16 Abril 2026
Nesta manhã (15), milhares de trabalhadores e trabalhadoras de todas as regiões do país ocuparam Brasília em uma grande mobilização nacional em defesa de direitos. A Marcha da Classe Trabalhadora, organizada por centrais sindicais e movimentos sociais, reuniu categorias diversas com uma série de reivindicações, tendo como principal pauta o fim da escala 6×1 sem impacto no salário e a redução da jornada de trabalho.
A reportagem é de Ana Beatriz Assenço e Kennedy Cruz, publicada por Brasil de Fato, 15-04-2026.
A concentração começou por volta das 8h, no estacionamento do Teatro Nacional Cláudio Santoro, de onde os manifestantes seguiram pelo Eixo Monumental em direção à Esplanada dos Ministérios. À tarde, os trabalhadores seguem até o Palácio do Planalto, onde serão recebidos pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e ministros do governo federal para a entrega da Pauta da Classe Trabalhadora, documento que reúne 68 itens prioritários para os próximos anos.
O ato ocorre em um momento considerado estratégico pelo movimento sindical, após o encaminhamento, feito pelo presidente Lula na terça-feira (14), do projeto de lei ao Congresso Nacional que propõe o fim da jornada 6×1, com a redução do limite semanal de 44 para 40 horas, sem redução salarial e com adoção da escala 5×2. A proposta foi enviada em regime de urgência, o que obriga o Legislativo a analisar em até 45 dias.
Sérgio Nobre, presidente nacional da Central Única dos Trabalhadores (CUT) declarou a data como vitoriosa para a classe trabalhadora e reiterou o papel fundamental da mobilização nas ruas. “São milhões de trabalhadores, na sua maioria jovens, que estão à margem dos direitos sindicais, dos direitos trabalhistas, dos direitos sociais. Nós precisamos incluir esse povo nos direitos. E nós queremos também que os servidores públicos, seja municipal, estadual ou federal, tenham regulamentado seu direito de negociação”.
Ele também destacou a importância da pressão popular junto ao Congresso para “mostrar aos deputados que nós somos muito bons de articulação institucional, mas que nós somos muito bons de rua também”.
Pressão política
Presente no ato, o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, criticou a tentativa de setores da oposição de adiar a votação da proposta. “Eles sabem que o deputado, o senador que votar contra [o fim da escala 6×1] vai ser cobrado na urna. Então, o partido do Bolsonaro queria jogar [a votação] para depois da eleição, para eles não pagarem o preço porque são contra os trabalhadores”.
Ele afirmou que o projeto foi entregue com caráter de urgência e reforçou a necessidade de implementação rápida da medida. “Não precisa de 5 anos, 90 dias dá conta. Porque o trabalhador tem urgência”.
Além dele, parlamentares da base do governo também prestaram apoio à marcha. O deputado federal Rogério Correia (PT-MG) reforçou o papel da mobilização popular na conquista de direitos. “A luta faz a lei. E vocês hoje anunciaram para o Brasil que a vitória virá com o fim da jornada 6×1.”
O deputado distrital Chico Vigilante (PT-DF) enfatizou a importância da medida para as mulheres trabalhadoras. “As mulheres trabalhadoras brasileiras têm até uma tripla jornada de trabalho. A mulher cuida do emprego, depois quando chega em casa tem que cuidar de tudo”.
O parlamentar também reforçou que críticas empresariais a direitos trabalhistas repetem argumentos históricos, e conclui que, no fim das contas, as reivindicações trouxeram bons resultados para o país.
Sindicatos e movimentos sociais
Rejane Soldani, presidente do Sindicato dos Guardas Municipais de Curitiba (PR) e secretária da União Geral dos Trabalhadores (UGT), foi uma das várias representações sindicais que marcaram presença na marcha. Soldani acrescenta que o movimento é essencial para a garantia dos direitos, dentre eles a jornada de trabalho digna.
“É muito necessário diminuir a jornada de trabalho, combater a escala 6×1, porque no final das contas, o trabalhador vende o seu tempo de vida e ele precisa ter um tempo de vida de qualidade. Ele precisa ter tempo para estudar, ele precisa ter tempo para sua família, ele precisa ter tempo para participar da comunidade”, disse.
Elisa Mergulhão, da coordenação nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), destacou que avanços em direitos essenciais só ocorrem com pressão popular. “Essa marcha representa essa unidade da classe trabalhadora, os sindicatos, os movimentos sociais para poder pressionar”, afirmou.
Vida do trabalhador
A deputada federal Dandara Tonantzin (PT-MG) reforçou o impacto social da proposta para a população trabalhadora. “A redução da jornada é uma pauta de justiça social”, defendeu.
Vânia Marques, membro da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) também demonstrou apoio à redução de jornada. “E é fundamental trazer essa pauta porque o trabalhador e a trabalhadora têm que ter direito de viver, e nós só vamos ter direito de viver quando a gente tiver direito ao nosso descanso.”
Na terça (14), o presidente Lula encaminhou oficialmente a proposta ao Congresso Nacional, com publicação em edição extra do Diário Oficial da União. “A proposta devolve tempo aos trabalhadores e trabalhadoras: tempo para ver os filhos crescerem, para o lazer, para o descanso e para o convívio familiar. Um passo para um país mais justo e com mais qualidade de vida para todos”, declarou o presidente nas redes sociais.
O projeto prevê que a redução da jornada seja aplicada a contratos em vigor e futuros, sem alteração de pisos salariais e abrangendo diferentes regimes de trabalho. Atualmente, cerca de 37,2 milhões de trabalhadores brasileiros têm jornadas superiores a 40 horas semanais, o equivalente a 74% dos celetistas, enquanto aproximadamente 14 milhões atuam na escala 6×1.
Próximos passos
Além da redução da jornada, a pauta da marcha inclui temas como o combate ao feminicídio, a valorização do salário mínimo, a igualdade salarial entre homens e mulheres e o enfrentamento à pejotização irrestrita. O documento com 68 propostas será entregue ao governo federal como base para as negociações e mobilizações do próximo período.
A expectativa das centrais sindicais é de que o Congresso avance na tramitação do fim da escala 6×1 dentro do prazo de urgência. Ao mesmo tempo, o movimento reforça que a mobilização popular seguirá sendo fundamental para garantir a aprovação das medidas e a ampliação de direitos.
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