A palavra guerra não é usada pelos Estados Unidos nesse evento em curso contra o Irã: “Eles falam em conflito ou em intervenção. Curiosamente é o mesmo tipo de retórica utilizada pelo governo Putin que denomina a guerra contra Ucrânia de ‘intervenção especial’. A semântica da linguagem nunca é inocente”, pondera o filósofo Castor Mari Martín Bartolomé Ruiz no artigo especialmente escrito ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU. Em sua análise, “a guerra tornou-se um dispositivo de policiamento do mundo com objetivo de manter governos subservientes aos interesses das potências dominantes. Com isso, a guerra contemporânea entrou na lógica da governamentalização das populações através de dispositivos de exceção.” A Teologia política sectária da guerra do Armagedom e o papel duvidoso de bilionários do Vale do Silício como Peter Thiel nesse contexto são outros aspectos desenvolvidos na reflexão.
Castor M. M. Bartolomé Ruiz é professor colaborador do Programa de Pós-graduação em Filosofia da Unisinos, graduado em Filosofia pela Universidade de Comillas, na Espanha, mestre em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e doutor em Filosofia pela Universidade de Deusto, Bilbao. É pós-doutor pelo Conselho Superior de Investigações Científicas. Membro da diretoria da Associação Ibero Americana de Filosofia Política (AIFP), coordena o Grupo de Pesquisa CNPq, "Ética, biopolítica e alteridade" e a Cátedra Unesco-Unisinos de Direitos Humanos e violência, governo e governança. Escreveu inúmeras obras, das quais destacamos: La mímesis humana: la condición paradójica de la acción imitativa (OmniScriptum Management GmbH – EAE, 2016); Os paradoxos do imaginário (Editora Unisinos, 2015) e Direito à justiça, memória e reparação (Casa Leiria, 2010).
A guerra contra o Irã representa um passo a mais para o abismo da barbárie nas relações internacionais, no direito humanitário e na própria compreensão da humanidade do outro como nosso próximo. Os governos de Trump-EUA e Netanyahu-Israel mostram o rosto mais perverso da barbárie sob a maquiagem dos civilizados. A estratégia colonialista de retratar o outro como bárbaro para poder exterminá-lo impunemente, nada mais é que o espelho da hipocrisia daqueles que se pensam civilizados.
Uma primeira observação importante é que os Estados Unidos, na guerra contra o Irã, não pronunciam a palavra guerra. Eles não estão em guerra, para eles não há uma guerra. Eles falam em conflito ou em intervenção. Curiosamente é o mesmo tipo de retórica utilizada pelo governo Putin que denomina a guerra contra Ucrânia de “intervenção especial”. A semântica da linguagem nunca é inocente. Neste caso revela o princípio de que as guerras contemporâneas são concebidas cada vez mais como uma espécie de intervenção policial para gerenciar a ordem mundial. A guerra tornou-se um dispositivo de policiamento do mundo com objetivo de manter governos subservientes aos interesses das potências dominantes. Com isso, a guerra contemporânea entrou na lógica da governamentalização das populações através de dispositivos de exceção. Assim, a guerra se torna um dispositivo de exceção que tem por objetivo conduzir os governos díscolos para a dinâmica dos interesses das potências dominantes. Por isso, o governo Trump diz que não faz guerras, só intervenções de exceção para reconduzir os governos de oposição dentro da estratégia dos seus interesses.
Cada vez está mais explícito que o ataque a Irã pelos governos de Trump e Netanyahu tinha vários objetivos superpostos. No caso específico do governo Trump é sempre conveniente destacar que provocar esta guerra foi para ele a oportunidade perfeita para despistar a pressão da opinião pública a respeito de suas profundas implicações nos escândalos sexuais que estão vindo à luz nos arquivos de Jeffrey Epstein. Escândalos que o incriminam diretamente como um predador sexual de menores. É provável que pensasse que a guerra contra Irã seria uma intervenção fácil e rápida, como foi na Venezuela. Assim ele poderia mostrar mais um trunfo bélico do seu poderio que consolidasse sua estratégia de poder unipolar pela força no cenário das relações internacionais, anulando o direito internacional e desconsiderando todos os tratados e organizações como a ONU, para impor pela força seus interesses, quase que sua vontade. É muito provável que na cartografia linear de sua mente e na de seus assessores, a intervenção rápida e vitoriosa em Irã pavimentaria ainda mais o caminho para as estratégias de força de um poder unipolar em outros lugares como Cuba, Groenlândia, Panamá e quem sabe até conseguir, como é sua pretensão, anexar-se o Canada como o 51 estado do EUA.
