Um abade imune ao Vaticano II. Entrevista com Dom Pateau (Fontgombault)

Concílio Vaticano II. (Foto: Wikimedia Commons/Domínio Público)

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11 Abril 2026

Uma boa entrevista não surge apenas de boas respostas: ela também inclui perguntas relevantes ao tema, e não atos de complacência ou doutrinação em relação ao leitor e ao interlocutor.

A entrevista é traduzida e publicada por Andrea Grillo, teólogo italiano, publicado por Come se non, 09-04-2026.

Eis o artigo.

Esta não é a primeira vez que Dom Pateau expressa suas ideias extremistas sobre a liturgia, alegando estar protegido pela tradição monástica, que ele interpreta de forma ideológica e rígida. Não posso esquecer a correspondência bastante detalhada que mantivemos, à distância, logo após a publicação da MP Traditionis Custodes. Mesmo naquela época, fiquei bastante surpreso com a obstinação com que o abade de Fontgombault resistiu à única possibilidade de comunhão com Roma, ou seja, a introdução do mesmo rito para todos os católicos batizados, inclusive em seu mosteiro. Recentemente, lemos sobre a proposta bastante surpreendente do abade da Abadia de Solesmes (da qual a Congregação Beneditina da Abadia de Fontgombault também depende), que, constrangido pelas divisões internas em sua própria congregação, apresentou a estranha solução de compilar um único missal contendo dois: o novo junto com o antigo. É útil ao leitor explicar que Solesmes, que certamente não é um bastião progressista na Igreja da França, adotou imediatamente após o Concílio o novo rito romano, fruto da reforma litúrgica. Celebra-o em latim, com canto gregoriano, como lhe é devido. Mas permanece em comunhão eclesial. Fontgombault, por outro lado, não aceita o novo rito e usa rotineiramente o antigo, criando atritos constrangedores dentro da própria congregação.

Por isso, ouvir Pateau falar de uma "paz litúrgica, livre de rigidez e ideologia" é, no mínimo, curioso: com que direito alguém que não aceita a tradição viva pode dar lições de tradição a quem quer que seja? Como podemos considerar as palavras marginais de um indivíduo isolado em sua própria congregação beneditina como autoritativas?

Mas vamos examinar mais de perto algumas das respostas de Pateau nesta entrevista recente e longa, cuja leitura, 5 anos depois, nos traz de volta ao mesmo tom intransigente de 5 anos atrás, acompanhado pela retórica de perguntas complacentes e, às vezes, constrangedoras para o próprio entrevistado.

Missas celebradas "por capricho"

A resposta à pergunta sobre se a missa é celebrada em Fontgombault segundo o Missal de Paulo VI parece bastante curiosa. De fato, a resposta diz: apenas excepcionalmente, enquanto a missa conventual tem uma forma que remonta ao período entre 1965 e 1962. Uma resposta estranha. Traduzindo em termos simples, significa que em Fontgombault se permite a liberdade de celebrar uma missa que não segue o rito comum: a missa conventual não é celebrada no mesmo rito que em Roma. Seria este um exemplo a ser admirado? Pateau, porém, ao responder à pergunta sobre as palavras do Papa Leão XIV e do Cardeal Parolin, a respeito da necessária solução para as tensões liturgistas que dizem respeito principalmente à França, tem a honestidade de lembrar que o texto do Secretário de Estado invoca...

“Soluções concretas que permitam a inclusão generosa de pessoas sinceramente ligadas ao Vetus Ordo, em conformidade com as diretrizes desejadas pelo Concílio Vaticano II em matéria litúrgica.”

