“Mobilizar o ódio dá muitos votos em momentos de crise”. Entrevista Adriana Hest

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27 Março 2026

A desinformação se tornou um dos campos de batalha centrais da política contemporânea. Em La ultraderecha contra la verdadAdriana Hest analisa como algumas das mentiras mais disseminadas no debate público são construídas e propagadas: da imigração ao feminismo e a segurança. Com base em 50 mentiras recorrentes, o livro rastreia as estratégias discursivas utilizadas pela ultradireita para empregar narrativas simples, emocionais e virais que, em muitos casos, acabam deixando os dados de lado.

A entrevista é publicada por Librújula, 16-03-2026. A tradução é do Cepat.

A cientista política e jurista, Adriana Hest, com 200 mil seguidores nas redes sociais, alerta que a normalização da mentira na política não é apenas um problema de informação, mas também da democracia. As redes sociais, os algoritmos e as câmaras de eco favorecem a circulação de mensagens baseadas no medo ou no ódio, enquanto o debate público se polariza e certos discursos extremistas ganham legitimidade institucional. Diante desse cenário, a autora defende a recuperação do pensamento crítico, o fortalecimento do papel do jornalismo e a reativação de uma resposta social que ultrapasse a esfera institucional.

Eis a entrevista.

Em ‘La ultraderecha contra la verdad’, você desmascara 50 mentiras muito presentes no debate público. Qual delas é mais preocupante devido ao seu impacto real na vida das pessoas?

É preocupante que as pessoas estejam baseando suas opiniões e votos em falácias; falácias que mobilizam o ódio, a desumanização e o irracionalismo. É muito duro ver como pessoas do nosso próprio círculo: família, amigos, colegas de trabalho... fundamentam suas ideias em mentiras que alimentam o medo e a rejeição ao outro. Acho que todos nós já ouvimos, em diversas ocasiões, muitas das inverdades compiladas neste livro.

O debate público se desviou para esse terreno e isso tem consequências muito graves para a convivência democrática e a segurança coletiva. Discursos de ódio, polarização e, inclusive, o terrorismo de extrema-direita não param de crescer. Precisamos reagir antes que seja tarde demais.

Muitas das ideias que você analisa - sobre imigração, feminismo e segurança - são disseminadas principalmente nas redes sociais. O que torna a desinformação mais eficaz do que os fatos?

As notícias falsas se espalham muito mais rápido do que a verdade porque são criadas para esse fim mesmo. Baseiam-se em emoções como medo, ódio e desespero. São sensacionalistas e dizem ao receptor o que quer ouvir. Uma vez lançada uma mentira, no intervalo de tempo que se gasta para desmascará-la, já conseguiu se instalar na mente de muitas pessoas.

Além disso, temos as câmaras de eco nas redes sociais, o que significa que muitas pessoas recebem notícias falsas e nenhuma informação real. Apelos negativos constantes contra mulheres, imigração ou qualquer grupo vítima do discurso da ultradireita acabam impactando gravemente as convicções de uma pessoa.

Junto à compra ou posse das redes sociais por pessoas relacionadas ao movimento MAGA, soma-se um algoritmo que beneficia as mentiras da ultradireita. São muitos os fatores que tornam a mentira muito mais atraente do que a verdade e que, portanto, dá a ela maior relevância e capacidade de se tornar viral nas redes. Estamos no cume de “a narrativa mata o dado”.

Com a recente regularização de pessoas migrantes, as mensagens alarmistas ressurgiram. Por que a imigração continua sendo um dos principais bodes expiatórios políticos?

Oprimir setores que já estão oprimidos, em si, é típico da ultradireita. Apontam para essas pessoas que incorporam elementos de diferença e dissidência, razão pela qual é muito mais fácil mobilizar o ódio contra “o estranho” ou “o exterior”. É um discurso que oferece soluções muito simples para problemas muito complexos.

Se há uma crise de moradia, o problema é a imigração. Se há uma crise na saúde pública, o problema é a imigração. Se não conseguimos chegar ao fim do mês, o problema é a imigração. Se o seu salário não aumenta, não consegue encontrar um emprego ou tudo está muito caro, o problema é a imigração. Dessa forma, gera-se a ideia de que são nossos inimigos comuns e que, se conseguirmos erradicá-los, tudo ficará bem.

Isso já aconteceu com o fascismo clássico: fazer com que a população jogue a culpa de todas as nossas desgraças em um grupo oprimido e mobilizar o ódio dá muitos votos em momentos de crise.

