25 Mai 2026
Na encíclica “Magnifica humanitas”, o pedido do Papa Leão: fazer a tecnologia avançar sem que o coração regrida.
O artigo é de Andrea Tornielli, diretor de mídia do Vaticano, publicado por Vatican News, 25-05-2026.
Eis o artigo.
Na era da inteligência artificial, com a dignidade humana correndo o risco de ser ofuscada pelas enormes concentrações de poder tecnológico fora de qualquer controle e por novas formas de desumanização, o Papa Leão nos exorta ao “dever urgente” de permanecermos profundamente humanos. Na época das polarizações e da violência, que vê expandir-se uma “cultura do poder” com a guerra reabilitada como instrumento de política internacional, o Sucessor de Pedro nos pede para fazer a tecnologia avançar “sem que o coração regrida”. Ele nos convida a aceitar o limite e a fragilidade da humanidade sem considerá-los, como faz a ideologia tecnocrática, um erro a ser corrigido. Ele nos exorta a olhar para o mundo não pela ótica dos grandes, mas de baixo para cima, com os olhos de quem sofre, a partir dos últimos. Com os olhos de um Deus que tomou sobre si nossa fraqueza, transformando-a em um lugar de salvação, porque “mesmo quando as máquinas se destacam pela eficiência, o centro da história continua sendo um rosto humano que pede para ser olhado”.
“Magnifica humanitas”, a primeira encíclica de Leão XIV, não é, antes de tudo, um texto analítico sobre inteligência artificial, nem entra em detalhes sobre processos em constante evolução. Trata-se, antes, de uma “summa” que aplica os princípios da Doutrina Social à nossa época — a era da IA —, consolidando e atualizando os pontos fundamentais do magistério. É um texto que também põe fim ao equívoco daqueles que, confiando na liberdade absoluta dos mercados e das novas tecnologias, tendem a descartar como ensinamento discutível o magistério papal sobre o pedido de um governo humano compartilhado da IA, sobre a ecologia integral, sobre as estruturas econômicas que se tornam “estruturas de pecado”, sobre o não à guerra.
O Papa, que assumiu o nome do autor da “Rerum novarum”, na era da revolução digital, pede a cada um de nós que assuma um papel ativo, pois a construção da “civilização do amor” se realiza graças a “uma soma de pequenas e tenazes fidelidades”, capazes de conter a desumanização. Uma tarefa, portanto, que diz respeito a todos nós, e de perto.
In his address, Pope Leo warns against "disturbing" weapons systems that are "increasingly autonomous, practically beyond any human control," and "algorithms that can prevent access to healthcare, employment, and security based on data tainted by biases and injustices." pic.twitter.com/1ZazRhvNRf
— Rich Raho (@RichRaho) May 25, 2026
Leão nos recorda que “as injustiças não nascem apenas de escolhas erradas dos indivíduos, mas também de estruturas, mecanismos, ordenamentos econômicos e culturais que geram desigualdade” e que “não é humano um desenvolvimento que aumenta o consumo de alguns, transferindo custos e danos para outros, ou que relega regiões inteiras a papéis subordinados”, como infelizmente está acontecendo hoje também no âmbito das novas tecnologias e dos recursos que elas exigem. Na encíclica, lê-se que é “doutrina certa” da Igreja a função social da propriedade privada e, hoje, entre os bens universalmente destinados a todos, “devemos incluir também as novas formas de propriedade: patentes, algoritmos, plataformas digitais, infraestruturas tecnológicas, dados”, para evitar que surjam ou se consolidem novas formas de exclusão e privação de liberdade. A técnica, de fato, não é um simples instrumento, e quando se torna critério, “acaba por determinar o que importa e o que pode ser descartado”, reduzindo “as pessoas a engrenagens de um sistema a ser tornado cada vez mais eficiente”.
Hoje, o controle das plataformas, das infraestruturas, dos dados e da capacidade computacional “não é prerrogativa dos Estados, mas de grandes atores econômicos e tecnológicos”, que estabelecem as condições de acesso, as regras de visibilidade e as próprias possibilidades de participação. Quando tal poder se concentra em poucas mãos, “tende a tornar-se opaco e a escapar ao controle público”, trazendo consigo o risco de um desenvolvimento distorcido “que gera novas dependências, exclusões, manipulações e desigualdades”.
O Papa, reiterando a superação da teoria da “guerra justa”, pede que o uso da inteligência artificial no campo de batalha seja submetido às mais rigorosas restrições éticas, pois “não existe algoritmo que possa tornar a guerra moralmente aceitável”. Além disso, a inteligência artificial tornou-se um elemento determinante para orientar a opinião pública por meio da manipulação de imagens e conteúdos, tornando cada vez mais difícil distinguir o verdadeiro do falso. Muitas são, ainda, as incógnitas que dizem respeito ao mercado de trabalho. A encíclica lembra, a esse respeito, que não é mais possível confiar apenas na “mão invisível” do mercado: cabe à política a tarefa de orientar as dinâmicas econômico-tecnológicas para o bem comum, promovendo trabalho digno, inclusão social e uma distribuição equitativa dos benefícios da inovação.
Manter-se humano, controlar os processos, evitar – também neste campo – monopólios que acabam por aumentar o poder de poucos em detrimento da vida de muitos: o caminho indicado pelo Pontífice não ergue barreiras nem rejeita a priori o uso da IA. Pelo contrário, ele destaca os muitos aspectos positivos e as inúmeras aplicações úteis, mas, ao mesmo tempo, explica que não basta fazer uma reflexão ética sobre o propósito bom ou mau para o qual ela é utilizada. É indispensável, de fato, intervir antes e questionar também como um sistema é projetado e qual a visão de pessoa e de sociedade que está inscrita nos dados e nos modelos que o orientam. Para isso, são necessários marcos jurídicos adequados, vigilância independente, educação dos usuários e, acima de tudo, mais uma vez, “uma política que não abdique de sua tarefa”. Caso contrário, a mudança será governada apenas por lógicas tecnocráticas e será apresentada como “necessária e inevitável”, acabando assim por impor regras “ditadas” por quem possui os dados, as infraestruturas e as capacidades de computação.
É necessário, portanto, “desarmar” a IA, ou seja, “romper essa equivalência entre poder técnico e direito de governar”. Não para renunciar à tecnologia, mas para impedir que ela domine o ser humano: ela deve ser tornada discutível, contestável e, portanto, habitável. Justamente para não abdicarmos de nossa humanidade, tão frágil e tão “magnífica”.
Nota do IHU
A íntegra da Carta Encíclica Magnifica Humanitas pode ser lida, em português, aqui.
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