Do mulungu à Presidência: Niterói abre o Especial com desfile político e vibrante

Foto: Alexandre Macieira | Riotur

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19 Fevereiro 2026

Acadêmicos de Niterói não apenas abriu o Grupo Especial, mas também um debate em plena Marquês de Sapucaí

O comentário é de Guibsom Romão, jornalista, publicado por Agenda do Poder, 16-02-2026.

Eis o texto. 

Com o enredo “Do Alto do Mulungu Surge a Esperança: Lula, o operário do Brasil”, de autoria do carnavalesco Tiago Martins, a Acadêmicos de Niterói abriu os desfiles do Grupo Especial nesta noite de domingo com um desfile crítico, engraçado e visualmente competente.

Argumentando que Lula é o político mais bem-sucedido de seu tempo, a escola defendeu o seu enredo. O desfile contou com a abertura da cantora Fafá de Belém cantando o clássico “O Que É o Que É?” de Gonzaguinha, levantando e emocionando a Sapucaí. Além do grito “Sem Anistia” entoado pelo setor 1 segundos antes do início do desfile.

Semanas antes do carnaval, a oposição tentou barrar o desfile na Justiça, alegando propaganda eleitoral antecipada. O partido Novo acionou o TSE, em outra ação, a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) acionou o Ministério Público Eleitoral para também questionar o desfile, assim como o deputado federal Kim Kataguiri (União-SP), porém a Justiça Federal rejeitou todas as ações. O juiz federal Francisco Valle Brum indeferiu os pedidos apresentados pelos parlamentares, sob o argumento de que não cabe ação popular neste caso.

Lula já havia sido enredo no carnaval, mas em São Paulo, pela Gaviões da Fiel em 2012, com o enredo “Verás que um filho fiel não foge à luta – Lula, o retrato de uma nação”. Na ocasião, Lula não desfilou, pois estava em meio ao tratamento do câncer na laringe, mas dona Marisa Letícia, sua falecida esposa, esteve presente em um carro alegórico do desfile da agremiação paulista. Ao contrário da atual primeira-dama Janja da Silva, que, assim como ele, não desfilou nesta noite, mas esteve presente no sambódromo, assistindo ao desfile no camarote da Prefeitura do Rio de Janeiro.

Estiveram presentes no desfile a atriz Juliana Baroni, que interpretou a ex-primeira dama Marisa Letícia no filme “Lula, o filho do Brasil”, e o ator Paulo Vieira, respectivamente representando Marisa e Lula no desfile.

A Acadêmicos de Niterói apresentou um desfile dividido em cinco setores que narraram, em ordem cronológica e simbólica, a trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva. O primeiro setor retratou seu nascimento em Garanhuns, no agreste pernambucano, mesclando realismo fantástico e tradição oral para simbolizar esperança em meio à adversidade; o segundo abordou a migração da família Silva para São Paulo, impulsionada pela seca dos anos 1950, evidenciando o destino retirante; o terceiro destacou sua atuação como torneiro mecânico, líder sindical durante a Ditadura Militar e fundador do Partido dos Trabalhadores, culminando na eleição como deputado constituinte e presidente; o quarto enfatizou as políticas sociais implementadas em seus mandatos e os embates de classe que marcaram o período; e o quinto encerrou a narrativa com seu terceiro mandato, exaltando pautas trabalhistas e a defesa da soberania nacional diante de tensões políticas contemporâneas.

A comissão de frente, chamada ‘O amor venceu o medo’, coreografada por Handerson Big e Marlon Cruz, simbolizou, de forma dramática e cômica, a trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva como símbolo da luta pela cidadania. A encenação apresentou sua ascensão como representante das camadas populares, a ruptura institucional de 2016 e o período de crise que se seguiu, culminando na anulação das condenações e em sua recondução à Presidência como gesto de reparação democrática e reafirmação da soberania.

