muito redutor. A verdadeira sfida para nós monges cristãos e católicos é merecer o elogio de sermos recenseados como veri monachi, mas com todo o desafio de que a nossa vida monástica, além de ser irrepreensível quanto ao griffe "monástico", seja evangelicamente compatível. A compatibilidade evangélica como imitatio Christi não se discerne nos ritos e no culto, mas na compaixão e na empatia com os nossos irmãos e irmãs em humanidade do mundo real em que vivemos, aquele mundo pelo qual o Pai deu o seu Filho!
Em todo o caso, não me é difícil intuir o quanto o mundo monástico tradicionalista representa um desafio espiritual de compatibilidade evangélica. Como tampouco me surpreende a atitude de Enzo Bianchi. Os nossos mosteiros franceses sublacenses anteciparam e trabalharam apaixonadamente na recepção do Concílio Vaticano II não apenas na Liturgia, mas em todos os aspectos da vida monástica, sobretudo a nível relacional, a par de muitos mosteiros trapistas. Hoje, se se juntarem todos os mosteiros Sublacenses de França, o número de noviços é mínimo ou inexistente, e a morte dos idosos conduz à perspectiva do encerramento. Por exemplo, os trapistas deixaram Bellefontaine, onde a 11 de julho próximo os monges do Barroux se instalarão oficialmente.
É claro que perante o "sucesso", em homens e meios, dos mosteiros tradicionalistas e o empobrecimento dos mosteiros que acreditaram nos desafios do Concílio, o risco é de sentir o peso de um "fracasso". E aqui volta novamente a questão evangélica e a lógica pascal em sentido não ritual, mas existencial: buscamos o sucesso monástico-religioso ou a vida monástica sob a guia do Evangelho para voltar à Regra? Esta é, na minha opinião, uma pergunta urgente, mas difícil de honrar entre nós monges neste momento em que temos medo de nos extinguirmos, com o risco de preferirmos desnaturar-nos!
Não quero aborrecer-te além do necessário, mas o que me parece mais perigoso e inquietante é a técnica atualmente usada pelos nossos irmãos tradicionalistas: minimizar! De fato, tende-se a dizer que não é assim tão importante como se celebra e que não vale a pena exagerar em exigir uma conformação plena ao Concílio Vaticano II e ao seu desenvolvimento nessas décadas. Nesta forma de raciocinar, o papel da teologia, como lugar de incremento de inteligência evangélica, torna-se irrelevante para desequilibrar toda a atenção sobre a repetição, que arrisca tornar-se uma re-evocação histórica para manter quente e seguro o próprio modo de estar no mundo, sem prestar atenção ao mundo em que vivemos.
Agradeço-te a tua coragem e a tua clareza.
Frei Michael-Davide, osb
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