Ainda, entre os vários objetivos superpostos dos estrategistas do governo Trump, o objetivo principal sempre é isolar a China, neste caso das fontes de petróleo do Irã. O ataque à Venezuela também tinha, entre outros objetivos, impedir a venda de petróleo barato da Venezuela a China, que era seu principal cliente. Ainda cabe destacar que o comércio internacional do petróleo destes países não era feito em dólares, senão em yuans. Isso atinge diretamente um dos alicerces do capitalismo financeiro mundial imposto pela administração dos EUA que, na década de 1970, determinou que todas as transações de petróleo da OPEP deveriam ser feitas em dólares americanos. Essa imposição do petrodólar como moeda internacional cria uma alta demanda de dólares. Os países exportadores depositam os excedentes em bancos ocidentais, que por sua vez os invertem. Desse modo, se ajuda a financiar o déficit dos Estados Unidos. A guerra contra o Irã também tinha este objetivo estratégico de impor que o petróleo de Irã retornasse ao circuito dos petrodólares, isolando ainda mais a capacidade econômica da China.
Os fatos estão mostrando que estas elucubrações simplistas dos estrategistas do governo Trump não estão acontecendo tão facilmente como pensavam. A capacidade de resistência e de ataque do exército de Irã está surpreendendo e mostrando que se tinha uma visão ingênua e superficial de uma sociedade complexa e milenar como é a cultura persa no Irã. Esse país está conduzindo a guerra de modo estratégico, como uma guerra assimétrica de resistência. A cada ataque responde de modo surpreendente na mesma proporção. Está utilizando a economia do petróleo no Estreito de Ormuz como uma arma de guerra. Com isso, transformou um conflito regional em um conflito mundial.
Há muitos elementos que estão sendo destapados por esta guerra, mas queremos destacar um deles que está sendo menos percebido, embora se constitua vital da “alma” de muitos sujeitos implicados nas decisões sobre esta guerra. Nos referimos ao fundamentalismo religioso proveniente de determinadas seitas neopentecostais de matriz protestante e de alguns grupos minoritários ultraconservadores católicos. Muitos generais e altas patentes do exército e também altos cargos do governo Trump estão profundamente influenciados pelas pregações destes pastores mais fanáticos que anunciam que esta guerra constitui a anunciada batalha do Armagedom.
Oración por Trump y las Fuerzas Armadas en el Despacho Oval.
— Argemino Barro (@Argemino) March 5, 2026
El año pasado Trump creó la Oficina de la Fe y la colocó en el Ala Oeste de la Casa Blanca. La lidera Paula White-Cain y otros predicadores alineados con la agenda del presidente.pic.twitter.com/88eo00gIHd
Apontemos alguns fatos. Comandantes militares dos Estados Unidos foram denunciados por diferentes soldados por transmitir ordens de doutrinamento religioso. Vários comandantes de tropa foram denunciados por legitimar a guerra com mensagens religiosas, afirmando que a guerra contra o Irã era parte de um plano divino proveniente da profecia bíblica do Armagedom. Armagedom, segundo relato do Apocalipse 16,16: “os reuniu num lugar que em hebraico se chama de Armagedom”, seria o lugar onde acontecerá a batalha final e definitiva do bem contra o mal. Armagedom é o lugar onde acontecerá a vitória final de Deus contra o mal do mundo. Estes comandantes pregam para a tropa que a batalha contra Irã é a batalha de Armagedom, o Irã seria o anticristo, o mal a ser derrotado no mundo. O governo Trump seria um emissário divino para conseguir realizar a vitória final do bem no mundo.
