Vozes de Emaús: O capitalismo está vencendo, mas não vencerá. Artigo de Celso Pinto Carias

Arte: Lauren Palma | IHU

01 Mai 2026

"Quando o dinheiro não comprar mais nada, o cartão de crédito for completamente inoperante, em pequenos nichos de sobrevivência, o capitalismo será derrotado, não pelo “monstro comunista”, mas por crianças que saberão viver com o pouco."

O artigo é de Celso Pinto Carias (o "Mendigo de Deus"), doutor em teologia e professor na PUC-Rio, assessor da Ampliada Nacional das CEBs e do Setor CEBs do Comissão Pastoral Episcopal para o Laicato da CNBB.

Celso Pinto Carias. (Foto: Arquivo Pessoal)

O presente texto integra a coluna Vozes de Emaús, que conta com contribuições semanais dos membros do Grupo Emaús. Para saber mais sobre o projeto, acesse aqui

Eis o artigo.

A vitória total do capitalismo é a derrota da humanidade - Não do planeta ou do restante da natureza, pois a terra, de uma forma ou de outra, sempre se reconstitui. A lógica vampiresca do capitalismo pode ser melhorada, sofisticada, apresentada até com certa suavidade, quando se fala, por exemplo, de “desenvolvimento sustentável”. Mas desenvolvimento implica extrativismo, sugar matéria prima não renovável, e mesmo com algum nível de reciclagem, há sempre produtos extremamente dependentes de volumes enormes de material vindo da natureza.

Tomemos um exemplo da hora. A tal “inteligência artificial”, IA. Um “data center” exige milhões de metros cúbicos da água por dia para processar o resfriamento necessário. Para cada 10 a 50 perguntas ao ChatGPT se faz necessário 500 litros de água para resfriar. Então, quando um de nós usa a IA, sem perceber, estamos gastando água. Quando alguém lava a calçada com água potável a gente identifica rapidamente uma anomalia, mas quando teclamos no computador, como perceber? Por isso, não canso de afirmar: o capitalismo é diabólico.

Como disse certa vez um economista: “Quem acredita que um crescimento infinito é possível em um mundo finito, ou é louco ou é economista”. Contudo, a voz deste economista e de alguns outros não está sendo ouvida. Os tecnocratas, os economistas liberais, e os políticos da governabilidade possível, revestidos de diversas matizes ideológicas, de esquerda e de direita, saem sempre com esta afirmação: “o que vocês têm para propor?” Sim, há uma complexidade gigantesca nos processos de organização da sociedade. Contudo, a questão é que se negocia o “mal menor” sem, ao mesmo tempo, começar a ensaiar soluções que permitam, como diz Ailton Krenak, adiar o fim do mundo.

Então, em meio ao vazio propositivo, na ausência de criatividade, sem buscar novas alternativas, boa parte das pessoas progressistas continua dando respostas velhas a perguntas novas. Como diz o meu amigo cearense Carlos Jardel, de Camocim, “se insiste com o que não se sustenta”. Enquanto isso, a extrema-direita vai fazendo festa.

A vitória do capitalismo está se dando, e vai ser mantida ainda por algum tempo. Porém, já há sinais de desgastes. Sinais que precisarão aumentar, infelizmente, para que a humanidade mude de direção. Haverá muita dor e sofrimento até que se perceba o quanto se sugou da terra. Um sinal é a matança de civis, incluindo crianças, indiscriminadamente nas guerras atuais, produzidas por capitalistas que estão percebendo sua economia entrar em crise. O “direito internacional” virou balela. Também não se pode deixar de mencionar os desastres climáticos e os crimes ecológicos, como os da mineração. Mas até que o arco-íris brilhe no céu depois do dilúvio, mais do que 40 dias serão necessários, talvez mais do que 40 anos. Estamos debaixo deste número 4, que simboliza o tempo da provação. É o nosso deserto.

Com um realismo esperançoso, como diria Suassuna, é possível vislumbrar caminhos. Caminhos que serão trilhados por quem acreditar na força da periferia, na força de homens e mulheres, adultos e jovens, e até crianças que acreditam na necessidade de uma vida frugal, uma vida que partilha, uma vida, como os cristãos do Atos dos Apóstolos afirmam: tenha tudo em comum. Muitos dirão que isso não é realista, um sonho impossível. Contudo, os sinais estão crescendo, vamos esperar quanto tempo para começar, juntos e juntas, a trilhar um novo caminho?

Há um acontecimento recente que pode ser de grande inspiração para perceber que depois da vitória do capitalismo, ele será sucumbido em si mesmo, pois como em filmes distópicos, somente os mais adaptados sobreviverão. Não os mais fortes. Trata-se da sobrevivência de crianças indígenas em um desastre aéreo na Colômbia no meio da floresta: Lesly Mucutuy, 13 anos, Soleiny Mucutuy, 9 anos, Tien Mucutuy, 4 anos, e Cristin Mucutuy, que completou um ano quando estava na mata. Foi em maio de 2023. Por 40 dias as equipes de busca procuraram, até encontrar 4 crianças, fracas, mas vivas. O que as manteve vivas? A ancestralidade, a sabedoria indígena apreendida na convivência tribal. Quando o dinheiro não comprar mais nada, o cartão de crédito for completamente inoperante, em pequenos nichos de sobrevivência, o capitalismo será derrotado, não pelo “monstro comunista”, mas por crianças que saberão viver com o pouco.

Dom Mauro Morelli gostava muito de citar Isaías 65,20: “Não haverá crianças que vivam apenas alguns dias, pessoas idosas que não levem a pleno termo os seus dias. Pois será jovem quem morrer aos cem anos”. O amigo Mauro morreu acreditando que um dia o flagelo da fome seria superado. Sim, este dia chegará, mas precisaremos aprender primeiro, como as 4 crianças indígenas, a sobreviver na floresta.

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