O respeito pelas diretrizes desejadas pelo Concílio Vaticano II, infelizmente para Pateau, está literalmente contido na Sacrosanctum Concilium e exige uma revisão do rito romano ocorrida entre 1963 e 1969. Qualquer pessoa que afirme celebrar com ritos anteriores está objetivamente indo contra o Concílio. É nesse sentido que Dom Pateau, no entanto, inicia uma análise teologicamente desconcertante. Ele fala de um "lecionário" alternativo ao de 1962, que, em um possível Missal "duplo" (como proposto pelo Padre Kemlin, abade de Solesmes), permitiria, em sua opinião, esse "enriquecimento mútuo" que, em sua opinião, seria o verdadeiro objetivo. E acrescenta:

"Em todo caso, a escolha de abordar a questão do enriquecimento dos missais de forma pragmática, qualquer que seja a solução proposta, parece-me muito positiva e o único caminho frutífero a longo prazo. Permite-nos evitar duas armadilhas: a rigidez e a ideologia. Afinal, a liturgia é, antes de mais nada, uma prática."

Esta conclusão sobre a "prática litúrgica", com a qual Pateau procura retificar uma situação problemática, é verdadeiramente uma obra-prima. A incompatibilidade eclesial, jurídica e teológica entre dois ritos, um dos quais é a correção explícita e necessária do outro, torna-se uma espécie de "bricolagem" em que cada um cria o seu próprio lecionário "sem rigidez e sem ideologia". Como pode Dom Pateau não perceber que esta é precisamente a pior ideologia: negar que existe um "caminho comum", um uso comum do mesmo rito romano, mesmo numa versão (a nova) que é flexível em comparação com a anterior, que era rígida? Ele fala "sem rigidez", desejando apenas um rito rígido e antiquado, enquanto a autoridade eclesiástica, que deseja um rito reformado e flexível, é considerada rígida? Estaríamos nós, porventura, isentos do princípio da não contradição quando um abade fala? Como ele pode não perceber que a escolha do lecionário depende da estrutura do ano litúrgico, que é diferente nas duas Ordinas? E como ele pode não notar que a interpretação jurídica também é diferente, de acordo com códigos distintos, um em vigor e o outro já extinto? Como ele pode pensar que os obstáculos vêm do novo sistema jurídico, e não da confusão entre o antigo e o novo que ele propõe como solução? A solução dele é o verdadeiro problema.

A questão da unidade eclesial

Um segundo ponto que vale a pena considerar é a descrição sectária que Pateau faz da liturgia em Fontgombault, reforçada pelas perguntas nostálgicas do jornalista. O Abade tenta validar a coexistência, dentro da mesma comunidade, de uma coisa e seu oposto: a missa lida individualmente e a missa concelebrada. Aqui, porém, Pateau comete um grave erro. Ele cita uma frase que se volta contra ele, como um bumerangue, sem que o entrevistador perceba. Ele diz:

“É preciso lembrar, porém, que alguns jovens escolhem se juntar à nossa comunidade justamente por causa desta celebração, que é fisicamente solitária, mas na qual toda a Igreja está presente. O Cardeal Ratzinger, durante sua visita a Fontgombault em 2001, ficou profundamente impressionado e concluiu: “Esta é a Igreja Católica!”

A afirmação de que J. Ratzinger abençoou a autoridade para determinar a coexistência entre o rito antigo e o novo é uma falsidade histórica. Infelizmente para Pateau, a visita do Prefeito Ratzinger a Fontgombault, acompanhado por Roberto de Mattei, resultou em um pequeno volume (A Questão Litúrgica. Atas das Jornadas Litúrgicas de Fontgombault (22-24 de julho de 2001) – Roma, 2010), no qual foi publicado o relatório do cardeal. Nessa conversa, nesse debate, pode-se ler uma afirmação decisiva na época: o pedido de uma "liberalização geral" do Rito Antigo, que já circulava como proposta, deveria ser rejeitado, pois causaria uma ruptura irreparável no âmbito eclesial. Em 2001, em Fontgombault, Ratzinger ainda se mantinha firme nessa posição. Alguns anos depois, ele cederia à pressão externa e interna, dando início ao período de confusão que durou de 2007 a 2021, e que agora estamos superando com muito esforço. É surpreendente notar com que naturalidade Dom Pateau reconstrói a história de seu próprio mosteiro de maneira rígida e ideológica, com pouca memória histórica e nenhuma profundidade teológica.