Ao tratar da trajetória política do homenageado, em cima do tripé, a escola trouxe representações de Lula, Dilma, Michel Temer, Alexandre de Moraes e Bolsonaro caracterizado como Bozo. Do ministro do STF vigiando o ex-presidente atualmente preso, a Lula subindo a rampa de braço dado com o povo, simbolizando a posse do terceiro mandato, a comissão de frente da Niterói empolgou a arquibancada e passou o recado de que teriam mais polêmicas no desfile.

Em tons terrosos e fluorescentes, o abre-alas ‘Do alto do mulungu surge a esperança’ trouxe elementos que remetem à natureza do agreste pernambucano, e ao alto do mulungu, árvore típica do Nordeste, Lula, em uma escultura, surge.

A terceira alegoria ‘Feito metal: de operário a presidente’ representou, com tons de cobre, o protagonismo de Lula, referenciando o universo da metalurgia. Com engrenagens, que voltam a aparecer enquanto signo, dão significado ao tempo. O seu girar é a significação dos anos percorridos por Lula até vencer a eleição presidencial. No topo da alegoria, estava uma escultura de um homem de ferro com a faixa de presidente no corpo.

O carro alegórico “O Brasil mudou de cara” trouxe na sua traseira um palhaço Bozo com roupa de presidiário enjaulado e com tornozeleira eletrônica.

A quinta e última alegoria, ‘Vale uma nação, vale um grande enredo’, que exaltou a figura de Lula, como, segundo o livro abre-alas do desfile, o mais importante político da história recente brasileira. Teria a primeira-dama Janja como destaque, mas ela estava no camarote com o homenageado assistindo ao desfile. Na alegoria estavam convidados do presidente, como Fafá de Belém, Júlia Lemmertz, Chico Diaz, Débora Lamm, Elisa Lucinda, Bete Mendes, Inês Vianna, Paulo Betti, Hildegard Angel, etc.

O casal de mestre-sala e porta-bandeira, Emanuel Lima e Thainara Matias, vestiram a fantasia ‘Luar do Sertão’, toda azul e branco, cores da escola, a indumentária simbolizou a noite, por meio de uma das mais conhecidas canções do cantor nordestino, “Não há, ó gente, ó não/Luar como esse do sertão”. A dança do casal foi bem executada em todos os módulos de jurados.

As fantasias apresentaram um acabamento artístico bem executado, além do teor crítico, como nas alas ‘Neoconservadores em conserva’, simbolizando, em latas de conserva de ervilhas com o rótulo de uma família feliz a oposição de o presidente enfrenta no Congresso Nacional; a ala ‘Patriotas da América’ trouxe Mickeys com o boné escrito “Make America Great Again” em referência às ameaças à soberania nacional feitas pelo governo norte americano; e por fim, a ala ‘O Brasil pelos brasileiros’ que, a frente do último carro alegórico, representou o carnaval como lugar de manifestação política e afirmação fechavam o desfile antes do último carro.

O samba-enredo da escola é recheado de referências políticas e históricas da vida de Lula. Trechos como “Eu Vi Brilhar A Estrela De Um País”, “Por Ironia, Treze Noites, Treze Dias”, “Sem Temer Tarifas E Sanções, Assim Que Se Firma A Soberania, Sem Mitos Falsos, Sem Anistia” entre outros preparavam o canto da Sapucaí que explodia no refrão “Olê, Olê, Olê, Olá, Vai Passar Nessa Avenida Mais Um Samba Popular Olê, Olê, Olê, Olá, Lula! Lula!”.

No fim das contas, a Acadêmicos de Niterói não apenas abriu o Grupo Especial, mas abriu também um debate em plena Marquês de Sapucaí. Entre aplausos e um canto forte que ecoou do setor 1 às frisas, a escola transformou a avenida em palanque simbólico, reafirmando o carnaval como território de memória, disputa e manifestação popular. Com um desfile visualmente impactante e assumidamente posicionando-se a favor de seu homenageado, a Niterói fez da arte seu argumento, e deixou claro que, na Sapucaí, política e samba continuam desfilando lado a lado, sob os holofotes e sob o olhar atento do país.

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