O retorno dos deuses à polis. Artigo de Juan Salvador Pérez

Foto: Molly Riley/The White House/Flickr

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08 Mai 2026

"O retorno dos deuses à polis não significa necessariamente um aumento na fé espiritual, mas uma transformação do poder: diante da crise dos modelos racionais, os políticos optaram por recorrer ao tesouro de símbolos religiosos para criar uma nova legitimidade, por assim dizer, transcendente", escreve Juan Salvador Pérez, diretor da revista venezuelana SIC e advogado, em artigo publicado por Settimana News, 07-05-2026.

O artigo foi publicado em colaboração com a venezuelana Revista SIC.

Eis o artigo.

Ao longo da história da humanidade, houve e ainda há muitos políticos que inseriram, de forma enérgica e predominante, elementos religiosos em seus discursos. Isso é verdade, mas por que estamos testemunhando recentemente um retorno significativo do elemento religioso na política contemporânea?

A modernidade clássica, fundada no Iluminismo, prometia-nos a famosa tese da secularização, um "desencantamento do mundo", em que a religião se retiraria discretamente para o domínio da consciência privada, deixando a esfera pública nas mãos da gestão técnica e da razão burocrática. Contudo, o século XXI apresenta-nos um cenário inverso: uma clara ressacralização da esfera pública, ou pelo menos do discurso político.

Hoje, a política não se debate mais apenas no âmbito da eficiência administrativa e das políticas públicas, mas sim no terreno do sagrado. Passamos de uma política de soluções para uma política de salvação, onde o discurso público se enche de rituais, mártires e promessas de redenção.

O retorno dos deuses à polis não significa necessariamente um aumento na fé espiritual, mas uma transformação do poder: diante da crise dos modelos racionais, os políticos optaram por recorrer ao tesouro de símbolos religiosos para criar uma nova legitimidade, por assim dizer, transcendente.

Nesse cenário, o cidadão deixa de ser um interlocutor racional e se torna membro de uma congregação política que não busca argumentos, mas sim atos de fé.

A liturgia do poder

Compreender esse fenômeno exige um arcabouço teórico que desmantele a suposta laicidade de nossa era. Giorgio Agamben abre esse caminho argumentando que o Estado moderno não transcendeu a teologia, mas herdou sua estrutura funcional, onde o poder requer a "Glória" (acclamatio) — uma dimensão litúrgica de ritos e aclamações — para se sustentar.

Nessa "liturgia do poder", a opinião pública deixa de ser um espaço para debate e se torna uma massa que acena em concordância diante do espetáculo da imposição, permitindo que o Estado justifique medidas excepcionais sob uma estética do sagrado.

Essa transformação ontológica da política encontra um alerta contundente em Giovanni Sartori, que enfatiza que a democracia depende vitalmente de um pensamento aberto e negociável. Ao introduzir dogmas na esfera pública, o conflito político se transforma em um choque existencial: o compromisso — a essência da convivência democrática — torna-se impossível, já que diante do "infiel" ou inimigo moral, não há espaço para negociação, mas apenas para exclusão.

Essa patologia do discurso é identificada por Rodrigo Guerra López como uma instrumentalização da transcendência, na qual a fé é esvaziada de seu potencial humanizador e reduzida a uma ideologia de combate.

Nessa concepção, o símbolo religioso não busca mais a "amizade social", mas a mobilização emocional de um "povo" contra seus supostos inimigos, transformando o divino em uma arma de fragmentação.

Paralelamente a isso, e diante da falta de resultados concretos que gerou uma crise palpável de legitimidade institucional, o líder político refugia-se na história mítica e na "reserva moral" da nação, apresentando-se como o guardião de uma ordem natural ameaçada. Assim, a religião deixa de ser uma busca por sentido e torna-se uma âncora de identidade e um escudo retórico que protege o governante da crítica racional.

Deslocamentos simbólicos e novas mediações

A crise das instituições facilita e oferece terreno fértil para o surgimento de novas formas de legitimidade baseadas no sagrado.

A criação de órgãos governamentais dedicados a questões religiosas não deve ser entendida simplesmente como um gesto burocrático, mas como uma resposta à complexa sociografia da religiosidade no país.

De acordo com estudos recentes [1], a fé mantém uma profunda vitalidade na população, mas muitas vezes encontra-se dissociada das mediações institucionais tradicionais. Podemos perguntar-nos: será possível que, ao identificar este fenómeno, os atores políticos tenham tentado estabelecer uma mediação direta com os cidadãos-crentes, tentando ocupar o espaço de autoridade moral que historicamente pertenceu às igrejas?

Essa manobra não apenas fragmenta o diálogo religioso, mas reconfigura a relação entre o cidadão e o sagrado, subordinando-a a estruturas administrativas que operam segundo uma lógica de acompanhamento e cálculo político.

Quando o discurso público deixa de se concentrar na gestão de soluções materiais e passa a interpretar a precariedade como uma dimensão da identidade moral da nação, ocorre uma mudança na natureza da política. A crise apresenta-se então como um teste coletivo – uma espécie de teodiceia [2] – que exige uma resposta espiritual ou uma fidelidade mística a um legado histórico, o que dificulta o exercício da crítica racional e o debate sobre a eficácia das políticas públicas.

