29 Mai 2026
Uma governança para a IA. "Seis anos atrás, esteve na Pontifícia Academia para a Vida o novo presidente da Microsoft, Brad Smith, sucessor de Bill Gates, para perguntar como tornar a IA ética", conta Dom Vincenzo Paglia, que iniciou com a "Rome Call for Ai Ethics" (abençoado por Francisco) a reflexão sobre a ética e a inteligência artificial que, após outros textos do Vaticano, culmina na encíclica Magnifica Humanitas. Um salto para o futuro.
A entrevista é de Giacomo Galeazzi, publicada por La Stampa, 27-05-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis a entrevista.
Leão teme a tecnologia?
Sempre me chamou a atenção o fato, obviamente casual, de que a parte traseira de nossos laptops tem a imagem de uma ‘apple’, uma maçã mordida. Pois bem chamamos a idolatria da tecnologia de ‘algocracia’, e ela está contida justamente nessa maçã. A tentação em que Adão caiu por sugestão do tentador: ‘Se você comer desse fruto, se tornará como Deus’. Ele podia comer qualquer coisa, menos a maçã. Era o sentido do limite para o homem.
Adão obedeceu ao tentador, comeu a maçã e se viu nu e fora do jardim. Essa encíclica também é um alerta nesse sentido. Não devemos ‘deificar’ a tecnologia. Acabaremos nus e desorientados. Disso a urgência de humanizar a tecnologia, dobrá-la à ética, ao sentido da vida, não tecnologizar o homem. O Papa foi claro desde o início.
Qual é a alternativa?
Promover aqueles princípios éticos fundamentais que possam colocar a tecnologia a serviço do ser humano. Hoje nos encontramos em uma 'mudança de época'. Pela primeira vez na história, o homem, com sua força, pode destruir a si mesmo e à criação. Primeiro com a bomba nuclear. Percebemos o perigo e chegamos a um acordo, ainda que não perfeito.
Posteriormente, percebemos que, com a exploração insensata da criação e as mudanças climáticas, podemos nos destruir. E um acordo foi alcançado em Paris, em 2015, entre todos os governos do mundo. E aqui estamos nós, com as tecnologias emergentes e convergentes (incluindo IA) com as quais podemos manipular radicalmente a vida, inclusive a vida humana. E, infelizmente, ainda existe uma espécie de anarquia sobre isso. Não podemos continuar como estamos agora. Daí a importância da encíclica. Na minha opinião, é indispensável o início de uma convergência planetária para governar essas tecnologias. O problema reside precisamente nesse ponto.
Como a Rerum Novarum?
Há 135 anos, Leão XIII entra na primeira revolução em que a máquina a vapor substituía a força humana. Depois, veio uma segunda virada com a eletricidade, o aço e a química industrial; a terceira, com a microeletrônica e a automação nas manufaturas. Agora, à ‘mecatrônica’, ou seja, a soma de mecânica, eletrônica e informática, somam-se IA, robôs, nanotecnologias, biotecnologias e inovação digital. A vida humana como tal está em jogo. Para o cientista Ishiguro, somos a última geração orgânica. A próxima será inorgânica.
O que está em jogo é a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial. Computadores e algoritmos permitem intervenções no patrimônio genético. A pesquisa em sistemas computacionais leva a ‘redes neurais’, ‘"aprendizado de máquina’ e ao uso de modelos biológicos como o DNA para armazenar dados. Leão XIV aborda uma realidade de robôs que possuem experiências perceptivas ou cognitivas, inteligências coletivas compartilhadas na nuvem e capacidade de tomar decisões. Os dispositivos artificiais simulam capacidades humanas, mas são e serão desprovidos de qualidade humana.
O que precisa ser feito?
Precisamos envolver não apenas agências tecnológicas, mas também as religiões mundiais, para uma perspectiva ética capaz de dar suporte a essa nova tecnologia. A colaboração deve se expandir pelas diversas dimensões do humano, começando pela política, pela economia e pelas outras ciências humanas, em prol de um novo humanismo que preserve o ser humano comum. Há uma necessidade urgente de promover um acordo entre as empresas de tecnologia que estabeleça algumas regras comuns. A ONU está fazendo algo. Precisamos de uma assembleia mundial de governos. Francisco falou sobre isso no G7. Eu disse a ele que deveria discursar no G/todos. Ele sorriu, satisfeito.
Uma carta sobre a ética da IA?
Sim, na próxima semana vou apresentá-la ao Banco Mundial, nos Estados Unidos. É preciso promover uma avaliação competente e compartilhada de parte de todos os processos, para que integrem as relações entre os seres humanos e as máquinas na nova era inaugurada pela IA. Essa tarefa exige diálogo e colaboração para avaliar a inovação tecnológica com vistas a escolhas políticas eticamente informadas. De forma a garantir o exercício efetivo da liberdade e o reconhecimento da dignidade. Por exemplo, para aqueles que são treinados em protocolos de saúde, até mesmo diagnósticos, serão garantidos critérios de imparcialidade ou os vieses que afligem os algoritmos terão efeitos discriminatórios?
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