02 Abril 2026
"Para sair dessa crise, é preciso devolver à Palavra — proclamada, refletida, cantada — a nudez da sua verdade, que diz o essencial sem precisar de penduricalhos. É preciso recuperar aquilo que roubaram dos rituais: a sua capacidade de, mesmo na sucessão dos gestos e palavras, deixar irromper o novo", escreve Marcus Tullius, coordenador-geral da Pascom Brasil, membro do Grupo de Reflexão sobre Comunicação da CNBB, mestrando em Comunicação Social pela PUC Minas e apresentador do programa Igreja Sinodal em emissoras de inspiração católica.
Eis o artigo.
Na Semana Santa, a crise estética do cristianismo fica ainda mais evidente. Uma certa ideia de beleza, moldada por referências setecentistas e camufladas de tradição, acaba por ofuscar a centralidade do mistério: prende o olhar, mas não alcança o coração. Multiplicam-se formas, excessos de ornamentos e encenações que impressionam, mas que, muitas vezes, esvaziam a experiência do essencial.
Há um desejo insistente de retorno. Mas retornar para onde? Ou até onde se consegue ir nessa volta estéril? Não se volta à fonte, à origem viva do acontecimento pascal. Retorna-se apenas até um ponto intermediário da história — um lugar já marcado pelo triunfalismo, pela estetização do sagrado e pela perda de sua força provocadora. Mais uma vez, o mistério vai sendo transformado em espetáculo e a fé em contemplação cada vez mais distante, incapaz de tocar a vida concreta.
No final das contas, trata-se de uma estética mais palaciana que evangélica — um rococó que nos afasta daquela beleza original de Belém, da mesa da Ceia e da crueza do Calvário. A beleza que só é percebida quando se lê estes episódios com as lentes do Evangelho. Seduzidos por uma lógica consumista e exibicionista, romantiza-se tudo - do jumento à ressurreição. De fato, Byung-Chul Han, em Falando sobre Deus (2025), reconhece que falta à beleza “toda consagração, toda espiritualidade” (p. 101). Isso se dá, segundo o autor, porque ela é desconsagrada como objeto de consumo, o que a priva de toda transcendência e da possibilidade de profundidade.
Nesse contexto, de uma sociedade hipermidiatizada e pouco afeita à escuta, a estética forma mais do que o discurso. O like é a palavra de ordem e, como a serpente do Éden (cf. Gn 3, 1-15), no excesso das imagens está a sedução da nossa atenção. No contexto da cultura digital, essa força se intensifica — a imagem ganha centralidade, circula, se impõe, se torna critério de verdade e de valor.
Quando a estética se alinha à lógica do poder, ainda que de modo sutil, ela comunica um cristianismo distante do Evangelho — mais próximo do palácio do que da manjedoura, mais próximo da encenação do que da Encarnação.
Na mesma obra de Han, o filósofo afirma que a atual crise da religião tem, em uma de suas razões estruturais, o declínio da atenção. Evocando Simone Weil, atribui que a humanidade está mais preocupada em comer e, por isso, perde a capacidade de contemplar. O comer reflete o imediatismo, o consumo, os estímulos, os vícios... está no campo do visual, daquilo que atrai os nossos olhos, o estético. Daí que “a atual crise da atenção está ligada ao fato de que queremos apenas consumir tudo, devorar tudo, em vez de olhar. [...] A alma que apenas come sem olhar perde a capacidade contemplativa” (p. 12-13).
Neste tempo de digitalização e saturação imagética – uma verdadeira iconorreia – passamos a ver o mundo através das telas, fazemos imagens em sequência e muitas que nunca vamos compartilhar. Se visitarmos as galerias de imagens do celular, talvez não lembremos nem a décima parte das fotos que tiramos, simplesmente pelo fato de não perder nenhum clique. É aquela sanha de que “tudo é imediatamente acessível, alcançável, calculável e consumível” (p. 16). E a religião, segundo expressa Han, “pressupõe uma atenção voltada para as coisas que se recusam a se tornar disponíveis, ser consumidas, ‘comidas’” (p. 15).
Não precisamos rejeitar a beleza, mas libertá-la deste verniz que lhe impuseram. Nesta beleza pensada mais para os cliques, para a performance, que para si própria, fugimos daquilo que nos aproxima do belo, “um meio sem fim” (p. 108). Afinal, nas coisas pensadas mais para as telas do que para uma possibilidade real de encontro, desvela-se mais o humano, numa atitude vaidosa e narcísica. “A tela digital é tudo, menos a vidraça transparente através da qual flui a luz de Deus” (p. 116). É preciso reconduzir a beleza à sua função mais profunda — não a de encantar os olhos, mas a de abrir caminhos para o encontro com o essencial.
Para sair dessa crise, é preciso devolver à Palavra — proclamada, refletida, cantada — a nudez da sua verdade, que diz o essencial sem precisar de penduricalhos. É preciso recuperar aquilo que roubaram dos rituais: a sua capacidade de, mesmo na sucessão dos gestos e palavras, deixar irromper o novo. Han, em O desaparecimento dos rituais (2021), poeticamente afirma que “pela sua mesmidade, sua repetição, estabilizam a vida” (p. 12). E é neste frenesi de produzir, consumir, aparecer, afasta-se a possibilidade de permanências. As coisas que são criadas, pensadas, produzidas e celebradas para serem consumidas sucumbem a esta lógica de uma estética cada vez mais cooptada pelo clique, pelo econômico e pelo performático.
Tais reflexos da crise estética e da crise dos rituais desencadeiam crises de comunidade. Segundo Han, “rituais criam uma comunidade de ressonância capaz de um acorde, de um ritmo comum. [...] Sem ressonância, a gente ecoa a si mesmo e isola para si” (p. 23). As câmaras de eco inflam o ego de quem é visto, mas não chegam a construir comunidade. E cristianismo sem comunidade e rituais sem ressonância geram espectadores fascinados, mas não cristãos verdadeiramente transformados pelo que se celebra.
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