Em um dos capítulos mais impactantes do livro, você aborda a desinformação contra o feminismo. Por que o antifeminismo se tornou um eixo central do discurso da ultradireita?

Durante alguns anos, vivemos o auge do feminismo; as mulheres perceberam que a regulamentação legal da igualdade ou a perseguição à violência de gênero não eram suficientes, mas, sim, um sintoma de uma sociedade machista que precisa ser erradicada. Começamos a questionar os privilégios dos homens e isto, claro, provocou uma reação. Sempre que se busca avançar na ampliação de direitos de grupos oprimidos, nós nos deparamos com uma reação do sistema.

O feminismo desconcerta e incomoda. É progresso e supõe, por um lado, essa perda de privilégios de um setor muito grande da população. Todos sabemos que o feminismo também significa certas vantagens para os homens, mas a verdade é que muitos não querem competir no mercado de trabalho de modo igualitário, assumir as tarefas do lar e do cuidado dos filhos ou, inclusive, que suas atitudes e linguagem machista sejam questionadas.

Por outro lado, a ultradireita percebe qualquer avanço em direitos e liberdades como uma ameaça; vai contra a sua própria razão de ser. Consegue ridicularizar o movimento e, em muitos países, inclusive, chega a questionar o voto feminino. Não nos demos conta do monstro que criamos: o antifeminismo, a aceitação da desigualdade, o ódio à mulher… dentro das instituições.

Repete-se muito a ideia de que “endurecer as penas” é a solução para problemas complexos como a violência e a insegurança. O que os dados nos dizem frente a essa narrativa?

É muito fácil pensar que endurecer as penas leva a uma diminuição dos crimes; parece até lógico. No entanto, a realidade é muito mais complexa. Para entender isso, basta olhar para os Estados Unidos, um país onde as penas são extremamente altas e as taxas de criminalidade são inacreditáveis para qualquer democracia. Ao mesmo tempo, o investimento que o país faz em educação, em integração social, no combate ao vício em drogas e em tudo o que se traduza em melhorar as condições socioeconômicas da população é nulo.

A criminalidade não está relacionada ao número de anos que se pode passar na prisão, porque os criminosos geralmente cometem crimes com total desconhecimento do Código Penal e sempre pensando que não serão detidos. Observa-se que, na realidade, ir à raiz dos problemas, sim, oferece soluções. A criminalidade guarda relação com a pobreza (não de forma direta, porque ser pobre não o torna um criminoso, mas é um fator de risco), com a exclusão social, com a falta de emprego e com a educação.

É importante que tenhamos sociedades educadas e com boas condições socioeconômicas para reduzir a criminalidade, sem fechar as pessoas a vida toda por terem cometido crimes. As leis estruturais, que contemplam as raízes do problema, dão mais frutos do que as leis punitivistas que só buscam vingança ou exemplaridade, quando o que queremos é que os crimes não aconteçam; não ter prisões superlotadas.

Você fala sobre a normalização da mentira como estratégia política. Estamos diante de um problema de informação ou diante de um problema democrático mais profundo?

As duas coisas. Temos um problema muito grave com a informação e não estamos sabendo respondê-lo ou cortá-lo de modo eficaz. Vivemos na era da informação e estamos mais desinformados do que nunca. As redes sociais mudaram o mundo, mas também a forma como nos informamos, pois recorremos muito a elas, especialmente os jovens. Se unirmos isto à quantidade de notícias falsas presentes nela e com o fato de muitos meios de comunicação tradicionais também assumirem a mentira como válida, estamos diante de uma população que baseia suas ideias em falácias.

Outra consequência é que há tanta informação que não sabemos mais o que é verdade e o que é mentira. Isto nos leva à paralisia. Talvez as instituições devessem tomar medidas para lidar com isso. Do ponto de vista democrático, sinto que progressivamente fomos normalizando esse tipo de comportamento na política: o ódio, a insatisfação, a linguagem antipolítica, o insulto… tudo isso fundamentado em mentiras. Fomos normalizando e legitimando tudo até o ponto de ser comum ver autênticas falsidades no Congresso dos Deputados.

