Resposta à carta de Enzo Bianchi. Artigo de Andrea Grillo

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02 Junho 2026

"A liturgia não é um acessório da fé, mas a sua linguagem mais elementar. Se vives uma liturgia que a Igreja quis explicitamente superar, colocas-te fora da comunhão católica."

O artigo é de Andrea Grillo, teólogo italiano e professor do Pontifício Ateneu Santo Anselmo, publicado no blog Come se non, 30-05-2026. 

Eis o artigo.

Caro Enzo,

A carta que me escreveste (e que pode ser lida aqui), após o nosso confronto público (de que se encontram aqui e aqui todos os passos), creio que ajuda a compreender em que estamos de acordo — e diria em plena sintonia — e onde, ao contrário, nos encontramos em dissidência. Isso não deve perturbar ninguém: na Igreja é justo discutir sobre aquilo em que não se está de acordo. Como me escreveste na mensagem que acompanhou a carta, é difícil entender por que nos encontramos apenas nós dois a falar sobre isso, enquanto os outros simplesmente assistem ou esperam ordens de cima. Contigo, desejo um debate amplo e articulado, de que necessitam tanto as consciências pessoais quanto as decisões pastorais.

Para além disso, estou convicto, graças ao teu segundo escrito, de ter compreendido melhor em que medida estou de acordo contigo. Coloco em primeiro plano esse consenso, que diz respeito a três pontos:

a) A contestação aberta da solução "universalista". Como tu escreves com clareza, a via proposta pelo Summorum Pontificum não podia funcionar, por dois motivos: porque criava um paralelismo geral entre duas formas (ordinária e extraordinária) do rito romano e porque subtraía aos bispos a autoridade sobre a liturgia nas suas dioceses, confiando-a a um organismo central (Comissão Ecclesia Dei).

b) A convicção de que a liturgia da Igreja Católica é a reformada pelo Concílio Vaticano II e pela Reforma que ele determinou.

c) Tu mesmo trabalhaste, com méritos objetivos para a Igreja italiana, no plano da atuação da reforma, com uma "inculturação monástica" que de Bose deixou marca duradoura em muitos monges, padres e leigos, não só na Itália.

Nestes três pontos estamos em pleno acordo.

Tu dizes, porém, não compreender por que eu, embora compartilhando contigo esses três pontos, considero que o uso do "rito antigo" não possa ser reconhecido àqueles que, como escreveste no artigo para Vita Pastorale, se atenham a 4 condições:

  1. Reconhecer a validade das quatro Orações eucarísticas do Missal de Paulo VI e também o Ordo Missae que leva o seu nome.
  2. Concelebrar a missa crismal presidida pelo bispo para testemunhar a unidade da Igreja e do presbitério em torno do bispo.
  3. Não desprezar as liturgias reformadas pelo Concílio Vaticano II.
  4. Aceitar do Concílio Vaticano as constituições dogmáticas (Sacrosanctum Concilium, Dei Verbum, De Ecclesia).

Precisamente aqui vejo o problema, que já te manifestei nos dois textos que escrevi. Esta é a ocasião para dizer com maior clareza de que modo aquilo que tu sugeres se tornaria, segundo me parece, um duplicado da solução ilusória proposta pelo Summorum Pontificum.

1) As orações eucarísticas não são antes de mais nada "proposições doutrinais" a que dar assentimento, mas formas da oração da Igreja, formas com que a Igreja se torna a si mesma. Seria curiosa uma situação em que uma parte da Igreja usa apenas o cânone romano, mas nunca usa as outras orações (que o rito de 1962 obviamente não contém), mas "reconhece a sua validade". O que significa isso? Um ato formal com que eu, que uso apenas o cânone romano, concedo a outros o uso de outras orações eucarísticas? Em que consistiria esse reconhecimento? Numa declaração una tantum, uma espécie de "juramento"?

2) A missa crismal como salvaguarda da "unidade da Igreja" parece-me uma forçagem. Poderia verdadeiramente estar em comunhão com a Igreja quem celebra a missa crismal com o bispo, mas que, em todos os outros dias, celebra o tríduo pascal sem comunhão com o bispo? Procuro compreender que tu gostarias de indicar um ponto de "resistência" do rito comum, mas uma comunhão fundada apenas na partilha de um rito no limiar do Tríduo Pascal parece-me que teria apenas uma função formal, sem qualquer incidência na identidade dos sujeitos em questão.