A organização civil Military Religious Freedom Fundation (MRFF) confirmou que só nas primeiras semanas da guerra recebeu 110 denúncias de diferentes militares. Essas denúncias foram registradas em mais de 40 unidades dispersas em aproximadamente 30 instalações militares dos Estados Unidos. Segundo declarações feitas por um suboficial que testemunhou os fatos, diz que o comandante da tropa afirmou que Trump “tinha sido ungido por Jesus para acender o sinal do fogo em Irã e causar o Armagedom que marcaria o retorno de Jesus para a Terra”. Segundo o relato do suboficial, o comandante da tropa afirmou que esta guerra era “parte do plano divino de Deus”, e passou a citar diferentes passagens do livro do Apocalipse relacionadas com o Armagedom e o retorno de Jesus Cristo.
Estes fatos são o reflexo de uma realidade mais profunda: a manipulação escandalosa da religião cristã como estratégia para impor uma política teocrática. Tal manipulação é realizada por diferentes grupos e igrejas ultraconservadoras e fanáticas que pregam uma leitura sectária dos diferentes textos bíblicos. Esta versão religiosa sectária está nas raízes de muitos grupos supremacistas, ultraconservadores e neofascistas que se espalham pelos Estados Unidos e também por muitos países de América Latina, como o Brasil. Não é possível compreender a existência e a permanência do governo Trump, assim como de outros líderes políticos latino americanos de extrema direita, senão se compreendem as raízes sociais e ideológicas que alimentam e legitimam estes grupos religiosos sectários.
Nestes grupos e igrejas, o fanatismo político se alimenta do sectarismo religioso e vice-versa. Há muitos exemplos que mostram esses vínculos e que se estendem até a guerra contra Irã. O secretário de defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseht, que se identifica como “um cristão renascido”, realiza encontros mensais de oração no Pentágono e participa de “estudos bíblicos” semanais na Casa Branca. Um caso paradigmático do modo como o governo Trump instrumentaliza a religião para legitimar suas estratégias políticas está na convocação que Pete Hegseth fez, no dia 30 de setembro de 2025, que de forma inédita e urgente convocou a centos de altos mandos militares dos Estados Unidos (generais, almirantes, brigadeiros, etc.) a uma reunião presencial em Quantico, Virgínia, com o objetivo de alinhar toda a cúpula militar sob o discurso religioso, e implementar valores que denominou de cristãos para todas as forças armadas. A conselheira espiritual de Trump, Paula White, também propaga esta ideologia. Outros líderes religiosos do círculo de Trump associaram a guerra contra o Irã às interpretações proféticas do fim dos tempos. Como faz o pastor John Hagee que afirma que estes acontecimentos indicam a proximidade do “fim dos tempos”. No último feriado da Páscoa, o governo Trump publicou nas suas redes sociais um vídeo no qual se equiparava os sofrimentos de Jesus com os sofrimentos de Trump na luta contra o mal; ainda o vídeo comparava que assim como Jesus teve a vitória sobre a morte, a vitória de Trump é garantida pela ressureição de Jesus. Trump seria um novo Messias para salvar o mundo do mal.
Na terça feira, 7 de abril, Trump publicou na sua rede social uma ameaça contra o Irã dizendo: “uma civilização inteira morrerá esta noite para nunca mais ser ressuscitada”. O mundo inteiro ficou perplexo perante o alcance destas palavras numa pessoa que tem o poder nuclear de destruição total ao alcance da mão. A mensagem combina a linguagem apocalíptica do Armagedom com a frieza de uma imoralidade total do que significa a morte de milhões de pessoas pela simples decisão de um poder soberano. A referência histórica mais próxima desta ameaça foi a solução final implementada pelo regime nazista.
Para entender melhor a teologia política que alimenta as estratégias beligerantes e bélicas do governo Trump e dos grupos sociais e econômicos que o sustentam é necessária uma análise mais capilar. Para tanto, merece a pena destacar e analisar a figura de Peter Thiel, um bilionário do Vale do Silício, que no mês de março passado levou até as portas do Vaticano um conjunto de conferências sobre o “anticristo”. Foram várias conferências celebradas em Roma, com alta afluência de um público previamente selecionado, sem presença de jornalistas. Inclusive numa das principais avenidas de Roma, antes da chegada de Thiel, foi publicada uma faixa com um conhecido versículo de São Lucas: “Eu vi Satanás cair do céu como um relâmpago. Bem-vindo, Peter Thiel”.
