Instituto Humanitas Unisinos - IHU promoveu viodeconferência sobre formulações teológicas e acadêmicas das categorias antigênero na última terça-feira, 24-03-2026
Atualmente, muitos movimentos religiosos têm se posicionado de forma política, atuando como instrumento de posicionamento ideológico e antigênero. É nesse cenário que a extrema-direita ganha força, domina espaços de fé, dialoga com pensamentos alimentados pelo conservadorismo, que vão contra políticas liberais e de inserção de direitos adquiridos por comunidades LGBTQIAP+ e até mesmo sobre a realização do aborto em casos de risco e violência.
Esses debates, intensificados a partir de frentes alimentadas pelo próprio bolsonarismo, mostram que certas manipulações político-partidárias podem trazer à tona certos discursos que influenciam massas a se posicionarem contra a igualdade de gênero, de modo a excluir ou invalidar pessoas, direitos constitucionais e crenças.
Apesar de haver movimentos religiosos católicos a favor do aborto, grande parte segue rejeitando e negando o direito. O ativismo cristão conservador também segue o fluxo de protestos contra ideias feministas, mesmo com parte dos devotos não compactuando com a submissão da mulher.
É nessa linha de discussão que o episódio do “Ciclo de estudos: Gênero, Religião, Política. Mobilização de crenças e afetos nas agendas antigênero da direita cristã”, se desenvolveu, trazendo uma palestra guiada pela antropóloga e professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Lilian Maria Pinto Sales, transmitida pelo Instituto Humanitas – IHU, no dia 24-03-2026, às 10h.
Especialista em ciências sociais e renovação carismática católica, Lilian analisa os cenários e as movimentações cristãs mediante às realidades e ideologias em diferentes âmbitos da sociedade.
Durante a palestra, a antropóloga relaciona a reivindicação dos direitos das mulheres com a carta encíclica "O Evangelho da Vida" (Evangelium Vitae). O documento magisterial é considerado um “direcionamento do posicionamento do Vaticano sobre bioética, especialmente em temas relacionados ao início e ao fim da vida e à concepção de uma cultura de morte”. Nesse contexto, a autora esclarece que “a concepção da cultura de morte é cunhada nessa encíclica para defender a disposição católica contrária a qualquer intervenção ou interrupção não naturais da vida humana, abrangendo temas como aborto, a eutanásia e o uso de células embrionárias”.
No artigo Religião, gênero e esfera pública, a pesquisadora comenta que “na América Latina, grupos religiosos organizaram reações preventivas à ampliação das pautas dos direitos das mulheres e LGBT, articulando redes que reafirmam uma compreensão tradicional da família”. No texto, ela discute a importância da secularização na política, trazendo exemplos contrários à ideologia, relatando sua retificação em meio às ciências sociais no poder público.
Em sua pesquisa "O ativismo católico antiaborto e antigênero: novos atores, novas (e velhas) práticas", a especialista estuda a questão a partir da análise dos protestos da Marcha em Defesa da Vida, realizada em 03-12-2018, em São Paulo.
A professora acompanha as disputas públicas em torno do início da vida no país desde 2012, identificando e mapeando atores, movimentos e instituições religiosas que se posicionaram publicamente contra o aborto nas controvérsias públicas nacionais, bem como as estratégias forjadas sobre o posicionamento “pró-vida” mediante às relações de poder.
Segundo Lilian, naquele momento em que o ex-presidente Jair Bolsonaro havia acabado de se eleger, em meio a estes movimentos, houve uma mudança de paradigma, tendo novos atores e mudanças nas estratégias de ação.
De acordo com sua avaliação no artigo, “o surgimento desses atores se faz em meio a um contexto de ascensão de populismos conservadores e de uma política de base antagonística, fortemente embasada na criação de 'inimigos' como forma de busca de ordem e segurança”.
É a partir dessa relação da fé com a “nova direita” que posicionamentos antigênero se intensificam em meio a discursos de ódio implantados diretamente na política, mediante a posicionamentos e estratégias de manipulação.