Lembro-me, por exemplo, que durante a DANA, um partido político, em plena coletiva de imprensa no Congresso, chegou a dizer que o Governo da Espanha escondia cadáveres para lavar as mãos em relação ao que havia acontecido. São ditas tantas barbaridades que vamos ampliando nossa capacidade de considerá-las válidas, inclusive reais. O limite da liberdade de expressão, das palavras, das mentiras e até mesmo das ações vão cada vez mais se deslocando e ampliando.

É o que vemos claramente nos Estados Unidos. E, ao mesmo tempo em que aumentamos esse limite, ocorre uma deterioração na qualidade de nossas democracias. Ainda não percebemos o perigo de todos esses discursos e talvez um dia acordemos com novos regimes autoritários e sem liberdades ou direitos, porque os permitimos e legitimamos muito. Isso já está acontecendo nos Estados Unidos.

No livro, você explica como funcionam as câmaras de eco. É possível escapar delas hoje ou estamos cada vez mais presos em bolhas ideológicas?

A verdade é que estamos ficando cada vez mais presos nessas câmaras de eco, porque é assim que as redes sociais funcionam. Contudo, podemos agir em nível individual para não ficar presos nessas bolhas ideológicas. Eu sempre tento recomendar às pessoas que me seguem que se informem em muitos meios de comunicação, que verifiquem todas as informações que recebem, que questionem seus próprios pensamentos e estejam cientes do emissor da informação.

Infelizmente, agora, e ainda mais com a inteligência artificial, todos podemos cair em mentiras ou algoritmos que nos mostram apenas uma forma de pensar, mas podemos combater isto, se tivermos informações reais suficientes. O mundo em que vivemos é muito complexo nesses termos, por isso acredito que a chave é nos educarmos.

Qual é a responsabilidade dos meios de comunicação tradicionais frente à desinformação, sem cair na equidistância, nem em porta-voz do ódio?

Os meios de comunicação tradicionais devem desempenhar um papel crucial na hora de informar. Infelizmente, muitos estão agindo da mesma maneira que um youtuber em Andorra, com zero conhecimentos políticos, mas muitos interesses econômicos. Já vi as primeiras páginas dos jornais mais importantes do país com boatos de baixo nível. Não procuram sequer dissimular, porque há pessoas que aceitam as mentiras que sustentam suas crenças falsas como válidas. Os meios de comunicação não precisam ser neutros diante de comportamentos antidemocráticos ou informações falsas; possuem a responsabilidade de ser verazes.

Para isso, deveríamos começar a considerar que dar voz a determinadas ideias, por mais que tenham representação política, não é bom para ninguém, nem atende aos padrões do jornalismo. Informar não consiste em colocar todas as posições no mesmo nível, mas, sim, contextualizá-las, oferecer os dados que faltam, apontar o que é falso e dar voz às consequências que os discursos de ódio podem ter sobre as sociedades. Entendo que a situação atual apresenta muitos dilemas, mas os meios de comunicação tradicionais não podem participar da disseminação das mentiras; jornalismo deve agir como freio para elas, dando voz à verdade e protegendo as democracias.

Seu livro propõe a recuperação do pensamento crítico como ferramenta política. Como isso pode ser feito em um contexto de cansaço, precariedade e insatisfação?

Com este livro, gostaria de mobilizar e transformar esse cansaço, essa precariedade e essa insatisfação em raiva e desejo de agir. Entendo que, dada a situação atual, estamos todos cansados e que a última coisa que queremos fazer é levantar a voz. Além disso, temos um sistema que nos incentiva a permanecer calados. No entanto, se não lutarmos pelos nossos direitos e liberdades, ninguém nos concederá, além do fato de estarmos em um momento histórico em que podem ser tirados de nós. Quero que a raiva que sentimos em relação à situação atual seja transferida paras as ruas, para a política, para os debates, para a resistência e para a organização coletiva.

Diante da ascensão da extrema-direita, você acredita que a resposta deve ser apenas institucional ou também cultural e social?

Deve ser uma resistência global e, inclusive, penso que essa resistência cultural e social é mais importante do que a institucional, porque somos nós que elegemos nossos representantes políticos. Na cultura, acontecem coisas muito boas e devemos aprender muito com isso. Por isso, o fascismo sempre a detesta.

Como cidadãos, temos que nos organizar novamente e dar à política a relevância que ela tem. Não é o momento de olhar torto. Eu adoraria ver uma reação político-social na escala do 15M , porque a ultradireita sabe como mobilizar a população e nós, democratas, temos que responder. Isso não fica no institucional; afeta a todos nós.

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