13 Março 2026
"Ser jornalista no Vaticano durante esses anos me ensinou repetidamente que a Igreja é realmente o povo de Deus. Sim, existem denominações, estruturas, organizações, regras, tradições, líderes, ritos e rituais — e preferências pessoais em cada uma dessas categorias. Mas focar excessivamente em apenas um aspecto nos leva a uma visão limitada. O que precisamos é de uma visão periférica para enxergar a maior parte do que Deus está fazendo e reconhecer as pessoas através das quais Deus está agindo", escreve Cindy Wooden, jornalista, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 11-03-2026.
Cindy Wooden aposentou-se em 1º de janeiro do cargo de editora-chefe do Catholic News Service em Roma.
Eis o artigo.
Ser correspondente do Vaticano por mais de três décadas significou estar na presença de papas, presidentes, futuros santos e milhares de pessoas que seriam o que o Papa Francisco chamou de “os santos da porta ao lado”.
Vivi em Roma durante 36 anos, acompanhando três papados com três estilos de atuação diferentes. De forma geral, São João Paulo II tentou reunir os católicos após as bem-intencionadas tentativas e erros que se seguiram ao Concílio Vaticano II; o Papa Bento XVI usou suas habilidades como professor — e não apenas como acadêmico — para instruir os católicos sobre os fundamentos da fé cristã e da vida cristã no mundo moderno; e o Papa Francisco os enviou ao mundo, lembrando-os de sua missão primordial de compartilhar o Evangelho em palavras e ações. Em cada caso, alguns católicos se sentiram excluídos e outros, marginalizados.
Os primeiros dias do pontificado de Leão XIV parecem ser uma continuação calma e ponderada da direção estabelecida por Francisco em diversas áreas-chave, incluindo o compromisso com uma aproximação sinodal àqueles que se sentiam afastados da Igreja e a insistência nos dons e responsabilidades missionárias de todos os católicos. Ele também parece estar reafirmando o reconhecimento, feito pelo Papa Francisco, da autoridade doutrinária das conferências episcopais nacionais e confiando nelas para se pronunciarem de forma prioritária e clara sobre os desafios à vivência do Evangelho em seus países, como a Conferência dos Bispos Católicos dos EUA está fazendo em relação às questões de imigração.
Ao me preparar para retornar aos Estados Unidos após décadas no exterior, vasculhei anos de credenciais de imprensa, fotos e recortes de jornais acumulados. Mas algumas memórias não precisam desses lembretes visuais.
Jamais me esquecerei da expressão de dor no rosto do Papa Francisco em 2016, quando mencionei, durante uma coletiva de imprensa a bordo de um avião, o massacre de 49 pessoas em uma boate gay em Orlando, na Flórida. Perguntei a ele se achava que a Igreja deveria se desculpar por contribuir para a marginalização de membros da comunidade LGBTQ+.
“A Igreja deve pedir desculpas por não ter se comportado como deveria muitas e muitas vezes”, respondeu o Papa. “Nós, cristãos, devemos pedir desculpas.” Naquele voo de volta a Roma, vindo da Armênia, o Papa Francisco retomou sua famosa frase de 2013 — "Quem sou eu para julgar?" — e a transformou no plural, perguntando "Quem somos nós para julgar?" sobre uma pessoa gay "que tem boa vontade e busca a Deus".
Também houve momentos mais descontraídos nas viagens papais, como a enorme guerra de travesseiros que aconteceu na área reservada à imprensa durante a viagem de Francisco ao México em 2016, em um voo noturno de Morelia de volta à Cidade do México, após um dia de trabalho que começou às 5 da manhã. E o Papa Bento XVI me desejou publicamente um feliz aniversário em um voo papal muito longo em 2008. Meu aniversário durou 36 horas naquele ano, pois saímos da Jornada Mundial da Juventude em Sydney, voamos por mais de 20 horas e pousamos em Roma às 23h.
Também acompanhei o Papa João Paulo II em sua última viagem ao exterior — uma visita de um dia ao Santuário de Nossa Senhora de Lourdes, na França, em 2004. Ele já estava bastante debilitado pela doença de Parkinson e claramente compartilhava da fragilidade física de milhares de seus companheiros peregrinos.
Mas cobrir “a Igreja” para o Catholic News Service, o que fiz de meados de 1989 até 31 de dezembro de 2025, era muito mais do que apenas saber quem ocupava a Cátedra de Pedro. Embora cada papa dissesse e fizesse coisas que me inspiravam, me intrigavam, me desafiavam ou me decepcionavam, o mesmo acontecia com outros católicos.
Tive inúmeras oportunidades de conversar com católicos que economizaram durante anos para ter a chance de visitar a Basílica de São Pedro e acenar para o Papa de longe, durante uma audiência geral. Conheci freiras incríveis que alimentam os famintos, vestem os nus e acolhem os estrangeiros, mesmo quando seus governos dizem que esses estrangeiros são “ilegais”. Rezei com católicos de Pequim e visitei uma escola católica no interior de Gujarat, na Índia, onde as crianças ficaram fascinadas pela minha pele branca e pálida.
Ser jornalista no Vaticano durante esses anos me ensinou repetidamente que a Igreja é realmente o povo de Deus. Sim, existem denominações, estruturas, organizações, regras, tradições, líderes, ritos e rituais — e preferências pessoais em cada uma dessas categorias. Mas focar excessivamente em apenas um aspecto nos leva a uma visão limitada. O que precisamos é de uma visão periférica para enxergar a maior parte do que Deus está fazendo e reconhecer as pessoas através das quais Deus está agindo.
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