"Lutamos pelos nossos direitos, mas a guerra está nos fazendo retroceder". Entrevista com Sayeh, jornalista iraniana

Foto: RS/Fotos Públicas

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25 Março 2026

Entrevista com uma jornalista renomada: “O regime matou milhares de pessoas, mas não ficarei em silêncio sobre o massacre dos estudantes de Minab.”

A entrevista é de Gabriella Colarusso, publicada por La Repubblica, 25-03-2026.

No outro dia, Sayeh foi ao parque com seu filho de cinco anos, Kian, um amigo e a mãe dele. "As crianças brincaram e correram por todo lado; eu mal podia acreditar. Tomamos sorvete e fomos para casa." Ao seu redor, Teerã estava silenciosa e vazia. "Estamos cercados por tiranos: o regime, os Estados Unidos e Israel. Mas se eu tiver que escolher, fico com o meu país."

Sayeh é uma jornalista conhecida, mas esse não é seu nome verdadeiro: as ameaças internas e do que ela chama de "extremistas da diáspora" são urgentes demais para arriscar revelar sua identidade. Trocamos cartas à noite, quando a conexão está boa. A capital está sob ataque. Os iranianos, diz Sayeh, só importam quando morrem. Os mortos pelo regime se tornam "material para pontos na ONU" para algum "ativista no exterior". Dos mortos pelas bombas americanas, ninguém sequer sabe: "Para o governo, continuamos sendo apenas uma estatística". A guerra tornou tudo mais obscuro, indecifrável. Os iranianos agora não sabem quem realmente toma as decisões. "Ninguém se dá ao trabalho de nos explicar por que o líder do país envia mensagens escritas, quem governa." Mas é evidente que o poder está nas mãos dos militares.

"Não há dúvida de que os Pasdaran destruíram a ilusão de Trump de uma guerra curta. Não há sinais de que o sistema esteja entrando em colapso. Não há escassez de itens de primeira necessidade. A infraestrutura está funcionando. Há coordenação entre o exército e a Guarda Revolucionária. Serviços estão sendo prestados aos feridos e deficientes. Isso é um sinal de controle na administração do país."

Sayeh era criança durante a guerra contra o Iraque de Saddam Hussein, então apoiado por todo o Ocidente. Como muitos iranianos de sua geração, ela cresceu em meio a mutilações, feridos e explosões. "Netanyahu arrastou Trump para um conflito cujas causas ninguém conhece. E Trump mergulhou o Irã e o Oriente Médio no caos desde o primeiro dia de seu primeiro mandato. Tínhamos acabado de assinar um acordo importante como o JCPOA, os Estados Unidos o violaram e nos vimos cercados por extremistas, tanto internos quanto externos. Um cerco que continua até hoje."

O Irã de Sayeh é o de uma classe média ponderada que produz filmes, lidera sindicatos e organizações da sociedade civil, trabalha em jornais, cria arte, desafiando constantemente a censura e a repressão, mas que hoje se opõe amplamente à guerra. A lição do Afeganistão está gravada na memória: 20 anos "para substituir o Talibã pelo Talibã. Com o movimento Mulheres, Vida e Liberdade, as mulheres iranianas puderam se vestir como quisessem. Conquistamos as ruas, os comércios privados e os parques, e lentamente os escritórios do governo. Isso enquanto, nas escolas femininas, as atitudes em relação ao véu, ao cabelo e à maquiagem estavam mudando", explica Sayeh. O famoso sociólogo iraniano, Asef Bayat, chama isso de "progresso silencioso": trazer a vida cotidiana, que o governo considera ilegal, para o espaço público, reivindicando-o como um espaço político. "Com a militarização do Irã, será que a República Islâmica, um regime que perdeu sua liderança ideológica, sobreviverá, aceitará nosso 'progresso silencioso'? Ou nossos esforços civis serão em vão?"

A guerra no Oriente Médio não trouxe democracia. "A diáspora iraniana que apoiou o ataque esquece que a vida aqui é diferente da Europa. Estávamos conquistando nossos direitos passo a passo e, de repente, fomos soterrados pelas terríveis ondas da guerra." Em janeiro, as forças de segurança mataram milhares de pessoas, mas "isso não significa que eu deva fechar os olhos para o massacre de meninas na escola de Minab." Este é um tempo de guerra, e pessoas como Seyah são movidas pelo dever de defender a nação. Mas, quando o conflito terminar, caberá mais uma vez aos iranianos reconstruir suas vidas e "àqueles que foram oprimidos por este regime recuperar seus direitos."

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