Por que Trump agora está vinculando a paz com o Irã aos controversos Acordos de Abraão?

Donald Trump | Foto: Daniel Torok/Flickr

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28 Mai 2026

O presidente dos EUA pediu a vários países árabes e muçulmanos que aderissem aos acordos de 2020 com Israel para finalizar seu plano de "paz" para o Oriente Médio, mas é improvável que isso aconteça após o genocídio em Gaza.

A reportagem é de Francesca Cicardi, publicada por El Diario, 27-05-2026.

Os Acordos de Abraão foram apresentados por Donald Trump como um dos triunfos da política externa de seu primeiro mandato (2017-2021) e, após seu retorno à Casa Branca em 2025, o presidente não abandonou esse projeto. No entanto, as circunstâncias mudaram consideravelmente desde setembro de 2020, quando os Emirados Árabes Unidos e o Bahrein assinaram acordos para normalizar as relações com o Estado de Israel, rompendo assim o consenso entre os países árabes das décadas anteriores.

Agora, apesar do genocídio israelense contra o povo palestino em Gaza e das ofensivas travadas e ainda em curso pelo governo de Benjamin Netanyahu no Líbano, na Síria, no Iêmen e no Irã, Trump ainda espera que os países árabes e muçulmanos de toda a região assinem um tratado de paz com o Estado judeu. Nesta quarta-feira, o republicano chegou a condicionar um possível acordo com o Irã para pôr fim à guerra iniciada pelos EUA e Israel em 28 de fevereiro à assinatura dos Acordos de Abraão por seus parceiros regionais e atuais mediadores no conflito.

“Não acho que devamos chegar a um acordo [com o Irã] se eles não assinarem”, disse ele em uma reunião de gabinete, depois de ter pedido explicitamente aos líderes da Arábia Saudita, Catar, Paquistão, Turquia, Egito e Jordânia, no início da semana, que aderissem à iniciativa. “Acho que esses países nos devem isso”, afirmou o presidente, segundo a CNN.

Em que consistem os acordos?

Esses são acordos bilaterais para estabelecer e normalizar as relações diplomáticas entre Israel e os países signatários, bem como para criar uma estrutura que promova a cooperação econômica, de segurança e em outras áreas. Eles não abordam a raiz do conflito histórico entre Israel e os países árabes, que é a ocupação da Palestina e a limpeza étnica, a discriminação e a opressão dos palestinos desde a criação do Estado de Israel em 1948. Os países árabes vizinhos de Israel confrontaram o novo Estado naquele ano e em diversas guerras subsequentes; o Líbano e a Síria nunca reconheceram a existência de Israel dentro de suas fronteiras, e a maioria dos 22 membros da Liga Árabe (da qual a Palestina faz parte) ainda não a reconhece.

Em 2020, o governo Trump argumentou que o fomento de boas relações entre Israel e seus vizinhos, juntamente com um ambiente de desenvolvimento e crescimento econômico na região, poderia resolver o conflito, sem abordar a injustiça sofrida pelo povo palestino. O genro de Trump, Jared Kushner, foi o arquiteto dos acordos que, de certa forma, buscam marginalizar os palestinos ao promover a aceitação de Israel e sua ocupação por países árabes — países que, décadas antes, haviam condicionado seu reconhecimento do Estado judeu a uma solução negociada com os palestinos e, em última instância, à criação de um Estado palestino.

Quem os assinou?

Em setembro de 2020, os Emirados Árabes Unidos e o Bahrein assinaram os Acordos de Abraão com Israel em uma cerimônia suntuosa na Casa Branca. Foi um momento histórico, pois foram os primeiros países árabes e muçulmanos a reconhecer o Estado judeu após os tratados de paz assinados por Tel Aviv com o Egito em 1979 e com a Jordânia em 1994, ambos mediados pelos Estados Unidos.

O Sudão – um estado árabe e muçulmano na África – anunciou sua intenção de aderir aos Acordos de Abraão em outubro de 2020, mas não os assinou formalmente devido ao início da guerra no país em 2023. Marrocos, que exerce influência apesar de estar distante do Oriente Médio, aderiu aos Acordos de Abraão em dezembro de 2020, coincidindo com o reconhecimento, por Washington, da soberania marroquina sobre o Saara.

Dos signatários dos Acordos de Abraão, os Emirados Árabes Unidos são o governo que mais expandiu o quadro de cooperação com Israel, aumentando significativamente o comércio e abrindo caminho, entre outras coisas, para o turismo israelense e a colaboração entre as forças armadas dos dois países . Mesmo durante as fases mais intensas do genocídio israelense em Gaza, Abu Dhabi não cogitou cancelar os acordos e manteve relações em todos os setores. Os demais países se distanciaram de Israel, pelo menos publicamente, desde outubro de 2023.

Quem será o próximo?

A maior aspiração de Washington era convencer a Arábia Saudita a aderir aos acordos. Não só a administração Trump, mas também a de Joe Biden (2021-2025) perseguiram esse objetivo e quase o alcançaram antes dos ataques do Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023 e da subsequente ofensiva punitiva israelense contra Gaza, que alteraram completamente o equilíbrio e a dinâmica de poder no Oriente Médio.