3) De que modo se pode exprimir o "não desprezo" pela liturgia reformada, se se vive apenas das formas precedentes? Se tu me preparas um bom almoço, todos os dias, e eu me mantenho longe da tua cozinha e preparo sempre à parte um almoço diferente, por mais que te possa tranquilizar, expresso com o meu comportamento muito mais do que o desprezo. E não existem "prescrições" (sanitárias ou formais) que imponham essa "abstinência" da nova liturgia. A não ser para quem queira contestar o Vaticano II.

4) O último ponto que citas parece-me, entre todos, o mais paradoxal. Aqueles que vivem a sua liturgia segundo o rito "pré-conciliar" deveriam aceitar as constituições dogmáticas do Concílio Vaticano II. Mas como podem fazê-lo? Se determino a minha vida independentemente da nova compreensão da revelação, da Igreja e da liturgia, como posso "aceitar" aquilo que deveria mudar a minha vida? Se a Constituição Litúrgica me pede, explicitamente, que mude aqueles ritos a que me liguei por identidade, como posso dizer que a aceito com palavras, se não a aceito com a vida? Compreendo bem a tua intenção, mas a boa intenção não encontra um método convincente: entre intenção e solução encontro uma contradição.

Gostaria de concluir com uma consideração mais geral, na qual entro no mundo que não é meu, mas teu: o mundo monástico. Tu escreves, a certo ponto, referindo-te a alguns mosteiros:

"rezam e celebram com o ritual antigo, cantam em gregoriano e trabalham seriamente, não são guardiões de santuários nem guias turísticos, nem exercem funções pastorais: Tunc vere monachi sunt (RB 48,8)".

Aqui observo como, na tua leitura, para ser "verdadeiros monges", que liturgia se celebra não tem qualquer relevância. Ou a nova ou a velha, é igual. Aqui te pergunto: se do lado monástico não há razão para duvidar da natureza "monástica" desses monges, pode-se estar certo da natureza "católico-romana" desse monaquismo? Não será porventura que, na relação de proximidade com esses monges, que tu vives com um compreensível interesse monástico, se perde a clareza do facto de que, se um monge celebra continuamente apenas com o rito antigo, sai sem se aperceber da comunhão católico-romana?

A pluralidade de ritos, que tu recordas a certo ponto da tua carta, não diz respeito à tradição católico-romana, mas à tradição católica, que tem no seu interior diversas tradições rituais. O ponto delicado está precisamente aqui: quem não usa outro que não o rito romano de 1962 (que tem apenas o cânone romano e que fala apenas latim) não respeita a Igreja que se deu um novo Ordo que continua a conter tanto o Cânone Romano quanto a língua latina, juntamente com tantas outras orações eucarísticas e tantas outras línguas, culturas, sensibilidades.

Tu sabes bem que os "verdadeiros monges" desses mosteiros têm grandes problemas em aceitar a liberdade de consciência e preferem usar a "regra" mais como um "regime antimoderno para defender Cristo Rei" do que como uma "transgressora experiência de humilitas em Cristo". Aqui o monaquismo, se não quer viver numa turris eburnea, não deve descurar as questões teológicas, eclesiológicas, antropológicas e políticas que derivam dessas escolhas "monásticas".

Este dissidência, que procurei argumentar, leva-me a dizer que as tuas intenções, com as quais concordo, não encontram a via adequada para se realizarem. O motivo é que a liturgia não é um acessório da fé, mas a sua linguagem mais elementar. Se vives uma liturgia que a Igreja quis explicitamente superar, colocas-te fora da comunhão católica. Os critérios com que os bispos podem conceder tal possibilidade, com o tempo, tornam-se cada vez mais estreitos. Isso é inevitável e não deve fazer sofrer. Eu sofro mais com a ilusão em que se fazem cair jovens monges e jovens padres — ou jovens leigos —, permitindo que sejam educados a encontrar o ponto mais alto do seu dia numa celebração solitária e clerical do sacrifício eucarístico às 4 da manhã. Preocupa-me mais a possibilidade oferecida desta distorção do que a educação paciente, mas exigente, para a missa comunitária. Mas talvez, ao dizer isto, não me pareça estar assim tão longe daquilo que também tu pensas. E com esta sensação positiva e prometedora quero também encerrar este texto, confirmando também a ti a importância de um confronto límpido e rico, como aquele que tu generosamente promoveste e pediste.

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