08 Mai 2026
“A intersecção dessas duas grandes divisões – entre o emprego e o trabalho não remunerado, por um lado, e entre o trabalho voltado para a produção de bens e serviços dentro da estrutura do capitalismo e o trabalho voltado para a prestação de serviços às pessoas, por outro – resulta em quatro grandes áreas que poderíamos chamar de esferas do mundo do trabalho. Cada esfera tem seus próprios desafios, mas também existem desafios nas relações que elas estabelecem entre si”. A reflexão é de Marcos Supervielle, em artigo publicado por Brecha, 30-04-2026. A tradução é do Cepat.
Marcos Supervielle é sociólogo uruguaio e professor emérito, Grau 5, de Sociologia do Trabalho na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade da República.
Eis o artigo.
O conceito de trabalho designa a atividade que realizamos por meio de um esforço consciente e significativo. Não realizamos nosso trabalho de maneira indiferente; pelo contrário, valorizamos o trabalho que fazemos. Além disso, não se trata de uma atividade espontânea. Como prática social, o trabalho produz e é regulado por normas e regras. É, portanto, uma atividade socializada e, nesse sentido, possui um significado tanto individual quanto coletivo.
Como podemos ver, trata-se de uma noção complexa, que combina múltiplos significados que foram se acumulando ao longo do tempo. A própria noção de trabalho está frequentemente ligada à ideia de ganhar a vida. E, dessa forma, o trabalho se torna emprego. Todo emprego é um trabalho remunerado. Mas, embora o emprego e seus derivados – desemprego, trabalho informal, etc. – tenham se imposto no capitalismo, eles não abrangem necessariamente todo o universo do trabalho.
Outra distinção importante reside entre o trabalho voltado para a produção de bens e serviços no âmbito do desenvolvimento capitalista e o trabalho voltado para a prestação dos serviços essenciais à vida em sociedade: saúde, educação, cuidados, entre outros. Esses serviços podem ser prestados por meio do trabalho remunerado ou do emprego, ou podem ser realizados sem remuneração, principalmente no âmbito da família.
A intersecção dessas duas grandes divisões – entre o emprego e o trabalho não remunerado, por um lado, e entre o trabalho voltado para a produção de bens e serviços dentro da estrutura do capitalismo e o trabalho voltado para a prestação de serviços às pessoas, por outro – resulta em quatro grandes áreas que poderíamos chamar de esferas do mundo do trabalho. Cada esfera tem seus próprios desafios, mas também existem desafios nas relações que elas estabelecem entre si.
A primeira esfera é a do trabalho de produção de bens e serviços voltados para o capital por meio do trabalho remunerado (emprego), a segunda é a do trabalho remunerado voltado para a prestação de serviços às pessoas (também emprego), a terceira é a do trabalho não remunerado voltado para as pessoas e, finalmente, a quarta é a do trabalho não remunerado na produção de bens e serviços para o capital.
Primeira esfera
Na primeira esfera, à qual sociólogos e economistas tradicionalmente dedicam maior atenção, emergem dois grandes desafios. Por um lado, o impacto da inteligência artificial (IA) no emprego. E, por outro, as mudanças propostas nas relações de trabalho, com uma transição forçada de relações de subordinação (trabalho assalariado) para o trabalho sob regime de contratação independente.
A inteligência artificial (IA) vai transformar drasticamente o panorama desta esfera do mundo do trabalho, particularmente no que diz respeito aos serviços capitalistas: bancos, seguros, serviços administrativos que existem para dar suporte às necessidades da produção de bens, etc. No Uruguai, a crise de um capitalismo industrial orientado para a substituição de importações foi parcialmente compensada, em parte, pela criação de empregos no setor de serviços ao capital ligados às crescentes necessidades da globalização, da digitalização e da complexidade cada vez maior da sociedade e da economia. Esse crescimento está agora seriamente ameaçado pela incorporação massiva da IA, que muito provavelmente reduzirá a necessidade de empregos ao simplificar e acelerar os processos. O desafio é o que acontecerá com o número de trabalhadores que perderão seus empregos diante de uma revolução digital que parece inevitável.
Em segundo lugar, o que está em jogo no trabalho por aplicativo, por exemplo, é uma mudança qualitativa nos princípios legais. Estamos passando de uma legislação trabalhista que protegia o trabalhador e objetivava o trabalho – porque considerava a relação de emprego desigual entre o empregador e o próprio trabalhador – para uma relação de trabalho concebida como um contrato entre partes iguais, critério que marca uma clara distinção entre empregados e trabalhadores autônomos.