Peter Thiel é fundador da empresa de inteligência de dados Palantir. É um inversor de primeira hora do Facebook, cofundador com Elon Musk da multinacional Paypal. Também forma parte de um fundo global de investimentos, Clarium Capital, que administra bilhões de dólares. É sócio administrador do Fouders Fund, outro fundo de capital de risco. Dada a sua influência e poder, Peter Thiel é conhecido como o “Dom” da máfia do Paypal.
Este magnata da tecnologia, Peter Thiel, acredita que o antagonista de Cristo pode se aproveitar do medo da humanidade às mudanças climáticas, à guerra nuclear e à inteligência artificial para criar um governo mundial totalitário. É uma visão religiosa alinhada com os grupos sectários cristãos ultraconservadores, que serve perfeitamente para legitimar a visão política da ultradireita supremacista que apoia o governo Trump em sua estratégia de desconstruir e eliminar os diferentes organismos mundiais de cooperação e multilateralismo.
Peter Thiel continua a promover conferências e encontros em diferentes universidades dos Estados Unidos e de Europa com objetivo de difundir uma espécie de teologia política do poder soberano. Entre os pensadores que inspiram suas ideias destaca-se o jurista filósofo nazista Carl Schmitt e suas teses de teologia política a respeito da soberania como um poder indivisível que se exerce por um líder único através da exceção, e que as democracias atuais estariam anulando.
Não resulta estranho que o governo Trump utilize constantemente o poder soberano de decidir com medidas de exceção e decretos de emergência como dispositivos para governar. A exceção é o dispositivo que manifesta o poder soberano. Trump utiliza de modo sistemático os decretos de exceção para anular o Congresso e esvaziar as leis vigentes impondo sua vontade a modo de um poder soberano. Através da exceção o governo Trump tensiona a democracia ao limite do autoritarismo possível. Estas práticas políticas de um autoritarismo explícito emanam das teses da filosofia e teologia política de Carl Schmitt.
Peter Thiel é um dos principais representantes do supremacismo político ultraconservador. Sua ideologia política está vinculada a uma leitura sectária dos textos bíblicos. Peter Thiel é apoiador de Trump desde o primeiro momento da campanha de 2016. Ele ajudou a eleger a diferentes políticos ultraconservadores nos Estados Unidos. Entre eles se destaca o atual vice-presidente dos Estados Unidos, J. D. Vance, que já declarou publicamente a admiração por Peter Thiel.
Peter Thiel leva ao extremo a convicção de que a atual guerra contra Irã e Gaza são o comprimento da profecia do Armagedom. Ele, através de sua empresa Palantir teve um importante protagonismo durante a guerra de Gaza. Palantir mantem uma plataforma de Inteligência Artificial Militar, MAVEN, que auxiliou ao Centro de Coordenação Civil (CCVM) nas suas operações no sul de Israel analisando os dados de vigilância dos drones, satélites, telecomunicações, etc. O objetivo da plataforma MAVEN era ajudar a acelerar as operações militares e os ataques aéreos. A empresa de Peter Thiel, a Palantir, está atualmente contribuindo para estabelecer um sistema de controle e vigilância permanente sobre a população palestina através da acumulação de dados, inclusive identificando quase todos os habitantes e seus movimentos.
A guerra contra o Irã ainda em curso, provavelmente, vai impulsionar profundas mudanças na geopolítica internacional que veremos num futuro. Contudo, o que o presente nos mostra é que a barbárie da guerra está eivada por uma teologia política que pretende impor uma espécie de poder soberano em escala mundial. Concomitantemente, essa teologia política se camufla na leitura fanática de determinadas correntes sectárias do cristianismo ultraconservador. Esse coquetel da teologia política sectária está impulsionando o surgimento e expansão de diferentes movimentos autoritários ao longo do planeta. Esses movimentos autoritários do século XXI se assimilam profundamente aos fascismos e nazismo do século XX, ao legitimar-se socialmente através da fabricação de supostos inimigos, dos quais eles se apresentam como salvadores. A teologia política sectária dos novos autoritarismos anula a interpelação ética da consciência humana justificando todo tipo de violência como um ato necessário e útil. Mais uma vez na história os civilizados colonizam com a barbárie e fazem da barbárie o Armagedom de qualquer vestígio de humanidade civilizatória perante o sofrimento do outro diferente.