A Arábia Saudita é muito importante por seu papel simbólico — abriga os locais mais sagrados do Islã, Meca e Medina — mas também é uma grande potência petrolífera e, quando os acordos foram firmados, disputava com o Irã a liderança no Golfo Pérsico e no Oriente Médio. Um dos objetivos não declarados dos pactos elaborados pela equipe de Trump era unir Israel e os países sunitas contra a potência xiita, já que todos compartilhavam a mesma animosidade e preocupação com as ambições geoestratégicas do Irã e seu programa nuclear.

Embora essa situação não tenha mudado e tenha sido até reforçada pela guerra contra o Irã, lançada pelos EUA e por Israel, a Arábia Saudita não pode se associar a Israel após o genocídio devido à impopularidade que tal medida teria dentro do reino e no mundo árabe e muçulmano, no qual Riad ocupa um lugar de destaque.

Esta semana, Trump voltou a mencionar a Arábia Saudita, mas desta vez com muito mais ambição. O presidente americano afirmou na segunda-feira que conversou com os líderes do reino, do Catar, do Paquistão, da Turquia, do Egito e da Jordânia sobre o processo de negociação do acordo com o Irã, acrescentando que “deveria ser obrigatório que todos esses países assinassem os Acordos de Abraão, no mínimo, simultaneamente”. “É possível que um ou dois tenham um motivo para não fazê-lo, e isso será aceito, mas a maioria deve estar preparada, disposta e apta a fazer deste acordo com o Irã um evento muito mais histórico do que seria de outra forma”, acrescentou, reconhecendo que poderia enfrentar alguma resistência.

Na quarta-feira, ele reiterou que esses países deveriam assinar os Acordos de Abraão, chegando a sugerir que sua equipe não deveria chegar a um acordo com o Irã até que isso acontecesse, diminuindo ainda mais as chances de um acordo com Teerã.

Até o momento, nenhum desses governos respondeu positivamente. Mesmo para o Egito e a Jordânia, que já possuem tratados de paz com Israel, aderir aos Acordos de Abraão seria altamente contraproducente, visto que seus cidadãos ainda se opõem, em sua grande maioria, à normalização das relações com Israel e ameaçaram rompê-las em decorrência do genocídio.

Apenas o Paquistão — principal mediador entre os EUA e o Irã — se opôs publicamente ao acordo. O ministro da Defesa, Khawaja Asif, declarou em entrevista a uma emissora de televisão local que seu governo não aderirá a nenhum acordo que contradiga os "princípios fundamentais" do país. "Temos uma posição muito clara de que isso é inaceitável para nós", afirmou, segundo a agência EFE, acrescentando que Islamabad não recebeu nenhuma proposta formal sobre o assunto.

“O Paquistão não tem obrigação de atender a tal exigência”, disse uma fonte paquistanesa à Reuters. A mesma fonte, familiarizada com o assunto, indicou que Trump está tentando usar as negociações com o Irã para pressionar por uma posição mais ampla sobre os Acordos de Abraão, mas que as duas questões “não estão interligadas e não podem estar”.

Uma forma de vender uma vitória.

A especialista em Oriente Médio Lucy Kurtzer-Ellenbogen, do Instituto do Oriente Médio, com sede em Washington, observa que Trump considera os Acordos de Abraão "a principal conquista de política externa de seu primeiro mandato". Portanto, após não ter conseguido alcançar "resultados tangíveis" na guerra contra o Irã ou "progresso" em seu plano para Gaza, o presidente americano "está inclinado à ideia de uma versão aprimorada dos Acordos de Abraão", disse ela ao elDiario.es. Segundo Kurtzer-Ellenbogen, se mais países reconhecessem Israel, "seria uma conquista que chamaria a atenção da mídia e estaria de acordo com a autoimagem de Trump como um grande negociador e pacificador".

A analista acredita ser altamente improvável que os países mencionados por Trump adiram aos Acordos de Abraão. “Os líderes desses países serão cautelosos em antagonizar Trump, mas não a ponto de arriscar a turbulência interna que resultaria de concordar com uma exigência tão repentina e irrealista”, disse ela ao elDiario.es. Em sua opinião, alguns líderes árabes ou muçulmanos evitarão dar um “não” categórico a Trump e, em vez disso, “reiterarão ou lembrarão o presidente de suas posições de longa data, que remontam à Iniciativa de Paz Árabe de 2002: a normalização das relações com Israel implica o estabelecimento de um Estado palestino”.

Por que são importantes?

Trump já tentou usar o impulso do cessar-fogo em Gaza, previsto para janeiro de 2025, para promover os Acordos de Abraão, o que reflete a importância dessa estratégia tanto para Israel quanto para os EUA. “Vocês estão invadindo, ocupando, confiscando terras, deslocando pessoas… e a única maneira de concluir com sucesso seu projeto colonial é normalizando-o”, disse Jeff Halper, ativista israelense contra a ocupação, ao elDiario.es. Segundo ele, os Acordos de Abraão são a fase final de um projeto de colonização abrangente.

“Estamos entrando em uma nova fase, e esta é a maior ameaça aos palestinos desde a Nakba. Quando algo é normalizado, jamais é reaberto, e os palestinos verão sua presença política eliminada”, acrescenta Halper.

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