“Trump não tem estratégia, ele ameaça porque está desesperado”. Entrevista com Ravi Agrawal, editor da Foreign Policy

Donald Trump. (Foto: Molly Riley/Flickr)

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23 Março 2026

"Um ato de desespero que não produzirá os efeitos desejados". É assim que Ravi Agrawal, editor da revista Foreign Policy, avalia o ultimato do presidente Trump ao Irã para reabrir o Estreito de Ormuz.

Na sexta-feira, ele disse que estava considerando reduzir seu compromisso militar; no sábado, ameaçou destruir a infraestrutura elétrica do país.

"Essas declarações são contraditórias e confirmam a falta de estratégia e de objetivos claros. Percebemos um sentimento de desespero. Destruir as usinas nucleares seria devastador para o povo iraniano, e ainda mais para o regime. Há a suspeita de que essa ameaça seja uma tentativa desesperada de reabrir o Estreito de Ormuz, mas não funcionará, pois o que resta do governo está focado na sobrevivência e sabe que a capacidade de sufocar a economia global é sua principal alavanca. Se desistirem, não lhes restará nada".

A entrevista é de Paolo Mastrolilli, publicada por La Repubblica, 23-03-2026.

Eis a entrevista.

A maior usina nuclear é a usina nuclear de Bushehr. Quais seriam os riscos de um ataque aéreo?

Haveria riscos não apenas devido à falta de eletricidade, mas também devido ao risco de contaminação radioativa com consequências catastróficas para a população e o meio ambiente.

Cortar o fornecimento de eletricidade não ajudaria a derrubar o regime?

Não sei, mas o que sabemos sobre este regime é que os primeiros a sofrer são sempre os cidadãos. Os militares e a ala mais extremista da Guarda Revolucionária estão no comando e, quando os recursos são escassos, são cidadãos que sofrem primeiro. Por exemplo, agora há um corte na internet, mas a liderança tem acesso por meios especiais. O mesmo aconteceria com comida, remédios ou eletricidade.

As pessoas não se revoltariam?

Precisamos nos colocar no lugar deles e lembrar o que aconteceu em janeiro, quando milhares de pessoas foram mortas. As pessoas podem chegar à conclusão de que a única opção é se revoltar, sabendo, porém, que isso será recebido com força máxima.

Se a ameaça de Trump for um ato de desespero, não encoraja o regime a não ceder?

Isso já está acontecendo. O regime acredita ter sobrevivido ao ataque mais severo dos EUA e de Israel, e um elemento-chave desse sucesso é a capacidade de infligir enormes custos econômicos à região e ao mundo.

Por quanto tempo isso pode continuar resistindo?

É uma guerra assimétrica; o Irã não precisa de grandes operações militares para ter sucesso. E não se trata apenas de petróleo, porque 20% do gás mundial passa por Ormuz, assim como um terço do hélio usado em semicondutores e fertilizantes.

Por outro lado, existem os custos para os EUA, que afetam a economia, mas também o esgotamento do seu arsenal. Por quanto tempo Trump conseguirá sustentar a intervenção?

Só ele sabe disso, especialmente porque os objetivos da campanha mudam diariamente. Os custos econômicos já são evidentes, desde os preços da gasolina e a inflação até os cancelamentos de voos pelas companhias aéreas. Quanto ao arsenal, nas três primeiras semanas da guerra, o Pentágono já utilizou mais interceptores e mísseis do que a produção anual dos EUA. Agora terá que acelerar a reconstrução, mas isso levará tempo. Enquanto isso, os EUA ficarão mais vulneráveis no Pacífico e à China, sem falar da Rússia, que está faturando US$ 200 milhões a mais por dia graças ao aumento dos preços do petróleo.

Trump está enviando os fuzileiros navais. Será que ele poderia atacar por terra?

Aqui também, a questão fundamental é qual o objetivo. Isso custaria muitas vidas, e o presidente historicamente se opôs a tais intervenções. Em vez disso, ele deveria encontrar uma maneira de declarar vitória e parar, porque a cada dia que passa o custo aumenta.

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