Deus, estádios e votos: a fé como moeda eleitoral na corrida de 2026. Artigo de Mônica Lima

Fotos: ADVEC/Reprodução | Igreja Universal/Reprodução | Isac Nóbrega/PR/Flickr | Edição: IHU

07 Mai 2026

Em 2026, o que está em jogo não é apenas a Presidência da República, mas a alma de um país que precisa urgentemente distinguir quem governa em nome de todos e quem governa apenas em nome de Deus.

O artigo é de Mônica Lima, graduanda em Jornalismo pela Unisinos e membro da equipe do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

Eis o artigo.

No Brasil de 2026, a fronteira entre religião e política já não é apenas permeável, ela foi completamente dissolvida. O que se observa não é mais um fenômeno episódico, mas a consolidação de um projeto de poder.

Quando a Igreja Universal do Reino de Deus reservou nove estádios de futebol em diferentes regiões do país para a Sexta-Feira da Paixão, não havia como fingir que se tratava apenas de um ato de devoção. A mobilização “Família ao Pé da Cruz”, criada pelo bispo Edir Macedo, alcançou mais de 72 milhões de pessoas no mundo. A Universal nunca foi apenas uma igreja, trata-se de uma estrutura de poder com presença global, milhões de fiéis e um braço midiático robusto.

Esse ecossistema permite algo decisivo: transformar experiência religiosa em mobilização política. A iniciativa foi descrita como a maior demonstração de força já organizada por uma denominação religiosa no país. O evento ganhou contornos ainda mais explicitamente políticos quando o bispo Renato Cardoso apresentou a mobilização como resposta direta ao Carnaval, no qual a escola Acadêmicos de Niterói satirizou o conservadorismo ao homenagear Luiz Inácio Lula da Silva.

Nesse contexto, o pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro intensifica sua estratégia para crescer nas pesquisas buscando ampliar sua base entre os eleitores evangélicos. Segundo pesquisa do Datafolha, Flávio supera Lula nesse segmento, mas, no campo católico, perde para o presidente.

A peregrinação do senador por templos evangélicos é reveladora. Na Assembleia de Deus Ministério do Belém, ajoelhou-se diante de pastores e foi ungido pelo bispo José Wellington, que orou publicamente por sua eleição presidencial.

No último domingo (03/05), o pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo (ADVEC), realizou um culto com nítido caráter de propaganda eleitoral em favor de Flávio Bolsonaro. Durante o evento religioso, o pastor declarou publicamente: “É o tempo de apoiar o Flávio para a Presidência”.

A Associação Movimento Brasil Laico denunciou o episódio e solicitou a aplicação de sanções máximas a Malafaia, à ADVEC e a cinco pré-candidatos que subiram ao altar do culto, incluindo Flávio.

Embora o Brasil seja formalmente um Estado laico, as orações públicas direcionadas à promoção de candidatos seguem ocorrendo sem punição institucional efetiva. O custo da violação é baixo, mas o ganho eleitoral, altíssimo.

O problema não é que um político seja religioso, mas quando o aparato institucional das comunidades religiosas é convertido em máquina eleitoral, com a fé servindo de adubo para o ódio ao diferente. Como alerta a cientista política Ana Carolina Evangelista, esse processo torna praticamente impossível dissociar a moral religiosa, as agendas políticas e os dilemas pessoais, criando um eleitorado blindado contra a crítica democrática e permeável à demonização do adversário.

Quem controla os mecanismos de mediação religiosa influencia, em grande medida, a formação da consciência política de parcelas significativas da população. Essa radicalização já é classificada por autores como cristofascismo — a convergência entre fundamentalismo religioso e autoritarismo político, na qual a divergência se converte em heresia e a oposição em inimigo espiritual.

Projetado sobre as eleições de 2026, esse cenário revela uma disputa que ultrapassa candidaturas individuais: trata-se de um embate entre redes de influência, capazes de moldar percepções, valores e decisões políticas em larga escala.

A frase popular de que “religião e política não se discutem” perde sentido diante de um contexto em que ambas se entrelaçam de maneira estrutural, produzindo riscos diretos à democracia.

Em 2026, o que está em jogo não é apenas a Presidência da República, mas a alma de um país que precisa urgentemente distinguir quem governa em nome de todos e quem governa apenas em nome de Deus.

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