O trabalho das plataformas desafia toda a legislação trabalhista porque contrata como trabalhadores autônomos trabalhadores que, objetivamente, realizam o trabalho em uma relação de subordinação. E embora esses trabalhadores possam ganhar processos judiciais, tudo indica que as plataformas preferem perder casos a cumprir a legislação vigente. É bem possível que as perdas em processos sejam menos onerosas do que os lucros extraordinários que obtêm ao não cumprirem as leis trabalhistas do país. O desafio, nesse sentido, é que essas estratégias começarão a se expandir para outros setores produtivos.
Segunda esfera
As tecnologias digitais estão tendo um impacto profundo no trabalho remunerado voltado para as pessoas. Os serviços não são mais exclusivamente presenciais, mas também prestados remotamente por meio de telas, uma tendência evidente tanto na área da saúde quanto no crescente índice de evasão escolar em cursos presenciais. O desafio reside em determinar se a qualidade desses serviços está sendo mantida ou se está diminuindo.
Essas mudanças também alteram as relações entre as diferentes categorias de trabalhadores. Por exemplo, entre médicos e enfermeiras. Parece que estas últimas estão assumindo tarefas – e especialmente responsabilidades – que antes eram exclusivas dos médicos.
Essas transformações, por sua vez, são complexificadas pela expansão da lógica capitalista em termos de custos e benefícios que caracterizava a primeira esfera. De fato, por meio de novas governanças, esses serviços tendem a se adaptar às lógicas da rentabilidade e da terceirização dos serviços, especialmente na área da saúde, que passam a ser privatizados e rompem o contrato inicial entre a pessoa e a instituição.
Em outro nível, observa-se que o poder das administrações deslocou da linha de frente, pelo menos em parte, o papel dos médicos e dos professores. É evidente que essa mudança nos sistemas de saúde tem um limite, mas o desafio reside no fato de que esse limite permanece incerto. E o que se percebe é que as condições de trabalho de todos os profissionais da saúde, independentemente da sua categoria, estão sofrendo um declínio significativo nessa área. E as condições das pessoas que recebem esses serviços também estão se deteriorando.
Terceira esfera
O desenvolvimento mais significativo na esfera do trabalho não remunerado e centrado nas pessoas foi a aceitação de que o trabalho de cuidado deve ser considerado trabalho. O cuidado das crianças, tão antigo quanto a própria reprodução, no entanto, durante séculos não foi considerado como trabalho. Foi o feminismo que permitiu que o trabalho de cuidado fosse concebido como trabalho, tanto remunerado quanto não remunerado.
Muitos economistas acreditam que o trabalho de cuidado remunerado gerou uma nova e importantíssima fonte de emprego. Isso representa uma substituição do trabalho de cuidado não remunerado no seio familiar por trabalho remunerado. O trabalho de cuidado não remunerado tem um impacto muito significativo em nossa economia e certamente nas economias do mundo todo. Segundo a socióloga Rosario Aguirre e a economista Soledad Salvador, as horas dedicadas ao trabalho de cuidado não remunerado, se pagas com um salário médio, representariam mais de 25% do PIB nacional.
Isso coincide com a entrada em massa de mulheres no mercado de trabalho formal. Sociologicamente, isso representa um desafio em relação à divisão sexual do trabalho nos lares, à demanda por responsabilidade compartilhada nos cuidados e ao surgimento do trabalho de cuidado remunerado, seja por meio de cuidados individualizados ou em instituições especializadas. Nos lares mais pobres, contudo, observa-se que o trabalho de cuidado é delegado a meninas e adolescentes, o que, infelizmente, limita significativamente suas futuras oportunidades de emprego que estejam alinhadas com suas aspirações.
Quarta esfera
A quarta esfera do mundo do trabalho, raramente discutida, é a do trabalho não remunerado para empresas capitalistas.
O trabalho digital, especialmente o trabalho para os bancos de dados da inteligência digital, é em grande parte construído sobre o trabalho de todos nós que usamos ferramentas digitais, mesmo sem nos darmos conta disso. Essas novas formas de trabalho não remunerado possibilitaram a enorme acumulação de capital por empresas digitais em todo o mundo, sem criar qualquer força de trabalho real. Analisar esse tipo de trabalho é talvez o desafio mais importante que o mundo do trabalho enfrenta hoje: evitar rejeitar essas tecnologias de forma categórica, ao mesmo tempo que se previnem maiores injustiças para os trabalhadores.
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