Do Benin a Madureira: a viagem ancestral da Portela rumo ao Sul do Brasil

Foto: Agência Brasil

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19 Fevereiro 2026

Com o enredo ‘O Mistério do Príncipe do Bará, a Oração do Negrinho e a Ressurreição de sua Coroa sob o Céu Aberto do Rio Grande’ a azul e branco de Madureira fez uma viagem transatlântica, pousou no Rio Grande do Sul e evidenciou na avenida a presença negra no estado. 

O comentário é de Guibsom Romão, jornalista, publicado por Agenda do Poder, 16-02-2026.

Eis o texto. 

A maior campeã do carnaval, pisou forte na Sapucaí, com uma comissão arrebatadora e emocionante, problemas na concentração que comprometeram a evolução da escola, a Portela fez bonito na avenida.

Com o enredo ‘O Mistério do Príncipe do Bará, a Oração do Negrinho e a Ressurreição de sua Coroa sob o Céu Aberto do Rio Grande’, criado pelo carnavalesco André Rodrigues, a azul e branco de Madureira, a partir da história de Custódio Joaquim de Almeida, fez uma viagem transatlântica, pousou no Rio Grande do Sul e evidenciou na avenida a presença negra no estado, que, segundo o IBGE, é o estado com a maior proporção de adeptos de religiões afro-brasileiras, superando a Bahia e o Rio de Janeiro.

A Portela apresentou um desfile estruturado de forma cíclica, dividido em duas partes interligadas por narradores e pela simbologia das encruzilhadas, tendo como eixo central a trajetória mítica de Custódio Joaquim de Almeida, o Príncipe Custódio, e o diálogo entre o Negrinho do Pastoreio e o Orixá Bará. No abre-alas, a escola introduziu a fábula afro-gaúcha e a ancestralidade negra do Rio Grande do Sul, desenvolvendo, na primeira parte, a origem africana de Custódio, vindo do Benin, sua chegada a Porto Alegre e sua atuação como liderança espiritual e articulador do Batuque, religião afro-gaúcha. No setor central, representado pela alegoria do Mercado Público, a narrativa transitou para o legado político, religioso e social do príncipe, destacando a organização das nações do Batuque e a resistência negra no pós-abolição. Na parte final, a escola ressignificou a figura do Negrinho do Pastoreio, lenda gaúcha, transformando-o em símbolo de libertação e herdeiro da coroa ancestral, encerrando o cortejo com a exaltação da união da população negra, dos movimentos sociais afro-gaúchos e da permanência do legado cultural e espiritual no presente.

O desfile contou com a participação da apresentadora Adriane Galisteu, que já foi rainha de bateria da Portela por 4 anos, o ator Amaury Lorenzo que representou o Rei de Sakpatá e a atriz Sheron Menezzes que também já foi rainha de bateria da agremiação por 2 anos.

A comissão de frente, intitulada ‘A Portela Traz o Batuque de Custódio’, sintetizou sua narrativa em dois grandes momentos. No primeiro, apresentou a abertura e o assentamento dos caminhos sob a proteção de Bará, com o Príncipe Custódio conduzindo o cortejo e a queda do Negrinho do Pastoreio simbolizando o apagamento e a perseguição à cultura afro-gaúcha. No segundo, a encenação evoluiu para a celebração e a redenção, com o xirê dos orixás afirmando a força do Batuque e o retorno do Negrinho, revitalizado, indicando a superação histórica e a consagração de novos caminhos entre o Sul e Madureira.

O clímax da apresentação, que levantou as arquibancadas aos berros, foi quando, de dentro do tripé, saiu um bailarino representando o Negrinho do Pastoreiro e voou sobre a avenida, com a ajuda de dois drones. No telão de led do tripé, a foto do intérprete Gilsinho, que era intérprete da Portela por quase 20 anos, falecido em setembro de 2025, emocionou o público.

O abre-alas, com a clássica Águia e seu grito, que acompanha a Portela nos seus 102 anos de existência, veio todo em azul e branco, cores da escola. Chamado ‘Vai Fazer Libertação’, veio opulento e causou um ótimo impacto visual na pista, a iluminação cênica da avenida contribuiu para ressaltar a beleza da alegoria.

O tripé ‘Aláfia do Destino no Ifá!’ tinha uma escultura imensa representando Mami Wata, a grande Sereia, que derrubava água na embarcação, que se movimentava, simbolizando a vinda do príncipe Custódio ao Brasil pelo oceano Atlântico. O impacto da água despencando foi estonteante.

O casal de mestre-sala e porta-bandeira, Marlon Lamar e Squel Jorgea, dançou juntos pela terceira vez na Portela. Com a fantasia ‘O Lume Oculto se Revela’, bailaram com maestria e lindamente com as cores da escola estampadas na brilhante indumentária do casal.

Iluminando a Sapucaí, a ala ‘Xirê Do Batuque, Assentando A Africanidade’ contou com mais de 300 componentes vestindo fantasias com 10 cores diferentes, mas o destaque foram as luzes que piscavam nas asas e saia da indumentária. Quando as luzes do sambódromo se apagavam, o efeito era de brilhar os olhos, literalmente.

A última alegoria ‘Sob o Céu do Rio Grande: o Príncipe Herdeiro’, que trouxe a velha-guarda, enfrentou problemas para entrar na avenida, fazendo com que a escola ficasse muito tempo parada na frente dos módulos dos jurados, no entanto, não abriu buraco diante deles.

No conjunto, a Portela reafirmou sua grandeza ao transformar fé, memória e resistência em espetáculo, ainda que os entraves na evolução tenham tensionado o andamento do desfile. Entre voos simbólicos sobre a Sapucaí, homenagens emocionadas e uma plástica impactante, a azul e branco de Madureira sustentou com garra a narrativa do Príncipe Custódio e do Batuque, encerrando sua passagem com a força de quem conhece o peso da própria história e, mesmo diante dos percalços, sabe honrar a coroa que carrega há mais de um século.

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