A Comissão Ecclesia Dei

Talvez o ponto mais surpreendente seja a pergunta em que o entrevistador oferece uma espécie de panegírico à Comissão Ecclesia Dei, mas recebe de Pateau uma resposta muito mais prudente e cautelosa do que a própria pergunta. Para construir a "paz litúrgica", a única saída seria através de ritos paralelos. Os dois interlocutores não chegam a um consenso sobre esse ponto. Mas Pateau, pelo menos, compreende que a gestão centralizada por uma Comissão Pontifícia não seria uma solução viável. A própria Comissão Ecclesia Dei representa um dos capítulos mais tristes dos últimos 40 anos nas tentativas de lidar com a resistência à reforma litúrgica. A história da Comissão demonstra que foi lógico suprimi-la, como fez o Papa Francisco. Ela não trabalhou pela paz, mas pela guerra: o Arcebispo Pozzo sabe disso muito bem e ainda hoje pode fornecer um testemunho com autoridade. A gota d'água foi em 2020, durante a pandemia, quando a Sessão da Congregação para a Doutrina da Fé, à qual a Comissão havia sido reduzida, trabalhava na "reforma do rito de 1962", enquanto atendia a pedidos, especialmente dos EUA, para celebrar o Tríduo Pascal com os ritos anteriores a 1956... Será este desastre eclesial e litúrgico o objeto da nossa nostalgia? Será esta a paz que almejamos? Nem mesmo Pateau parece aprová-la.

O debate distorcido sobre a liturgia

Estamos diante de tentativas desajeitadas de reverter a situação. Tentam atribuir à resistência de indivíduos em um estado de "tradição doente" o mérito de estarem "livres de rigidez e ideologia". Esses monges rígidos e ideologicamente motivados fazem da "missa lida" individualmente por cada monge o ideal de São Bento. Pobre Bento! O caminho eclesial, que se liberta de formas nocivas de tradição, exige paciência, sem dúvida. Mas não pode vacilar em princípios. A grande tradição do Rito Romano conhece apenas um rito válido, não dois ritos paralelos e contraditórios entre os quais se possa praticar uma bricolagem espiritual. A tentativa de salvaguardar a obstinação daqueles que se recusam a entrar na tradição viva e preferem o museu ao jardim deve ser chamada pelo seu nome: é uma ferida na unidade e na comunhão. Foi assim que Ratzinger a julgou em 2001, precisamente em Fontgombault. Foi assim que Bergoglio a avaliou em 2021. A Traditionis Custodes é um ato de paz, contra a tentativa belicosa de semear confusão na Igreja, mesmo em sua forma monástica, onde, no entanto, o mosteiro é facilmente confundido com a seita, algo que o próprio Bento XVI teria considerado preocupante.

Diante desses acontecimentos, a intenção correta de trazer a paz deve ser nutrida pela teologia. Não é de surpreender que Pateau prefira reduzir a liturgia a uma "prática", permitindo-lhe construir livremente sua própria liturgia, sua igreja, sua tradição monástica, com grande devoção, mas sem teologia.

O comentário mais claro sobre essas tentativas, claramente demonstrado pela abordagem comunicativa de toda esta entrevista, veio há muitos anos de um bom padre de Pádua, professor de longa data e Vigário para a Formação do Clero: Padre Giuseppe Zanon. Ele disse certa vez uma frase que considero poderosa para entender toda a "fixação litúrgica" que muitas vezes envenena a relação com o culto cristão:

“Quando um jovem seminarista, ou um jovem padre, me diz que quer estudar liturgia, eu respondo: primeiro passe 10 anos como caminhoneiro, depois, quando voltar, se ainda tiver a paixão, estudar lhe fará bem.”

Só assim a liturgia evitará se tornar uma tela na qual se projetam rigidez eclesial e ideologias teológicas. Chamá-las de espiritualidade não resolve o problema, mas sim o complica.

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