29 Mai 2026
"Pode-se efetivamente dizer, como já observamos em outras ocasiões, que o acaso, ou a Providência, fez com que o primeiro Papa estadunidense da história se erguesse contra o primeiro Antipapa estadunidense da história."
O artigo é de Raniero La Valle, jornalista, ex-senador italiano, publicado por Prima Loro, de 26-05-2026. A tradução de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
Caros amigos, o outro lugar na Terra onde houve o risco de uma grave corrupção da convivência humana, mas que, em vez disso, resultou em um magnífico enriquecimento da humanidade em sua aventura terrena, foi na planície de Sinar, na Mesopotâmia, quando aqueles que ali se estabeleceram, imigrados do Oriente, disseram: "Vamos fazer tijolos e queimá-los no fogo, vamos usar o tijolo como pedra e o betume como argamassa, e vamos construir uma cidade e uma torre cujo topo alcance o céu." E, à medida que a construção avançava, se um trabalhador caía do alto e morria, ninguém se preocupava, mas se um tijolo se quebrava, paralisando os trabalhos, todos se lamentavam pela perda de riqueza e se continuava a construir em meio à dor. Então o Senhor desceu para ver a cidade e percebeu que não era uma coisa boa, e misturou as línguas e espalhou os homens por toda a Terra, de modo que disso resultou um grande bem, pois com as línguas, se multiplicaram as culturas, as tradições e as histórias, e toda a Terra foi colonizada e habitada, mostrando sua variedade e magnificência. E essa experiência foi chamada de Babel.
Muitos milênios depois, no Vale do Silício, na Califórnia, aqueles que ali se estabeleceram, imigrados do Oriente europeu, disseram: "Por que temos que nos contentar com o que a inteligência humana pode fazer e conseguiu fazer até agora, rodas e geradores de energia, arranha-céus e catedrais, pontes e aviões, mosaicos e esculturas, livros e televisão? Por que restringir o arbítrio com a moral, condicionar a liberdade com o amor, enfraquecer o pensamento admitindo que também exista um pensamento feminino, por que drenar dinheiro e riqueza para construir hospitais e escolas em vez de acumular capitais soberanos e armas cada vez mais universalmente letais?
Vamos criar, portanto, uma inteligência artificial que seja só cérebro e nada de coração, só cálculo e nada de dom, só masculina e nada mais atulhado de fantasias femininas, só memórias e nada de fantasias, uma inteligência que pense apenas o que já foi pensado, que escreva apenas o que já foi escrito, mas que em poucos segundos coloque nas mãos de todos tudo o que está nos repositórios, uma inteligência artificial que dê como garantido o limite que pode alcançar aquela natural, que capitalize todo o pensamento, a ciência e a arte que habitaram a Terra até agora.
Vamos fazer armas que nenhuma consciência humana tenha que medir e controlar novamente, e vamos testá-las pela primeira vez em Gaza, para que não reste pedra sobre pedra, nem uma criança no colo da mãe. Vamos fazer guerras que não possam mais ser desaprendidas, como queria Isaías, vamos deixar estourar a tranca que segura as águas do mar, que fique poluída a atmosfera que modera os ventos, quebrado o termômetro que mede o calor, que a Terra seja explorada até a medula, já que depois podemos nos mudar para Marte."
Então o Senhor olhou voltou a olhar para a cidade, e viu que havia milhões de homens, mulheres e jovens que a defendiam, que invadiam as praças e singravam os mares para dizer não ao genocídio, e viu que era uma coisa boa, e enviou um Papa para confirmá-los e encorajá-los, manso e humilde de coração. E aquele Papa que vinha do Ocidente, do Peru onde havia sido enviado, compreendeu como se reconstroem com novos laços casas, ruas e famílias engolidas pela lama, e disse em sua própria língua ao tirano que devastava a Terra que não tinha medo dele, e que ele não podia ameaçar fazer desaparecer civilizações inteiras e patrocinar genocídios, que a paz tinha que ser desarmada e desarmante.
E sobre a tecnologia, disse que ela também devia ser desarmada: não rejeitou, não difamou, não repudiou a tecnologia, mas a reintegrou ao humano, de fato, fez dela o arcabouço dessa "magnífica humanitas", à qual dedicou sua primeira encíclica, reivindicada como "leonina", por alusão ao outro Leão, mas somente se fosse gerida por uma tecnologia não violenta.
E para demonstrar que isso é possível, para escrever a sua encíclica o Papa voltou seu olhar para o Vale do Silício, onde as empresas tecnológicas estadunidenses construíram uma "Torre digital" para conectar o mundo, mas sobretudo para controlá-lo e governá-lo, considerando-o definitivamente perdido para a democracia e alvo de um golpe de estado permanente, como avisam os analistas que nos alertam contra esse criptofascismo planetário digital. Mas ali, no Vale do Silício, o Papa Leão não viu apenas a Palantir de Peter Thiel, que tinha vindo a Roma pouco antes da Páscoa para desalojar o "Anticristo". A Palantir é a empresa que fez seus testes em Gaza, em Minneapolis e no rastreamento dos imigrantes que Trump quer deportar dos Estados Unidos.
O Papa Leão, em vez disso, encontrou a "Anthropic", fundada pelo italiano Dario Omodei e por Christofer Olah, que tinha contratos bilionários com o Pentágono, mas que, devido ao uso que o Pentágono fazia da Inteligência Artificial, rompeu com ele afirmando que não queria que sua IA fosse usada para gerir as novas armas e as operações militares, "querendo ditar assim", bradou Trump, "como nosso grande exército deve lutar e vencer as guerras". Pois bem, o Papa Leão convidou justamente Christofer Olah para participar da apresentação da encíclica "Magnifica Humanitas" no Salão novo do Sínodo, no Vaticano, e pediu-lhe que proferisse um discurso sobre sua experiência com Inteligência Artificial, o que Olah fez, sendo um dos estudiosos mais renomados do mundo na área de interpretabilidade da inteligência artificial, ou seja, da tentativa de realmente entender o funcionamento interno dos sistemas de Inteligência Artificial mais avançados. O trabalho de Olah visa precisamente tornar as decisões das máquinas "legíveis", numa época em que os algoritmos se tornam cada vez mais poderosos, mas também cada vez mais imprevisíveis e capazes de escapar ao controle, justamente como os "anomoi", os "sem lei" sobre os quais São Paulo nos alertara com bastante antecedência.
Como observa Marco Baratto no site "gli Stati generali", essa "não é apenas uma questão técnica, mas sim ética, política e até antropológica. Entender como uma máquina raciocina significa entender o quanto controle o ser humano ainda consegue ter sobre as tecnologias que produz”.
Mas, ainda mais importante, é a questão de reconhecer a coragem do Papa Leão XIV, que chega até esse ponto em seu desafio a Trump, a ponto de dar visibilidade, perante o mundo inteiro, a um intérprete não alienado das novas tecnologias, envolvido em um confronto com Trump que o torna o símbolo de uma alternativa radical entre dois mundos possíveis.
Pode-se efetivamente dizer, como já observamos em outras ocasiões, que o acaso, ou a Providência, fez com que o primeiro Papa estadunidense da história se erguesse contra o primeiro Antipapa estadunidense da história.
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