Nesse sentido, a "sacralização" não é um processo de espiritualização da política, mas um mecanismo de proteção simbólica que transfere a responsabilidade administrativa para o reino do inefável, onde a avaliação de resultados é substituída pela reafirmação de uma epopeia compartilhada.

Mas a pretensão ingênua de se apropriar politicamente das ações antigas de Deus muitas vezes entra em conflito com a realidade inexorável dos acontecimentos. Isso se reflete nos versos daquela estrofe popular anônima da tradição romântica espanhola do final da Idade Média: "Os sarracenos vieram e nos espancaram até sangrar, porque Deus ajuda os ímpios quando eles superam em número os bons."

O limite do sagrado e a ética do serviço

A persistência dessa ressacralização do poder evidencia que o risco fundamental não é a presença da religião na esfera pública, mas sim sua transformação em instrumento de dominação absoluta.

A verdadeira saúde de uma sociedade não é medida pela proliferação de órgãos estatais dedicados à religião, mas pela capacidade da política de reconhecer seus próprios limites e sua natureza essencialmente falível.

Reivindicar a política, portanto, exige um exercício de desmistificação: trazê-la de volta ao humano e ao negociável, onde o serviço ao bem comum prevaleça sobre a construção de liturgias ideológicas.

Enquanto a administração pública tentar "gerir a alma" para ocultar as suas deficiências na gestão da cidade, a democracia permanecerá vulnerável. O desafio contemporâneo reside na transição de uma política de aclamação para uma política de caridade e serviço, compreendendo que o poder só se justifica quando reconhecido como um papel transitório e limitado.

Retirar do Estado suas pretensões de divindade é o primeiro passo para curar a esfera pública e permitir que fé e política coexistam em um "laicismo saudável".

Só assim será possível reconstruir um espaço onde o diálogo seja real e onde a transcendência não seja um escudo para o poder, mas um horizonte que impulsione rumo a um compromisso genuíno com a justiça e a dignidade.

Rumo a uma idolatria política?

A convergência desses fatores — a liturgia do poder, a mudança da autoridade moral e a narrativa da teodiceia — sugere que não estamos testemunhando um uso acidental ou marginal da religião, mas a construção sistemática de uma idolatria política.

Nesse esquema, ocorre uma inversão ontológica na qual o Estado deixa de ser uma estrutura funcional a serviço da pessoa e se torna um fim em si mesmo, um "absoluto" que reivindica para si prerrogativas que pertencem exclusivamente à esfera da transcendência.

Essa distorção tem profundas consequências para a própria estrutura da sociedade, uma vez que, ao sacralizar o poder, desnaturalizamos o compromisso social; ao transformá-lo em uma forma de idolatria, os símbolos religiosos são esvaziados de seu potencial humanizador, sendo utilizados não para construir uma amizade social que reconheça a dignidade do outro, mas para validar a fragmentação e a exclusão daqueles que não compartilham do dogma oficial.

O antídoto para a idolatria política não é a ausência de valores, mas a construção de uma harmonia cívica (em termos aristotélicos) que coloque a dignidade intrínseca da pessoa acima de qualquer projeto de Estado ou liderança messiânica.

Concord como alternativa

A verdadeira alternativa à política de salvação não é o desinteresse cínico, mas a recuperação da concórdia (homonoia), aquela forma de amizade civil que Aristóteles descreve não como uma simples coincidência de opiniões sobre questões abstratas, mas como um acordo fundamental sobre o que é prático e conveniente para a vida em comum.

Enquanto a idolatria política busca a unidade através da submissão a um dogma ou a um líder que alega falar em nome de Deus, a concórdia aristotélica é construída de baixo para cima, quando os cidadãos "escolhem as mesmas coisas e alcançam o que é de interesse comum".

Aristóteles é categórico: a concórdia não consiste em todos pensarem a mesma coisa sobre todos os assuntos — o que seria uma uniformidade própria de uma congregação e não de uma polis —, mas na unanimidade em relação a questões de notável importância que dizem respeito a todos.

Numa democracia saudável, a harmonia surge quando as pessoas concordam sobre quem deve governar e segundo quais regras, permitindo que todos consigam o que desejam sem ter de recorrer à aniquilação moral do seu oponente.

Contudo, essa amizade civilizada é prerrogativa exclusiva dos "homens bons", daqueles cujos desejos são constantes e que aspiram ao que é certo e conveniente para todos. Quando a política se torna um campo de batalha de absolutos, a capacidade de "fazer o que é certo de bom grado" se perde, e a discórdia toma conta da esfera pública.

"Votar nos deuses" — isto é, confiar o mandato político a alguém que se apresenta como uma divindade infalível — significa, em última análise, renunciar à harmonia. Significa substituir a deliberação sobre o que é conveniente pela obediência a um ídolo, ou pior ainda, a um autoproclamado ídolo.

Somente através dessa harmonia, onde o interesse comum prevalece sobre a ambição individual de liderança, seremos capazes de curar a esfera pública e restaurar o indivíduo ao seu devido lugar: acima de qualquer projeto de Estado e a salvo de qualquer messianismo.

Notas

[1] A este respeito, vale a pena consultar os resultados do estudo sobre a sociografia da religiosidade na Venezuela, publicado pelo Centro Gumilla em 2025

[2] A teodiceia procura, através da teologia e da filosofia, justificar a bondade e a omnipotência de Deus face à existência do mal e do sofrimento no mundo.

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