O "Método Neemias" para reconstruir o bem comum. Artigo de Flávio Felice

Foto: ray rui/Unplash

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29 Mai 2026

"Neemias não age sozinho, mas envolve as pessoas de toda a civitas e enfrenta obstáculos internos e externos, reconstruindo as muralhas de Jerusalém passo a passo", escreve Flávio Felice, professor de História das Doutrinas Políticas na Pontifícia Universidade Lateranense, em artigo publicado por Avvenire, 27-05-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

A encíclica Magnifica Humanitas, de Leão XIV, propõe uma reflexão detalhada sobre a relação entre humanidade, tecnologia e inteligência artificial à luz da Doutrina Social da Igreja. Teremos a oportunidade de refletir mais profundamente sobre o documento pontifício, destacando os seus aspectos mais originais e os desafios que mais preocupam as mulheres e os homens do nosso tempo. Por enquanto, decidimos oferecer uma rápida panorâmica do documento, destacando o que, na nossa opinião, representa o fio condutor que percorre toda a encíclica: um realismo autêntico que nunca cede ao cinismo nem ao idealismo.

O discurso do Papa Leão estrutura-se em torno de dois arquétipos bíblicos, assumidos também como categorias interpretativas e epistemológicas: de um lado, a Torre de Babel, símbolo de um progresso tecnológico-econômico baseado numa racionalidade monista e construtivista, no orgulho humano e em dinâmicas de dominação; do outro, a Jerusalém reconstruída por Neemias, que, ao contrário, representa um modelo de desenvolvimento gradual, cooperativo e relacional, uma "plurarquia" fundada na responsabilidade compartilhada, na justiça e na referência transcendente. Resulta disso, portanto, que a questão fundamental não é a aceitação ou rejeição da tecnologia, mas sim o seu propósito ético: o domínio do homem sobre o homem ou a sua preservação e promoção integral.

Nessa perspectiva, o texto reconhece a tecnologia como componente estrutural da história humana e fator potencial para a promoção do bem comum, embora evidenciando o risco de uma concentração do poder tecnológico nas mãos de sujeitos privados e transnacionais com uma forte capacidade de condicionamento político, econômico e cultural. Nesse contexto, invoca-se o princípio da subsidiariedade, que se estende à governança dos sistemas de inteligência artificial, os quais não podem ser dissociados das formas de controle democrático e pluralista. A inteligência artificial não é mais considerada um instrumento, mas sim um ambiente antropológico que impacta as modalidades de relação, de decisão e de construção de sentido, com o consequente risco de reduzir o humano a um dado funcional.

O documento articula, assim, os princípios da Doutrina Social da Igreja, como o bem comum, a solidariedade, a subsidiariedade, a justiça social e a destinação universal dos bens, como critérios normativos para orientar o desenvolvimento tecnológico. Disso resulta a exigência de garantir condições de trabalho dignas, a proteção de indivíduos vulneráveis e formas de regulamentação pública das tecnologias. De particular importância é a proposta de "desarmamento" da inteligência artificial, entendido como sua remoção das lógicas predatórias-extrativistas de natureza econômica, militar e geopolítica que correm o risco de transformá-la em um instrumento de dominação. Outro ponto crucial diz respeito à crítica ao transhumanismo, que considera a finitude e a vulnerabilidade humanas como limites a serem superados tecnologicamente.

Em oposição a essa abordagem, de forma agostiniana, a encíclica valoriza a fragilidade, o sofrimento e a finitude como dimensões constitutivas da experiência humana, reafirmando a irredutibilidade do indivíduo a sistemas algorítmicos em virtude da liberdade, da relacionalidade e da capacidade de amar. No âmbito político e cultural, o texto também denuncia a crise do multilateralismo e a progressiva normalização da violência, contrapondo a essas dinâmicas a “civilização do amor”, fundada na justiça, no diálogo e na solidariedade: a tranquillitas ordinis que torna a paz possível porque se edifica sobre a justiça. Nesse contexto, o paradigma de Neemias torna-se um símbolo de responsabilidade histórica: a reconstrução da cidade ocorre “pedra por pedra”, como um processo participativo e comunitário.

Podemos concluir afirmando que a encíclica se insere explicitamente na tradição do pensamento social cristão e retoma o tema da teologia da práxis. Contrapõe dois modelos de interpretação social: o de Babel, caracterizado pela centralização e pelo monismo decisório, que, epistemologicamente, remete à “presunção fatal” denunciada por Friedrich von Hayek e, teologicamente, à pretensão do homem de se colocar no lugar de Deus; e o de Jerusalém, baseado numa estrutura poliárquica e cooperativa do bem comum. Neste último, a “Boa Governança” emerge como resultado de múltiplas formas de bons governos que interagem, capazes de direcionar a complexidade social para o desenvolvimento humano integral.

Contra toda forma de milenarismo e neojoaquinismo, o Papa Leão propõe o “método de Neemias”, um novo Virgílio que nos acompanha ao longo da leitura desse documento e nos convida a seguir seus passos: escutar a dor de uma comunidade ferida, levá-la na oração, discernir com lucidez, pedir ajuda e organizar uma ação concreta de reconstrução. Neemias não age sozinho, mas envolve as pessoas de toda a civitas e enfrenta obstáculos internos e externos, reconstruindo as muralhas de Jerusalém passo a passo.

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