02 Abril 2026
"Nem o mais otimista pode negar que vivemos tempos sombrios e ameaçadores. Estamos dentro de um mundo sem regras e no interior do caos, sem termos a certeza de que esse caos possa ser generativo e não somente destrutivo. Agora estamos sob a regência do caos destrutivo", adverte Leonardo Boff, teólogo, escritor e filósofo, em artigo na revista ICL LIBERTA. É autor de A ressurreição de Cristo e a nossa na morte (Vozes, 1972) e O evangelho do Cristo cósmico (Record, 1972).
Eis o artigo.
Nem o mais otimista pode negar que vivemos tempos sombrios e ameaçadores. Estamos dentro de um mundo sem regras e no interior do caos, sem termos a certeza de que esse caos possa ser generativo e não somente destrutivo. Agora estamos sob a regência do caos destrutivo. Há uns 18 lugares de guerra, há muitos genocídios e ameaças de uso de armas de destruição em massa. Talvez nem se passem na Terra mas no espaço por onde giram centenas de satélites, alguns carregados de armas mortíferas. Há ainda a ameaça de uma paralização mundial cibernética, feita por uma das potências beligerantes. Tudo pode parar, celulares, aviões, carros, sistema elétrico e de comunicação. Todos ficamos de joelhos, reconhecendo a derrota.
Estamos entregues a umas quatro ou cinco pessoas que podem deslanchar, em momentos de insanidade ou sob ameaça existencial, como é o caso do presidente destinado dos EUA, um guerra nuclear com armas atômicas estratégicas (não táticas) que podem produzir um inverno nuclear. Tal será a densidade de partículas na atmosfera que impediriam a penetração da luz solar. Os efeitos letais sobre a humanidade e a natureza (as plantas não produzira mais oxigênio) são inimagináveis, beirando o desaparecimento da espécie humana.
Perguntamo-nos: como celebrar a Páscoa e a festa da ressurreição neste contexto? A maioria da humanidade vive alheia a estas ameaças, seja pela negação de informações por parte das mídias dos países hegemônicos do grande sistema imperante, seja por ignorância ou descaso. De todos os modos, com ameaças ou sem ameaças, a vida deve continuar com seus afazeres e trabalhos que garantem comida na mesa das pessoas. Viver sem se desesperar.
Antes de mais nada precisamos aclarar o que se entende por ressurreição. Não devemos confundi-la com a reanimação de um cadáver como ocorreu com Lázaro (João 11,1-44; o filho da viúva de Naim, Lucas 7,15; a filha de Jairo Lucas 8,41). Eles voltaram à vida mortal que tinham antes e acabaram morrendo. Ressurreição significa outra coisa: uma transformação radical da existência histórica de Jesus de Nazaré, crucificado, morto e enterrado. Talvez São Paulo expressou melhor o que significa ressurreição: a irrupção do “novissimus Adam” (1Cor 15,45). “Novissimus Adam” significa que nesse Crucificado se mostrou, em antecipação do homem novo, e qual é o futuro da vida: a total realização das possibilidades latentes dentro de cada um, de forma que ele pode ser considerado “o novo ser humano na plenitude de sua humanidade”. Esse ser novo assume a forma de existência do próprio Deus: onipresença, libertação das amarras do espaço-tempo, com um tipo de vida imortal e eterna, jamais ameaçado pela morte. É pura vida em sua suprema expressão à semelhança do Deus vivo.
Moisés morreu, Isaías morreu, Sócrates morreu, Buda morreu, Zaratustra morreu, Confúcio morreu, Lao-ze morreu, Chuang-zu morreu. Jesus ressuscitou e vive entre nós como o Cristo cósmico, presente em todos os espaços no céu e na Terra. De Moisés se seguem os dez mandamentos; de Buda as 5 virtudes básicas, de Confúcio as virtudes do bom funcionário e assim de outros. Pensa-se menos nas pessoas e mais nas doutrinas que deixaram e que humanizam os seguidores. De Jesus se pensa na pessoa que ressuscitou e vive entre nós. Mais importante que os textos do Novo Testamento, recolhidos após 30-40 anos de sua crucificação e de sua ressurreição (compõem o livro do Novo Testamento), é a pessoa de Jesus que conta e com a qual entramos em comunhão como com um ser vivo e presente. Comungamos a totalidade de Jesus (em hebraico, corpo e sangue) pela Eucaristia. E internalizamos sua presença cósmica em todas as coisas.
Esta é a verdade fundamental do cristianismo: a ressurreição do Crucificado. Muitos na história foram crucificados. Mas com Jesus ocorreu algo inaudito que Teilhard de Chardin, palentólogo e que soube articular a evolução com a fé, chamou de um fenômeno cósmico “tremendous”. Outros dizem, a ressurreição é uma revolução dentro da evolução: a emergência antecipada, aventurada e ditosa do fim bom do ser humano e do universo do qual ele é parte.
Ninguém melhor que o Apóstolo Paulo testemunha a ressurreição dizendo: ”Se Cristo não ressuscitou, é vã nossa pregação e vã a nossa fé. Seríamos também mentirosos... Mas na verdade Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos quem morrem... Em Cristo todos reviverão” (1 Coríntios 15,13-15; 20; 22).
Por fim, permito-me um testemunho pessoal. Quando estive nos lugares santos na Palestina em 1976 ocorreu um fato curioso. Sabemos que estes lugares estão sempre apinhados de gente do mundo inteiro que vêm visitar estes lugares sagrados. Nunca alguém está só. Estive no Santo Sepulcro, lugar da ressurreição, sozinho, por 18 minutos contados. Para mim foi um prêmio por ter escrito cerca de mil página sobre Jesus e todo um livro sobre A ressurreição e Cristo e nossa na morte (Vozes). Nos meus escritos sempre volto ao tema da ressurreição. É o que o cristianismo tem a oferecer, mais que os belos ensinamentos do Mestre.
Por mais dramática que se apresente a atual situação da humanidade que criou para si os instrumentos de autodestruição, não podemos viver tristes. Depois que Cristo ressuscitou e mostrou qual é o nosso futuro bom e bem-aventurado, podemos ainda sorrir, brincar e dançar, como as criancinhas da Faixa de Gaza que escaparam do genocídio.
A Páscoa da ressurreição deste ano nos permite uma discreta alegria e confiança. A última página de nossa história não será escrita pela morte mas pela ressurreição da vida até aquele momento em que nosso irmão Jesus ressuscitado também nos transformará à semelhança dele.
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